Jacob Pinheiro Goldberg

 

 

O PERCURSO

II

    Jacob Pinheiro Goldberg

Doutor em psicologia, psicólogo, professor convidado – University College London Medical – Universidade Eotvos Liorand(Hungria) – Universytet Jagiellonski e Universytet Warszawski (Polônia);  Middlesex University (Inglaterra); Hebrew University of Jerusalém; École des hautes études em scienses sociales (Paris) USP – PUC/SP – PUCC – Universidade de Brasília – UNESP – Mackenzie, Aspirus Wausau Hospital, Wisconsin (E.U.A.) advogado, assistente-social.

 

Índice

 

1 – A importância da Educação Cristão.

2 – O cinema sobre a ótica da psicologia.

3 – A psicologia da mídia.

4 – Desafio no Podium

5 – Projeto Diálogos Abertos.

6 – O Primeiro De Janeiro (Porto Portugal.) - Lançamento Livro

7 - Jorge Sanglard (revisado) Jacob Pinheiro Goldberg em novo livro.

8 – A Madrasta

9 – Cinema e psicanálise.

10 – Carta a Redação com o Doutor Goldberg.

11 – A paixão de cristo - Jacob Pinheiro Goldberg.

12 – Cara e Coragem

13 – Jacob Pinheiro Goldberg: Lições caso Suzane

14 – Entrevista: Como Nossos Pais

15 – Texto do projeto de Resolução.

16 – Presidente da Federação Israelita impede, judeu de entrar em congresso judaico.

17 – Reflexões sobre o cinema no divã.

18 – Moto boy Vida loca.

19 –  Kadish por: Bruno Schulz

20 – O Jidaigeki no Divã.

21 –  Rede Globo – Programa Panorama Entrevista.

22 – Palestrante – Dr.Profº. Jacob Pinheiro Goldberg – O.A.B.J.F – Minas Gerais.

23 – Sociodrama de “Tropa de Elite”

24 – Eutanásia.

25 –  Em A Ógea e A Calhandra.

26 – Visitando Eugenio no colégio Montale.

27 – O partejar obstetra.

28 – Conversando Direito – TV Uniban

29 – Alienação Diálogos Impertinentes.

30 – My Fair Lula

31 – O Gato Preconceituoso – Jornal do Brasil.

32 –  E.T ‘Poema’.

33 – Pronunciamento

34 – Iara uma batalha vencida.

35 – Jacob e Ostroviec.

36 – Blog Favre

37 – Jornal da Ciência ‘Pensamentos do Dia’.

38 – Vida e Morte

39 –  De Maria até Picadilly Circus.

40 – Ulysses Guimarães.

41 – Morte e Vida – Pava Blog.

42 – Lula é fiador dos otimismos dos brasileiros.

43 – Marcelinho, anjo ou demônio?

44 - Viver não é preciso, navegar é preciso.

45 – Alienação

46 – Conversando Direito (TV Uniban)

47 – Tribos Urbanas

48 – Saia Justa

49 – Debate Aberto

50 - O discurso de Lula -  Ainda a Mosca Azul

51 –  Literatura (Rua Halfeld - Maria Paula)

52 - Faltou um divã para FHC

53  - Boletim Especial

54 -  Ilse Keff Jacob

55 - Jacob Pinheiro Goldberg - La poésie comme source de vie.

56 – Solilóquio do farao

57 - Ainda a Mosca Azul - Discurso de Lula

58 - Magia wygnania.

59 -  Estado de Minas [Poemas e Vida]

60 - Woord Shock (Jorge)

61 - Poema (Blog Maria Madalena )

62 - Letralia revista digital Venezuela

63 - Jacob Pinheiro Goldberg - "Maitre á Penser"

64 - Entrevista Com Leandro Piquet Carneiro e Jacob Goldberg no jornal " O Primeiro de Janeiro".

65 - Batman e Coringa - A dupla face de Janus - Jacob Pinheiro Goldberg.

66 - A invenção de Tucano - "Tribuna da Imprensa"

67 - A poesia de João Adolfo Hansen - Jacob Pinheiro Goldberg

68 - E quando a mentira é verdade.

69 - Psicologia no crime de estupro.

 

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1

 

A IMPORTANCIA DA EDUCAÇÃO CRISTÃ

 

PALESTRANTE - DR. JACOB PINHEIRO GOLDBERG

 

IGREJA METODISTA DA CAPA – 21/09/2003

 

Dr. Percival de Souza

 

Creio que entenderemos melhor o tema proposto para nossa reflexão nessa manhã. É profundamente difícil apresentar o Professor Jacob Pinheiro Goldberg, uma das pessoas mais cultas que eu conheço em nosso país, doutor em psicologia, advogado, assistente social, convidado permanente para administrar aulas em algumas das principais universidades do mundo, Inglaterra, Hungria, Polônia, Israel, Universidade de São Paulo, Universidade de Brasília, Universidade Estadual de Campinas, Unesp, Universidade Mackenzie, por isso tudo Professor Doutor Jacob é uma honra muito grande recebê-lo nesta humilde comunidade, é uma alegria muito grande, podermos nessa manhã partilhar do seu saber, da sua cultura, da sua humanidade, da sua percepção, da sua sensibilidade, da sua capacidade de ver as coisas. Professor Jacob o seu nome para nós cristãos, leitores da Bíblia é profundamente ativo. Jacob no relato do Antigo Testamento no livro das origens, dos gêneses é filho de Isaac e Rebeca, irmão gêmeo de Esaú, nasceu grudado no calcanhar, segurando o calcanhar de Esaú, e tenho certeza que o senhor vai grudar em nossos calcanhares simbolizado aqui pela nossa consciência, pelas nossas preocupações das coisas que estão acontecendo e nossa disposição em enfrentá-las. Personagem bíblico Jacob certa feita, foi em primeiro lugar no relato escrito, ele usou uma pedra ele teve um sonho e adormecido naquela pedra, ele teve um sonho em uma escada que unia a terra aos céus por onde subiam e desciam anjos, quando ele acordou, relato da escritura ele comentou que não sabia que D´us estava naquele lugar. Com o Professor Jacob aqui presente, nós temos a absoluta certeza nesse ponto que sabemos que D´us está aqui, sabemos que D´us através do seu Santo Espírito vai nos iluminar para termos uma compreensão de como nos comportar com os seus filhos diante da sua vontade, diante da sua palavra, diante dos seus ensinamentos que continuamente recebe. Por último Professor Jacob, o livro do Gênese menciona ainda um lugar, às proximidades desse reino havia um poço, e para o Jacob de hoje nós podemos dizer que vamos beber desse poço, vamos saciar a sede nesse poço que Jacob me deu. O Jacob, figura tão cara para nós cristãos sendo o pai de José, o grande provedor, enfim, toda aquela historia de Thomas Mann o grande escritor que diz “Que é muito fundo o poço passado”, nós temos certeza que o Jacob presente é um poço muito fundo cuja água que será servida agora vai nos fazer muito bem.

Boa aula, seja muito bem vindo, todos nós somos seus alunos.  

 

 

 

 

 

JACOB GOLDBERG

 

Quando o Doutor Percival de Souza me convidou, eu devo dizer para vocês que eu sofri no primeiro momento de excitação, e para que os senhores compreendam esta excitação eu devo me referir a alguns dados da minha historia pessoal da minha biografia.

Os meus pais foram imigrantes judeus vindo da Polônia antes da Segunda Guerra Mundial, mas eles vieram para o Brasil dar o espírito e a realidade anti-semita que existia na Polônia, uma realidade dificílima que acabou se revingando no período da guerra e eles foram morar em Juiz de Fora. Juiz de fora tem uma comunidade de dez, onze famílias de judeus e eu, fui matriculado em um colégio que é o Instituto Granbery que é um colégio metodista, colégio criado por missionários metodistas norte-americanos, então eu tive na infância e na adolescência um privilégio simulado que eu acho que foi um autêntico presente da vida. Eu tive uma formação judaica em casa e uma formação metodista na escola, durante anos e anos afins eu ouvi hinos como esses vocês cantaram hoje no início de seus trabalhos, este ambiente é extremamente familiar, eu aqui me sinto absolutamente em casa, e quando eu cheguei hoje aqui eu fui recebido por uma das participantes da igreja entre nós que ela introduziu e logo em seguida uma reflexão do Pastor Tarcis Prado o qual ele falava do metodismo como uma reflexão permanente de transformação e de vingança, e o quanto isso repercute e revertera profundamente dentro do que a vida tem me ensinado, de que qualquer fecho implique em morte e que por sua vez nos associa a esta cerimônia vestibular no trabalho de hoje que inclusive corresponde a anos e anos de atuação que eu tenho acompanhado por Percival de Souza através de jornal, de rádio, pela mídia, esse esforço de ter pela resistência. A essa realidade tão difícil, tão agressiva, tão cruel, tão pérfida, que nós sabemos que precisamos defrontar a cada instante das nossas vidas para podermos nos construir enquanto pessoa e poder corresponder a essa dádiva, a esta iluminariam que é o existir. E sentando aqui eu me lembrei de uma frase extraordinária de um grande escritor judeu polonês Isaac Bashevis Singer ele diz “Se isso é possível, tudo é possível” Se eu posso ser recebido nessa casa aonde se anuncia o mistério da presença de D´us na maneira a qual o Percival me recebeu, o Pastor me recebeu, vocês estão me recebendo, tudo é possível, nada é determinado, o inicio é agora, a cada instante a possibilidade da transformação das nossas vidas, essa presença do mistério tem que ser transformado em milagre, do que é na realidade o milagre da ressurreição exatamente por estarem mortos é possível que se revitalizem através de Fênix, e que possa renascer através do verbo, através da palavra, quando o Percival disse da humildade dessa casa ele tava falando da humildade da extremaria da humildade do templo. Alguns anos atrás eu fiz uma viagem para Israel, e quando cheguei diante do Muro das Lamentações eu fiquei parado me excitando e pensando o que significava a minha presença naquele momento, naquele lugar, porque eu devo confessar aos senhores que eu tenho um profundo desinteresse, um absoluto desinteresse, e uma autêntica aversão à banalidade, o banal de alguma maneira me sub me agride, e eu acho que toda grandeza de viver é o instante da percepção deste algo mais que é o anuncio da importância das nossas vidas, o que é que nós estamos fazendo com essa chance de viver, e eu fiquei parado e pensando, se for pra ir até lá como turista, se for para ir até lá para cumprir com o ritual eu não vou. Eu venho de muito longe pra meramente estar obedecendo a um processo de aparência, ou existe algo de essencial ou não me interessa, ou eu não me ponho nisso. Fiquei parado esperando a resposta, e nós todos sabemos que a resposta nos foi dada desde o inicio, nós é que temos que estar atentos e alertas, alertas para ouvir. E no mesmo momento do meu lado eu ouço uma voz dizendo:- Jacob Pinheiro Goldberg, quer o outro lado do mundo? Aqui pela minha constância através de televisão e rádio às vezes as pessoas reconhecem, mas eu pensei quem há de ser? Esse senhor se aproximou de mim e disse:- Eu sou o Bispo do Seminário Paulo Caetano de São Paulo do qual o senhor teve dando uma aula a convite e por indicação Paulo Evaristo Duartes, alguns anos atrás. E ele me perguntou:- o Senhor já foi rezar? Eu falei:- Eu não, estou aqui parado e vou ver se vou. E ele ficou absolutamente surpreso:- Mas como assim? Nós também estamos aqui com uma caravana e nós já descemos até lá, é uma caravana de professores e padres da PUC, e o senhor aqui parado? Excitamos que vá, o senhor tem que ir. Não, respondi para ele, eu só irei se eu tiver certeza que isto corresponde a alguma coisa que faça sentido para mim. Ele me pegou pelo braço e disse:- Se o senhor não quiser ir  por bem, o senhor vai por mal. Foi essa a resposta, daí fui eu de braços dado, rezar com o Bispo da PUC de São Paulo.

         Lá em Juiz de Fora era um contraste sedutor, quando eu ia para o colégio, a maior parte das crianças, dos meninos da escola, eles davam a informação católica, era um colégio metodista, tinha certo número de alunos que eram famílias metodistas do Brasil todo por sinal a maioria de crianças pobres que estudavam por bolsas, não preciso dizer para os senhores que em geral eram os melhores alunos. Me lembro até hoje de um dos meninos, o nome dele é até curioso(..........) brasileiro, rapaz de lá, e um dia cheguei pra ele, peralta do jeito eu era, cheguei pra ele e falei:- Vamos cabular aula? Ele olhou para mim com uma atitude de condenação, e me disse:- Mas como assim? Eu sou metodista, estou aqui e preciso corresponder com as expectativas dos meus pais e da igreja, eu não cabulo aula. Aquilo foi uma marca que ficou para o resto da minha vida. Quando o Percival falou em educação eu pensei que este era um dos episódios que eu preciso levar pra lá.

         Era um garoto de doze, treze anos, mais ele já era uma gente, ele era alguém que sabia que era alguém de instrumento, que o mundo não começava e terminava comigo, e ele estava em sentido de processo. Passam-se alguns anos e eu passei a fazer parte da União da Juventude Comunista em Juiz de Fora, e nós lideramos uma greve estudantil, uma greve de grandes proporções, inclusive toda lideração foi presa lá em Juiz de Fora, e dai fui chamado pelo Pastor Walter Harvery Moore, que era um Reitor do Instituto Granbery, ele tinha um sotaque americano e tinha toda essa entonação que hoje toda a nostalgia consagrada pelo Percival, dessa firmeza, disposição, que vem da alma, vem da convicção e que hoje tanto faz falta no mundo melifico e poucos tem posição de equilíbrio, as pessoas mudam de absolutamente de posição como se mudassem de camisa, e daí o Mister Moore me chamou e eu uma criança sentada ali defronte dele, e ele com a Bíblia na mesa chegou pra mim e disse:- Menino, porque você está fazendo essa greve? Porque você está dirigindo essa greve? Eu peguei, escuta minhas posições, disse as razões ideológicas que eu achava que justificava a greve, ele ouviu com atenção e disse:- Algumas coisas que você, ele não falava você, que o senhor está dizendo, algumas coisas realmente são procedentes, outras não, mas nada disso justifica a greve, porque a greve significa que os senhores não vão estudar, e os senhores estão aqui no colégio para estudar. E eu disse para ele:- Mas eu descordo com o senhor. Ele virou e disse:- É assim? Então ele abriu a Bíblia em certa passagem, pegou a caneta, escreveu uma dedicatória, me entregou a Bíblia e disse:- Então continue dirigindo a greve, se o senhor está convencido de que tem razão, continue dirigindo a greve, e o senhor está suspenso por trinta dias das aulas. O senhor acredita nisso, e eu acredito na minha posição, mas vamos respeitar o regulamento.

Essa foi uma das inúmeras lições da educação metodista que eu recebi no Instituto Granbery, a convicção, a importância do respeito, a posição do outro, a sacralidade porque ultrapassa verdadeiramente em minha opinião, ultrapassa meramente uma questão simples, política.

Às vezes quando ouço expressão dos direitos humanos fico pensando, os erros humanos são essenciais e fundamentais, mas eu acredito que eles precisam estar alicerçados na noção divina do empréstimo da condição humana, e não pode ser colocado só na constituição, é outorgado a muito mais do que isso, por este sentido mais profundo ao qual se referiu o tempo todo o Percival quando falava de Jacob, e enquanto ele fazia a exposição eu ficava pensando, eu sei absolutamente, eu sei da minha fragilidade, da minha desimportância, e eu ouvi o Percival, eu pensei comigo algo muito pertinente ao que eu ouvi do professor João Batista Panisset, outro pastor do Granbery em Juiz de Fora que um dia, olhando pra mim, ele disse:- Se dê importância. No momento dramático que tinha sido reprovado no Ginásio Granbery, bendita reprovação por sinal, permitiu que eu resolvesse estudar com mais profundidade, com mais seriedade. E ele disse isso com ternura, com carinho, sorrindo, ele falou:- Se dê importância. Então quando o Percival fazia referências eu procurava entender a aula eu ele estava transmitindo, do mesmo jeito que a partir da hora que ele formulou esse convite eu fiquei pensando, mas o que é que vou fazer num Templo Metodista, num domingo de manhã, o que eu tenho a dizer? O que isso representa? Eu quero que os senhores saibam, eu disse hoje de manha isso para minha mulher e para os meus filhos que eu considero esses momentos os mais importantes da minha vida, só não digo que é o mais importante porque D´us quis me privilegiar com instantes de tamanha revelação que não cabe a mim julgar aqueles que são mais  ou menos significativos,  mas esse é um dos grandes momentos da minha vida.

         Eu vim muito mais pra receber do que para dar, receber de vocês, e aí eu volto e reitero do impacto que eu tive ao ouvir do Pastor Tarcis Prado aquela afirmação, de que o metodismo é uma permanente transformação e um processo em aberto, ser é que eu entendi bem, espero ter entendido porque foi assim que eu entendi sempre nas aulas do Granbery. Alguns anos atrás eu escrevi um livro chamado ‘Judaísmos’, no plural e o subtítulo do livro é “ético e não étnico”, e é claro que eu fiquei uma posição desconfortável, obviamente porque para a ortodoxia eu sou um herege e é exatamente esse desconforto que se de lado é dolorido e sofrido, do outro lado é progressivo e iluminado.

Hoje quem me deu carona para vir até essa casa foi o cunhado do Percival, e no caminho ele me fez uma pergunta, ele me perguntou se eu achava que realmente a posição de Jesus no judaísmo era uma posição de tamanho desconforto, em seguida o Pastor falava da escola do crenticismo cristão principalmente alemão, que depois da Segunda grande Guerra, depois do “o Holocausto” depois do Y´shua, mas já antes, já diz-se de certo antes, fazia pesquisas para compreender e entender o alcance do significado que inclusive na minha opinião escapa dos nossos olhos, da presença de Jesus no judaísmo, naquela altitude, naquela atitude, naquele momento, e para todo sempre e hoje incluído, e a resposta que eu dei já elaborando é a resposta do Professor Yosef Klauzner, Professor da Universidade Hebraica de Jerusalém que escreveu um livro chamado “Jesus, o Nazareno” e ele termina o livro, vejam bem que é o titular da Universidade Hebraica em Jerusalém, não era o Jacob Pinheiro Goldberg que se caracteriza por ser permanentemente rebelde e incomum, era o Professor da Universidade Hebraica de Jerusalém, na minha boca ficava fácil, na boca dele é solene, e ele diz:- No momento em que os judeus tiverem condições de ler os ensinamentos de Jesus da forma através da qual foram buscados se constar pelo mais luminoso rabino da historia do judaísmo. É muito interessante porque provavelmente os senhores sabem que na estrutura essencial do judaísmo, a arquitetura da igreja, a arquitetura e a organização do acesso ao saber permite que cada estudioso seja considerado um sacerdote, e porque que cada estudioso da simplicidade é um sacerdote? Eu testemunho o presente pelo saber que se elabora formação acima da informação. Por um infeliz acaso eu estava assistindo a televisão quando alguns dias atrás o programa “Domingo Legal” com o Senhor Gugu Liberato apareceu dois encapuzados e parece que agora se revela como uma farsa, que foi desenfreada, eu estava assistindo com os meus dois filhos menores, eu tenho um filho de quarenta e dois anos que é psicanalista, e tenho três, um de quatorze, um de treze e um de dez, e eu estava assistindo ao programa com os menores e eu fiquei horrorizado e indignado e pensando, é o fim dos tempos, se entregam um instrumento de vídeo é tão poderoso pra achincalhar todos os ladrões, para que Satã possa ameaçar com toda impunidade e dizer “nós vamos matar”, e eu pensei realmente é a isso que conduziram todas as pegadinhas, nós sabemos que cada um de nós tem sidos crítico constante das pegadinhas, das pegadinhas políticas eleitorais, das econômicas, eu não diria as culturais porque é a anti-cultural, mas o apelo permanente e pra mim ter filhos adolescestes e que diariamente chegam e desembargam, ‘hoje o fulano me convidou para fumar maconha’, treze anos de idade. ‘Hoje beltrano me convidou para vender, mas vai vender aonde?’ Mas nos bares vendem cervejas para as crianças. E eles mesmos espantados com isso que adivinham se tratar em desrespeito absoluto da condição humana. E isso, que é o desenvolvimento instrumental tecnológico mais sofisticado, mais avançado, entregue a uma (.........) que não respeita nenhum, e pra mim isso fica permanentemente contra posição a aquela educação rigorosa do Granbery. Quantas vezes na minha vida tentar, porque nós sabemos quantas tentações são sedutoras e como é fácil se entregar a elas, e em cada instante são aquelas vozes ressoando interna e intimamente. Na minha casa, as vozes dos meus pais, o meu pai analfabeto, ele não sabia escrever e ler, eu ensinei o meu pai assinar o nome dele quando meu pai tinha quarenta e cinco anos de idade, eu ensinei a ele assinar porque ele tinha que assinar o nome para receber a naturalização de brasileiro. Ele não pode estudar quando morava na Polônia e era criança. O ano passado o Embaixador da Polônia no Brasil veio de Brasília e acabei de ser convidado para maio, agora, em dar aula em uma Universidade em Cracóvia, uma universidade onde foi aluno e professor o Papa João Paulo II em uma universidade em Varsóvia. Eu até escrevi um artigo chamado ‘Polônia, Ida e Volta’ e nesse artigo eu contava que meus pais antes de morrerem eles me pediram “Meu filho você que tem andado por vários países do mundo a convite de universidades, nós queríamos te fazer um pedido, você vá para onde você quiser, vá dar aula aonde você quiser, isso só nos dá honra e orgulho, mas nunca vá a Polônia, aquela foi a terra de onde nós fomos expulsos com a maior crueldade e aonde a gente sofreu” E quando eu recebi o convite eu pensei, chegou a hora da vingança, chegou a hora de dizer não, mas ai um professor da Universidade de Brasília Enrique Svirsky, um cristão militante que lutou contra o regime comunista polonês me telefonou e disse:- Eu li um artigo seu, e eu quero que você saiba que você vai ser recebido na nossa pátria em comum com todo o carinho. E daí contei para ele:- Mas professor meus pais pediram que eu não retornasse. E ele disse:- Mas aquela Polônia não existe mais, você irá para outra Polônia. E eu respondi para ele:- Junto com você eu vou porque eu tenho certeza que essa outra realidade é aquele processo de transformação do qual falou o Pastor Tarcis Prado.

         Uma passagem de Einstein que eu acho muito impressionante no qual ele faz a lesão, a idéia de que D´us é movimento, e não há imagética quanto todas as vezes quando eu figurei mentalmente a idéia de Jesus, nunca poderia imaginar Jesus sentado, sempre é a idéia de um guerreiro, de alguém que se desloca, e eu acho que esse deslocamento não tem um significado berramente de uma cultura com espaço, tem também a idéia de transcendência com o tempo. É a eternidade, e a eternidade não tem fronteiras, ela não tem uma geografia política, e é exatamente por isso, e é nisso que eu preciso entender minha presença aqui, é esse o significado da vida.

         Eu quero que você saiba Percival você fez a ilustração da história de Jacob, a frase tinha um significado pessoal, e porque tinha um significado pessoal? Porque eu acredito que a verdade está sempre presente, a questão é abrir os olhos e permitir que o ouvido ouça, o grande pecado é o tabu, a dificuldade de ouvir, o afastamento do olho, a paranóia tem que substituída pela meta paranóia, a competência de transcender, de sair de si para encontrar o outro porque no outro que se encontra a resposta. Eu acho que muitos dos senhores sabem que uma das expressões que se usa no judaísmo místico, não o judaísmo da aparência, não do judaísmo dos bancos, não do judaísmo das colunas sociais que me incomoda a cada instante como se eles fossem os porta-vozes dessa herança extraordinária que foi dada por D´us à comunidade, que eu me sinto pessoalmente firme e mediado quando uma dessas colunas sociais eu leio “o líder judeu”, mas líder do que? Que relação tem esses homens e essas mulheres, peruas com os profetas, a relação é dos senhores, a relação é minha, nós somos os herdeiros. É dessa maneira que eu entendo, e esse é um patrimônio que não pode ser provado, esse patrimônio é nosso, é essa congregação que se faz aqui que manifesta a esperança, a esperança na vida, sobre a morte, sobre a dor.

         Eu gostaria de terminar essa exposição e eu lamento, eu sei que o tempo de vocês, seu tempo é precioso e eu não quero abusar dele, eu poderia passar o dia de hoje contando as lições de respeito do Professor Elineu Guimarães do Instituto Granbery, a adesão fanática do senso de justiça e que diariamente eu recebi das lições daqueles pastores de Granbery. A idéia do emprego não só como direito mas como de dever, um dever de cada um de nós, emprestar nossa energia para transformar o mundo, através do trabalho, a cidadania com o direito como disse um jovem que de não ser atropelado por uma moto em cima da calçada, e não ser empurrado do  supermercado por um jovem desembestado perdido, drogado, sem noção sequer do seu papel na sua própria vida, e isso é O Holocausto, isso que se faz hoje com milhões de crianças e jovens do Brasil e o que não se faz e deveria de ser feito, é um genocídio cultural, e finalmente a educação não como massa de informações que através da internet oferece fatuidades, desnecessidades. Muitas vezes você toma de um desses instrumentos de mídia e você percebe estáticas estúpidas, pesquisas inúteis, semanas e semanas e semanas daquilo, porque fulano casou com beltrana, como nós estivéssemos em uma ilha da fantasia, no ataque, na agressão permanente, a miséria, dor e sofrimento, como nós estivéssemos na Praça da Sé um imenso Bangladesh e não distante disso esses vendilhões acreditando que têm o direito de pisar não só no presente, mais muito mais grave, sacrificando as esperanças e alimentando o medo porque é exatamente isso que acontece. Resolver a questão de violência aqui no Brasil, absolutamente isso me intimida a encarcerar e matar o bandido, é preciso verificar as causas, e elas não são só sócio-econômicas, num dos meus livros de simbologia da agressividade, eu lembro que Caim matou Abel e ele não morava em favela. Ou nós entendemos esse processo como alvo de muito mais profundidade, a necessidade de domar e sublimar o nosso impulso do mal e transformarmos as nossas vidas segundo a lição permanente da presença de D´us.

E eu vou terminar contando para os senhores um episódio que é relatado em um livro chamado “Despertar dos mágicos” com autoria de Jacques Bergier e Louis Pauwels, ele conta o seguinte, durante a guerra em um dos campos de concentração mais violentos que os nazistas ergueram na Europa, aonde milhares de pessoas diariamente eram queimadas em câmaras de gás, crianças, mulheres, idosos, um dia isso que eu estou contando tava no livro porque senão daria impressão que de absoluta ficção e eu não entendo porque isso não é mais divulgado.

Um dia, batem à porta:- Pois não? Um soldado abre, e um grupo de homens disse:- Nós viemos aqui porque nós queremos ser internados. O soldado absolutamente perplexo, diz: - Espera um pouco, e chama o comandante do campo, e o comandante olha pra eles e diz:- Mas vocês sabem o que acontece aqui dentro? Como querem se internar? Vocês enlouqueceram? Vocês têm idéia o que acontece aqui dentro? E o homem na frente daquela caravana, um grupo de homens, ele disse:- Sim, exatamente por saber o que acontece ai dentro é que nós queremos ser internados porque nós somos evangélicos e nós precisamos ser testemunhas e nós queremos com o devido tempo testemunhar o que aconteceu aqui. Essa suprema forma de devoção, de amor, de presença de D´us tem sido para mim permanentemente uma grave impressão do processo evangélico em todo o mundo e particularmente no Brasil, a cada instante eu tenho certeza que a vossa presença, a vossa mensagem, a vossa fé no espírito de Jesus é um grande presente para o Brasil, para o mundo e para mim mesmo.

Muito obrigado!

 

Doutor Percival de Souza

 

O senhor colocou de maneira comovente uma força do cristianismo traz um raio no centro do saber como por exemplo a honestidade, os homens de aparição bíblica olho de ver, ouvidos de ouvir. O psicanalista, o assistente social, conhecedor da palavra viva, porque, nós a maioria das vezes temos vergonha de falar de Jesus em certos ambientes, porque projetamos na nossa mente e no nosso coração que não fica bem falar de Jesus em certos lugares? Que é isso Professor Doutor Jacob? É um medo? É um bloqueio? É covardia? O que é isso professor?

 

Doutor Jacob Pinheiro Goldberg

 

Um dos meus quatro filhos era um aluno brilhante na escola, e de repente ele começou a ter péssimas notas e a se comportar muito mal. Um dia eu o chamei e perguntei a ele:- O que está acontecendo? Ele falou: -Pai eu não suporto mais a pressão dos colegas, eles me chamam de nerd e dizem que estudar é coisa de mauricinho e de bobo.

Infelizmente a decência, a dignidade e muito mais que isso a fé, têm sido colocado processos de ingenuidade ou até de solidez. Eu me lembro, eu vou passar para vocês de presente dois exemplares de dois dos meus livros, num deles, eu conto de uma aula que eu dei na Faculdade de Medicina da Universidade de Londres, e essa aula é assistida por médicos de grupos de pesquisas de vinte e três países, são oitenta pesquisadores do mundo inteiro, e um dos médicos, numa hora, veio fazer uma pergunta pra mim, ele introduziu a pergunta Percival da seguinte forma:- Referente às questões dos psicossomáticos de doenças de origens psicológicas, ele virou pra mim e disse:- Naturalmente professor como o senhor também não acredita em D´us. Eu interrompi e disse:- O senhor me desculpe, o senhor só pode falar em seu nome, porque eu sim acredito e aliás eu só acredito em D´us, no restante eu sou perigoso, mas minha fé é só reservada para ele.

Então o que me aparece que nós temos que sair em função de defensiva, nós temos que, a cada instante, fazer essa afirmação.

Tem uma passagem muito bonita de um dos grandes místicos e sábios do judaísmo da Europa que se chama Paulo Shem Tov, que significa o Rabino bom homem, e ele curava e fazia milagres, e ele morreu, e o filho dele continua ensinando, era a dinastia, e o neto dele também, e um dia uma pessoa chegou para o neto dele, o Baal Shem Tov, ‘eu estou muito doente, e eu sou considerado um paciente terminal e vim pedir milagre.’ E ele disse:- Eu não sei fazer milagres, quem fazia milagres era meu avô, que era um santo, mas embora eu não saiba fazer milagres, eu sei contar milagres, e talvez contando possa te ajudar.

Nós não vivemos os tempos extraordinários, aqueles tempos onde os milagres eram permanentes, eles eram os conteúdos das vidas, e eles eram a informação do anúncio, nós vivemos tempos profanos que os milagres estão proibidos, são considerados absurdos. Eu acho que cada um de nós tem que reagir e dizer, mas ainda assim nós somos capaz de falar.

 

Doutor Percival de Souza

        

No seu consultório, na sua psicologia clínica, existem personagens que podem inspirar através da terapia que o senhor aplica durante as sessões, sei também que  isto implica profundas restrições de ordem médica com relato. Vou cometer uma confidencia, um fato que conheço, mas respeitarei o padrão ético. O Professor Jacob que é muito requisitado além das universidades, como o terapeuta que é, tendo como paciente recentemente um jogador de futebol, famoso, de um grande clube, só vou esclarecer que não é jogador do São Paulo, mas esse jogador de uma maneira, encarna a antítese do que nós estamos vendo aqui, a futilidade, a vaidade, a mediocridade, não estou falando do atleta, estou falando do seu conteúdo, e de repente este clube tem a sabedoria de colocar esse atleta nas suas mãos, e o senhor tem no seu consultório clínico alguém que o senhor quis projetar esses valores, proporcionar o encontro consigo mesmo, enfim todas aquelas coisas que fazem parte de uma das suas especialidades, então, Professor Doutor Jacob, de alguém cujo epicentro são os carros novos, maravilhosos, as mulheres,o falso, a cantada, a noite, etc. Como perguntaria o meu colega Paulo Henrique  Amorim:- E ai?

 

  Doutor Jacob Pinheiro Goldberg

 

Eu gostaria de responder ao Percival contando um episódio que eu acho que é muito interessante até folclórico, inclusive eu escrevi um artigo publicado por toda imprensa comigo, e o titulo do artigo é “Jesus não calça chuteira” e foi assim, eu fui acompanhar o “Santos Futebol Clube”, lá na cidade de Santos, e eu tinha sido convidado para fazer um trabalho, e antes que eu fizesse o meu trabalho, os jogadores, isso foi em um sábado Percival, e eles comeram uma feijoada em um dos melhores hotéis, eu esqueci o nome, mas era de cinco estrelas, imagina a feijoada, e isso em um dia de muito calor, ali eu comecei a ficar cismado, esses moços iriam jogar às quatro horas da tarde, são uma hora e eles estão comendo essa feijoada pesadíssima comendo e bebendo. Bom, espero em um dos quartos, daí um dos jogadores me telefona e diz:- Professor antes do senhor fazer o seu trabalho (o trabalho iria ser feito uma hora antes do jogo), o senhor se incomodaria de participar da cerimônia religiosa? Eu disse:- Não, absolutamente, estou sempre aberto, impermeável, enfim, eu pensei comigo mesmo Meu Oh meu D´us vou ver uma cerimônia religiosa, eu fui no quarto do jogador estavam todos lá, e é claro que não vou me referir a que denominação religiosa eles estavam fazendo o trabalho, mas eu posso dizer aos senhores que um moço se dizendo sacerdote de uma denominação religiosa, ele assegurava aos jogadores que eles iriam ganhar o jogo, que não deviam se esforçar, nem precisavam se esforçar porque Jesus estaria jogando com eles. E eu pensei mas como ele pode ter essa certeza, se o outro lado tinha provavelmente, também, que contar com Jesus. O mínimo de modéstia e humildade faria com que eles fossem a rezar, mas não dar essa certeza, não preciso dizer para os senhores que foi uma tragédia, um fracasso, até bomba de pimenta a polícia jogou para nos proteger. Não sei se isso em parte responde à sua pergunta, mas o que eu gostaria de dizer para você é que eu tive a chance, a oportunidade de fazer um trabalho com uma das figuras mais extraordinárias do esporte de todos os tempos e eu darei relato disso, foi a última vez que conversei com Airton Senna, nós ficamos algumas horas conversando com a presença da jornalista Cecília Yoshizawa, foi uma bendita presença porque ela testemunhou aquele momento singular da minha vida porque o Airton foi um presente que a vida me ofereceu, a dignidade, a decência, o respeito com que ele tratava as pessoas mais humildes. Não aceitava tietagem, mas era um apaixonado, como você é apaixonado, como vocês são apaixonados, porque a paixão é uma das capagens do Senhor. E no meio dessa conversa de algumas horas com o Airton eu perguntei pra ele:- Airton aquela passagem pela qual você foi tão criticado, na qual você tinha dito que tinha visto D´us, vocês todos se lembram da entrevista, ele tinha dito que em uma curva de uma das corridas ele tinha visto a imagem de D´us, inclusive naquela ocasião foi considerado purista e esquizofrênico, e depois disso a mídia tinha pensava que ele entrou em um nível sub-psicótico. E eu como desconfiado disse:- Mas Goldberg você como psicanalista como você vai interpretar minha resposta? Eu disse:- Primeiro dá a resposta. E ele disse: -Não, primeiro me diz você. Eu respondi pra ele:- Se você teve a chance extraordinária de ver D´us o que eu posso dizer antes da sua resposta é de que eu tenho passado a minha vida toda nessa esperança, que eu tenho certeza absoluta terei minha oportunidade de vê-lo. Ele disse:- Sim, eu vi D´us.

 

 

 

Doutor Percival de Souza

 

Fiquei particularmente emocionado com o seu diálogo relatado do Bispo da Universidade Católica lá no Muro de Jerusalém, a única coisa que restou do Templo de Salomão. Professor Jacob, um mundo acadêmico, aqui nós temos graduados, pós-graduados, mestres, graduandos, médicos, doutores, o que faz parte de nós adquirirmos um pouco mais de saber, temos uma inclinação, pela perfeição da figura do Cristo, do Redentor, porque nos envergonhamos? Porque pegamos a palavra bíblica e as vezes esquecemos daquele trecho, mas eu não me envergonho do evangelho, porque nos envergonhar? Não fica bem falar em certos lugares, eu estou muito feliz em vê-lo, relatar isso acontecido em vários locais, a sua convicção de fé as vezes de maneira indireta, metafórica, analógica, tudo isso é muito bonito, mas professor porque isso? Porque essa tentação, eu estudo um pouco mais e me sinto superior, eu não preciso ir mais na igreja, quando eu ficar velho eu começo a ir lá. Por que isso professor?

 

  Doutor Jacob Pinheiro Goldberg

 

Você sabe que Adão foi expulso do paraíso por isso, nós temos toda a possibilidade, toda a chance da humildade, mas como psicanalista, Percival o que eu posso dizer para você é que talvez o narcisismo seja a forma mais agressiva e mais arrogante do desconhecimento da única possibilidade de salvação, nós só temos uma possibilidade de salvação. O saber ele só tem sentido quando ele se expressa a esse serviço do resgate da nossa alma porque qualquer outra oportunidade, qualquer outra circunstancia é inútil. Como você falou em Salomão e eu acho que ele mesmo deu a resposta a essa sua angustiante dúvida. Vai dar a verdade, a pura verdade.

 

 

 

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O cinema sob a ótica da psicologia - 26/03/2008

 

Obra do renomado psicólogo Jacob Pinheiro Goldberg analisa personagens do mundo cinematográfico como produtores, atores e diretores

 

 

Luz, câmera, ação. Para mostrar que assistir a um filme é muito mais do que simples distração, o doutor em psicologia, psicólogo, assistente social, poeta e escritor, Jacob Pinheiro Goldberg lança a obra Psicologia em Curta-Metragem, em que faz uma análise comportamental de diversos filmes, diretores e atores de cinema. O livro, editado pela Novo Conceito, analisa por exemplo Matrix, Os Pássaros, Disque M para Matar, Dois Filhos de Francisco, Cidade de Deus, O Segredo de Brokeback Mountain, Meu Nome Não é Johnny e até Tropa de Elite, recentemente lançados. Sobre este último, Goldberg afirma que o diretor fez no cinema o que Nelson Rodrigues fez na literatura.
“Ele escreveu um “brasileiro” sobre o Brasil, que ninguém escreve, ninguém filma, porque somos filhos de uma cultura que escamoteia para evadir-se. Uma sociedade que não se enxerga com medo da visão horrorosa que a ameaça. brutalidade, violência, hipocrisia, tudo é tratado pelo viés do tabu, da falsa cordialidade. O individuo diz não com um sorriso de sim”.
Ele também insere em seu divã renomados produtores, como Jerry Seinfeld, os diretores Akira Kurosawa e Steven Spielberg, o ator George Clooney e até personagens como Zé Pequeno, de Cidade de Deus.
O autor defende a popularização do cinema como fonte de difusão da informação no Brasil. Goldberg afirma que ao assistir a uma história contada por meio de uma produção cinematográfica, o telespectador deixa o seu mundo repleto de problemas pessoais para viver uma outra realidade e ainda navegar pelas diversas emoções contidas nela.
O psicólogo acrescenta que as pessoas, mesmo aquelas sem nenhum tipo de contato com o cinema, acabam criando e incorporando um personagem em seu dia-a-dia e produzem um roteiro, mesmo sem querer. A partir daí, elas passam a ser não penas figurantes, mas sim atores principais de seu roteiro – a própria vida. “Todo mundo constrói seu filme e ninguém consegue escapar do script”, cita.
A obra traz ainda transcrições e relatos de simpósios e cursos apresentados por Jacob Goldberg em centros de estudos e universidades.

Livro: Psicologia em Curta-Metragem
Autor: Jacob Pinheiro Goldberg
Editora: Novo Conceito
ISBN: 978-85-99560-32-7
Formato: 14x21

Sobre o autor:

Jacob Pinheiro Goldberg é doutor em psicologia e psicoterapeuta, advogado, assistente-social e escritor com reconhecimento fora do Brasil. Cinéfilo, nasceu em Juiz de Fora e foi convidado para dar cursos, conferências e palestras em universidades nacionais e internacionais como PUC, USP, Unesp e outras. É especialista em psicologia da imagem e já fez análises de personalidades como Ayrton Senna, Marcelinho Carioca, Juscelino Kubitschek de Oliveira, Gonzaguinha, Jânio Quadros, Ellis Regina, Mário Covas, Luís Inácio Lula da Silva, João Goulart, Ulysses Guimarães, Franco Montoro, Adriane Galisteu, Vera Fisher e outras.

Os livros Cultura da Agressividade e Mágica do Exílio são algumas de suas obras com maior repercussão acadêmica e discussão social.

 

Publicado por Com Texto Comunicação Corporativa

 

 

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A Psicologia da Mídia

 

A sociedade passou a ser dominada por imagens que se multiplicam e se naturalizam. Cenas de violência que, a pouco chocavam, tornaram-se banais. Atitudes que, em um dado momento, eram tomadas como imorais, passam a ser corriqueiras. A vida privada tomou o lugar da vida publica no interesse geral da sociedade, ou melhor, o campo de distinção de ambas se perdeu. A revista que vende mais é sobre a vida dos artistas de cinema e televisão. A emoção da Formula 1 está nos acidentes e a dos rodeios, no tombo dos peões. Os ídolos são colocados no altar. O altar, no entanto, se parece mais uma vitrine. Hoje, entre uma novela e outra, o publico assiste o jornal. A novela imita o cotidiano das pessoas e muitas vezes se incorpora a ele. Para muitos, os personagens são como conhecidos sobre os quais se podem fofocar livremente. No entanto, o publico se cansou de ver ficção: quer ver realidade. Os reality shows atendem a esse anseio: seria a "novela da vida real". O publico pode agora se sentar contente na frente da TV e ver a vida passar. Não vive a própria vida, mas se projeta na vida de outros. São sobre essas observações que o Dr. Jacob Pinheiro Goldberg, Ph.d em psicologia, psicoterapeuta, advogado, assistente social, poeta e escritor fala à "DeFato".

 

DEFATO: O que leva o senhor a acreditar que a informação de hoje está banalizada?

 

Dr. Goldberg: O excesso de oferta acabou gerando uma informação superficial, não existe uma exigência de aprofundamento, então o que acontece é que todas as pessoas conhecem muito pouco de muita coisa, ou seja, muito pouco de algo ..:namespace prefix = st1 ns = "urn:schemas-microsoft-com:office:smarttags" />em profundidade. Essa é a contradição entre tecnologia da informação e o conteúdo. A informação transmitida pela mídia está totalmente banalizada, essa banalização está levando à estupidez. O fato já não é apenas relatado. Hoje, a mídia é quem estimula os acontecimentos, com foco no apelo e na audiência e não no fato em si. Quando extremamente simplificada, a mensagem pode se tornar algo banal. A sociedade deve ser tratada de forma madura e adulta.

 

DEFATO: Qual o papel da internet nesse processo?

 

Dr. Goldberg: Embora eu acredite que o surgimento da internet seja uma revolução extraordinária, após a popularização do meio, as informações ficaram ainda mais banalizadas. Tenho três filhos jovens e vejo no dia-a-dia deles a influencia negativa da internet. Um dos meus filhos, por exemplo, se pergunta por que passar quatro, cinco horas dentro de uma sala de aula, se com um clicar no mouse ele terá uma porção de informações. Não a duvidas de que o apelo da internet é maior do que o da escola. No entanto, é bom que fique claro que eu nunca vi algo tão superficial como as informações contidas nesse veiculo. Levaremos décadas até refinarmos o seu conteúdo. De qualquer forma, a internet tem um ator bastante positivo, que é a democratização da própria informação.

 

DEFATO: Como a identidade do cidadão pode ser afetada por esse bombardeio de informações diárias?

 

Dr.Goldberg: Cada um de nós, para fazer a construção de sua individualidade, precisa mergulhar no subjetivo, esse excesso de exteriorização, ou seja, essa relação exagerada com o mundo sacrifica esse processo de subjetividade, as pessoas ficam muito mais conectadas com o mundo do que com elas mesmos. A identidade é tudo que o individuo tem. Omiti-la é esconder-se de si mesmo.

 

DEFATO: O que poderia ser feito para reverter esse quadro?

 

Dr. Goldberg: Um trabalho de pesquisa intima para resgatar a si mesmo é o melhor mecanismo de defesa para combater a banalização. Contra esse excesso de pluralidade, o individuo deve deixar de ser plural para ser singular.

 

DEFATO: Por que os reality shows fazem tanto sucesso, batendo recordes de audiência?

 

Dr. Goldberg: Estes programas funcionam como um fenômeno catártico, as pessoas se projetam neles, e através dessa projeção elas passam a viver em uma ilha de fantasias, uma ilha de ilusão.

 

DEFATO: Qual o impacto social, a médio e longo prazo, de casos de violência como o do garoto João Hélio, morto após ser arrastado por quilômetros no Rio de Janeiro?

 

Dr. Goldberg: O problema é a sociedade ficar paranóica, criando uma sensação persecutória que vai acompanhando todo o processo de cidadania.

 

DEFATO: Como o senhor avalia a disseminação e o culto da violência na mídia?

 

Dr. Goldberg: O despudor com que se faz a exaltação da violência. Em todas as formas – das mais primárias ( gangterismo na TV e mocinho no cinema ) até as mais complexas ( o exercício arbitrário do poder estatal e a guerra ) assume características paranóicas acerbadas, na sociedade em conflito. Clube de tiro ao ar livre crescem. Fotografias coloridas, nas matrizes dos jornais insensibilizam a juventude, exibindo chocantes cenas de atropelamento. O golpeamento pela trituração do adversário é apresentado, em todas as instâncias, como a forma mais eficiente, rápida e elegante  de triunfo, numa sociedade aonde o triunfo é o critério de aceitação. Os mais bestiais instintos que as condições ambientais excitam ao invés de sofrear, encontram guarida e tolerância.

 

DEFATO: Existe alguém que pode ser responsabilizado pela banalização de certos assuntos na imprensa nacional?

 

Dr. Goldberg: É complicado, pois muitas vezes o responsável pela mídia acredita que ele repercute e reverbera uma demanda que é da sociedade, mas também acontece o contrario, na verdade o responsável pela mídia sabe que ele é um formador de opinião. Hoje, o grande anseio da comunidade contemporânea, na verdade, se dirige em duas direções: através do consumo exagerado, fato extremamente condenável, e pelo caminho da busca do conhecimento, que é algo bastante recomendável.

 

DEFATO: Mas quem realmente escolhe o que nós queremos saber?

 

Dr. Goldberg: O pauteiro, a partir do seu ponto de vista, faz a escolha dos assuntos; e os repórteres e editores, também a partir do seu ponto de vista, nos transmite isso através da noticia. A mídia quer estabelecer até o sentimento e o horário do seu publico. Há vários casos em que o apresentador faz um semblante sério e triste para anunciar a morte de alguém e, minutos depois, sem nem mesmo dar uma pausa, ele ri para anunciar o Carnaval na Bahia.

 

DEFATO: Outro problema em debate na mídia atual é a relação à

publicidade. Como o sexo serve à fantasia publicitária atualmente?

 

Dr. Goldberg: Oscilando entre jogo de hipocrisia convencional e os impulsos descontrolados do aproveitamento, o sexo seve a fantasia publicitária, sem objetividade cientifica. Desde a proibição da menção dos órgãos genitais até os convites da lascívia exibidos em anúncios, prima-se por emprestar ao problema do sexo, características de tema tabu. O apagar continuo da sensibilidade pelo confinamento das reações acaba degenerando no crime, estimulante de cultura de vendas, e por isso, endeusado na arte e divulgação, em verso e prosa. Mesmo nos paises aonde a presença da mulher, em termos de emancipação social, vem se acelerando, facilitando a solução dos problemas sexuais, os resíduos de impacto diário de informações desvirtuadas e apelos irracionais, com base na exasperação do sexo, como elemento de mercadoria e sustentação de venda, dificulta seu dimensionamento lógico.

 

DEFATO: Como o senhor analisa a exploração comercial da mídia em nosso pais?

 

Dr. Goldberg: Não podemos admitir, a não ser como resíduo da exploração comercial desbragada, a entrega dos órgãos de comunicação para dirigentes que não tenham condições intelectuais adequadas. Constatamos a degenescência que avassala a formação da cultura de opinião publica, em nosso país. Alguns dos desacertos que estas contingências provocam pela sua singular gravidade merecem destaque.

 

DEFATO: Os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário são cobrados pela população. Por que, então, não cobrar também a imprensa?

 

Dr.Goldberg: Marcado como mais um resíduo da Ditadura Militar, todo cidadão tem uma preocupação procedente em não diminuir o poder de expressão e de liberdade de mídia. Porém, o poder de critica da cidadania acabou ficando tímido. Nós temos que ter coragem para fazer novas exigências, hoje qualquer cretino ou imbecil escreve o que quer, seja para a televisão ou para o radio – na televisão nem se fala – é uma academia de estupidez. O problema é que para controlar tudo isso não existe uma legislação rigorosa, nem ou menos uma vigilância da cidadania. Mas esse controle não deve ser feito afetivamente pelo governo, mas sim pela sociedade.

 

Entrevista retirada da revista "DeFato" feita por Edgar Melo com o Dr. Goldberg 

 

 

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10/08/2004

 

PALESTRA: Desafio no Podium

 

“DESAFIO” é tema de palestra de alpinistas e do psicanalista Jacob Pinheiro Goldberg, no Restaurante Podium.

 

 

Para comemorar a abertura dos Jogos Olímpicos, o restaurante Podium Sports e a Fórmula Academia promovem dia 10 de agosto a palestra "Desafio no Podium", às 20h30 (Rua Henrique Fausto Lancelotti, 6.333 - Térreo do Hotel Quality Suites Congonhas - Campo Belo), com os alpinistas Paulo e Helena Coelho - que recentemente escalaram o Everest - e o psicanalista Jacob Pinheiro Goldberg.

"Nosso objetivo é proporcionar ao público a aproximação com os atletas, que contarão suas experiências e desafios vivenciados no esporte que praticam", explica Cristiane Ferraz, do restaurante. Durante a palestra do dia 10, será servido menu temático grego, que inclui entrada, prato principal, sobremesa e vinho. (Convites para a palestra e jantar custam R$ 100,00 e deverão ser solicitados antecipadamente pelo telefone 5686.9643 com Mônica)

Segundo o psicanalista Jacob Goldberg, autor de "Cultura da Agressividade" esta iniciativa é relevante e muito oportuna para se repensar a questão do desafio sob o ponto de vista psicológico , como estimulante para a realização pessoal, afinal o esporte é metáfora da vida. Na área esportiva, Goldberg trabalhou, entre outros com Ayrton Senna, o piloto Mario Haberfeld, a tenista Vanessa Menga, o São Paulo Futebol Clube, o Palmeiras, o jogador Marcelinho Carioca, o time de vôlei do Suzano, tendo escrito também ensaio sobre "Psicologia do Tenista".

O desafio dos atletas Paulo e Helena

Há mais de 25 anos, Paulo e Helena praticam alpinismo – escalada em rocha e em alta montanha e explicam que para ser bom alpinista é preciso ter bom desempenho técnico e preparo físico. Além de muita dedicação, e treinamento, o alpinista precisa gostar do contato com a natureza, trabalhar com limites, administrar riscos e saber enfrentar desafios. "Esse esporte é visto como sinônimo de aventura e esporte radical, talvez por esse motivo, tem aumentado muito o número de praticantes nas modalidades de escalada esportiva, escalada em rocha e de alta montanha", complementam os dois atletas.

Segundo Paulo e Helena, o apoio a qualquer esporte, afora o futebol, ainda é muito limitado, sobretudo no caso do alpinismo que nem é olímpico e não tem provas oficiais. Alguns apoios são concedidos apenas a um ou outro montanhista ou determinados eventos. Eles treinam com o apoio de professores do Centro de Práticas Esportivas da USP em programação diária de atividades muscular e aeróbica, além da prática de yoga. Paulo, 52 anos, é físico, pesquisador científico do IPEN/CNEN-SP, e Helena é hoje guia de trekking no Brasil e exterior. Escalaram diversas montanhas no Brasil e já estiveram na Cordilheira dos Andes, no cume do Aconcágua, na Argentina, no Huascarán, no Peru, o Vulcão Ojos Del Sala, no Chile, e o Illimani, na Bolívia. Na Europa, escalaram o Mont Blanc, e na África, o Kilimanjaro, entre muitos outros.

Participaram de cinco escaladas no Himalaia, alcançando 8.400 m no Monte Everest cuja altitude é 8.850m e trabalharam na Antártica como alpinistas de apoio ao "Programa Antártico Brasileiro". O desafio maior da dupla é que praticam escalada de alta montanha sem suporte, ou seja, sem guias e sem utilização de cilindros de oxigênio. Outro grande desafio da dupla é conseguir algum patrocínio para a realização de suas grandes expedições. Pretendem continuar escalando as maiores montanhas do mundo – ou seja, as 14 montanhas acima de 8000 m de altitude, todas elas na Cordilheira do Himalaia.

"Para ser um bom alpinista há que se ter dedicação e disciplina para o preparo físico e técnico, respeito à natureza, às pessoas e à cultura da região onde irá escalar, mantendo-se o respeito aos valores e princípios éticos", aconselham os atletas. "

 

 

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UFJF – Diretoria de Comunicação

18/04/2008

Jacob Pinheiro Goldberg participa do projeto Diálogos Abertos

Lançamento de livro e palestra marcam a presença do escritor e psicanalista em Juiz de Fora

Jacob Pinheiro Goldberg

Nos dias 22 e 24 de abril os juizforanos terão a oportunidade de se encontrar com o doutor em Psicologia, psicólogo, advogado, assistente social e escritor, Jacob Pinheiro Goldberg. A pluralidade de atuações não é mera coincidência, sua carreira e história de vida se confundem com os estudos, os livros, as aulas e a escrita.

Nascido em Juiz de Fora, mas morando em São Paulo há mais de 50 anos, entre suas inúmeras funções Jacob Pinheiro Goldberg tem regularmente colaborando com a Revista OAB-MG 4ª Subseção no fomento de idéias que incentivam a reflexão. Autor de inúmeros trabalhos na área da psicanálise, serviço social e direito tem o reconhecimento de suas obras não somente em grandes centros de estudos brasileiros, mas de todo mundo.

Depois de quase duas décadas longe da terra natal o escritor aceitou o desafio de se reencontrar com o passado não esquecido e diversas vezes presente em seus textos e poemas. Seus pais, imigrantes poloneses, encontraram em Juiz de Fora uma terra que os acolhesse, assim como aconteceu com outras famílias que chegaram ao Brasil na virada do século XIX para o século XX e viram na crescente industrialização da cidade boas oportunidades prosperidade. Aqui o menino com apelido de Esquina, cresceu estudando no Instituto Metodista Granbery, marca da efervescência intelectual e cultural da cidade. Em meio aos ares modernos e clássicos da cidade que se desenvolvia com ares europeus o menino cresceu e juntou seu nome a outros que orgulham a terra natal com seus filhos ilustres. No dia 22 de abril, às 19 horas, ele participa do projeto Diálogos Abertos deixando gravada na memória de Juiz de Fora a sua história.

Seguindo a trilha do sucesso, Jacob Pinheiro Goldberg apresenta seu novo trabalho, o livro "Psicologia em Curta-Metragem", um passeio comportamental pelo cinema através da analise psicológica por filmes como "Matrix", "Dois Filhos de Francisco", "O Segredo de Brokeback Mountain" e até mesmo o filme brasileiro sensação da última temporada "Tropa de Elite". Sobre o conteúdo, seu livro pode ser descrito como polêmico, contestador e "suscitador da emoção do humano". Na mesma ocasião participa de uma conferência e um debate onde será abordado o tema "Macro e Micro Violência no Brasil". O evento está marcado para o dia 24 de abril, na sede da 4ª Subseção da Ordem dos Advogados do Brasil, que fica na Avenida dos Andradas, nº 696, às 19h.

O projeto Diálogos Abertos acontece no Museu de Arte Murilo Mendes e tem cadeiras limitadas, os interessados podem reservar seus lugares pelo telefone 3229-9070. O MAMM localiza-se à Rua Benjamin Constant, 970, no Centro.

Outras informações: 2102 3964 / 3229-9070

 

 

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O Primeiro de Janeiro

“das Artes das Letras”

Porto – Portugal

21/04/2008

 

Do lançamento

Jacob Pinheiro Goldberg debate a violência urbana e lança livro sobre o cinema

 

A fronteira é a pátria de Jacob Pinheiro Goldberg, a esquina, sua peregrinação. Ao transitar pela psicologia, literatura, cinema e direito, Goldberg amplia sua visão de mundo e lança um feixe de luz para a compreensão dos conflitos que marcam estes primeiros anos do Século XXI.

 

Jorge Sanglard
Jornalista, pesquisador e organizador da antologia "Poesia em Movimento"

 

Para o escritor e psicanalista, todo mundo constrói seu filme e ninguém consegue escapar do script, mesmo as pessoas sem nenhum tipo de contato com o cinema acabam criando e incorporando um personagem em seu dia-a-dia e produzem um roteiro, até sem querer. Afinal, a vida é presente divino, que não cabe em muito pouco, adverte o psicólogo.
  
Nascido em Juiz de Fora e radicado em São Paulo, há mais de cinco décadas, Jacob Pinheiro Goldberg é doutor em psicologia e vem colaborando regularmente com a Revista OAB-MG 4ª Subseção, onde tem instigado o debate de idéias e a reflexão. Seu novo livro, "Psicologia em Curta-metragem" (Editora Novo Conceito), que será lançado em Juiz de Fora na sede 4ª Subseção da Ordem dos Advogados do Brasil - MG (Avenida dos Andradas 696), no dia 24 de abril, às 19 horas, é uma investida densa no universo do cinema. Segundo Sandra Magalhães, no prefácio da publicação, o autor, que é um cinéfilo por circunstâncias existenciais, exige do leitor que reescreva, na conformidade de seu tamanho, uma concepção de ser a partir do personagem. O livro tem lançamento marcado também em São Paulo, no dia 14 de maio, às 19 horas, na Livraria Cultura - Teatro Eva Herz - Conjunto Nacional- Avenida Paulista.
  
Depois de quase duas décadas sem voltar a Juiz de Fora, Goldberg aceitou o desafio do retorno à cidade natal para participar de uma conferência e um debate, com o lançamento da nova obra, ao lado da procuradora do Estado de São Paulo, Ana Sofia Schmidt de Oliveira, no Ciclo de Debates promovido pela 4ª Subseção da OAB-MG e pela Escola Superior de Advocacia (ESA), no dia 24 de abril. O tema da conferência é "Macro e Micro Violência no Brasil", onde serão abordadas questões polêmicas como a proposta de redução da idade penal e o endurecimento das penas no país. Tanto Ana Sofia quanto Goldberg defendem que o que importa é o desenvolvimento de uma visão crítica diante de uma realidade complexa, e é fundamental rechaçar soluções simplistas como o aumento do rigor das punições, a redução da maioridade penal, a criminalização de novas condutas. Assim, o essencial é colocar-se, especialmente aquele que se ocupa do sistema como policial, advogado, juiz ou promotor, numa posição de maior humildade, incorporando a crença de que, se o sistema deixar de causar um mal maior do que aquele que pretende combater, já terá feito grande coisa.
  
O ser humano ainda não encontrou uma fórmula para driblar sua tendência à perversidade, enfatiza Goldberg. "É aquela espécie que tortura, mutila e mata, por prazer. O exercício diabólico do sado-masoquismo. A resposta está na alteridade, sublimação da finitude, única saída para o desespero do acaso, raiz da violência". E esse dialógico se trava e destrava na palavra que raspa os idiomas, garante o psicanalista.
Na opinião de Sandra Magalhães, "em sua amplitude, Jacob Pinheiro Goldberg vem construindo uma teoria brasileira da psicologia, na melhor tradição da originalidade que captura no humano, a liberdade". E complementa: "Aproprio-me das palavras de Gilberto Felisberto Vasconcellos que, em crítica publicada na Folha de S. Paulo, sobre o livro "Cultura da Agressividade", a edição da tese de doutoramento em psicologia de Jacob Pinheiro Goldberg, o enquadra 'à maneira dos novos filósofos franceses, que são os representantes do pós-modernismo'".
  
"Psicologia em Curta-metragem" é apontado por Sandra Magalhães como um outro turn over na difícil e impressionante obra de Goldberg, visto como o psicólogo da poética. Difícil enquanto escrita e falada, dispersa e exilada, em conferências, artigos, no Brasil e no exterior, em um processo de turbilhão de um peregrino que, em torno de si mesmo, visita o Outro e o mundo com profunda militância social que já se incorporou à própria história de nossa cultura. Impressionante, porque levanta polêmica, contesta, raciocina e faz a apologia da desrazão, provocando a ira dos covardes de espírito, suscitando emoção no humano.

   O livro traz uma análise comportamental de diversos filmes, diretores e atores de cinema, onde Goldberg analisa "Matrix", "Os Pássaros", "Disque M para Matar", "Dois Filhos de Francisco", "Cidade de Deus", "O Segredo de Brokeback Mountain", "Meu Nome Não é Johnny" e até "Tropa de Elite". Sobre este último, o psicólogo afirma que o diretor fez no cinema o que Nelson Rodrigues fez na literatura. "Ele escreveu um 'brasileiro' sobre o Brasil, que ninguém escreve, ninguém filma, porque somos filhos de uma cultura que escamoteia para evadir-se. Uma sociedade que não se enxerga com medo da visão horrorosa que a ameaça. Brutalidade, violência, hipocrisia, tudo é tratado pelo viés do tabu, da falsa cordialidade. O indivíduo diz não com um sorriso de sim".
No dia 22 de abril, às 18h30, no Museu de Arte Murilo Mendes (MAMM), da Universidade Federal de Juiz de Fora (rua Benjamin Constant, 790), Jacob Pinheiro Goldberg participa do projeto Diálogos Abertos, onde grava um depoimento e será entrevistado sobre sua trajetória entre Juiz de Fora e São Paulo.
  
Juiz de Fora é uma cidade que tem como marca a industrialização, na virada do século XIX para o XX e no início do XX, e ao longo do tempo acolheu muitos imigrantes. Assim, os pais de Jacob Pinheiro Goldberg escolheram as terras banhadas pelo Paraibuna para se fixarem no Brasil. A memória de Juiz de Fora, e da rua Halfeld, no coração da cidade, permeia diversos poemas escritos por Goldberg, que revela: "Na infância, viajei dezenas de vezes nos trens da Central do Brasil, entre minha cidade natal e São Paulo, a fim de visitar meus avós maternos...voltava saudoso da garoa, talvez ensaio para o fog". O apito do trem foi o musical que acompanhou a saga do menino apelidado, Esquina, no percurso entre Minas e São Paulo. Estes poemas são fruto de um mergulho na infância e na adolescência vividas na pioneira e industrial Juiz de Fora, além de um resgate das lembranças familiares vislumbradas no mapa da Polônia.
  
Jacob Pinheiro Goldberg, Affonso Romano de Sant'Anna, Fernando Gabeira e Itamar Franco, entre tantos outros juizforanos, de nascimento ou adotados, estudaram no tradicional colégio metodista Granbery, uma referência educacional juizforana e mineira. O ar de mistério que certas cidades capturam, como Juiz de Fora, segundo Goldberg, remete ao absurdo que habita as almas e, sem lógica, exaspera e exige.    Assim, o berço de Pedro Nava, Murilo Mendes e de Rubem Fonseca abriu caminho e/ou acolheu uma geração de novos e consagrados escritores e poetas - entre os quais, Luiz Ruffato, Iacyr Anderson Freitas, Edimilson de Almeida Pereira, Fernando Fiorese, Prisca Agustoni, Júlio Polidoro, José Santos, Eustáquio Gorgone, Sérgio Klein, Walter Sebastião, Fabrício Marques, Ronald Polito, Júlio Castañon Guimarães, Knorr, Ricardo Rizzo e o saudoso José Henrique da Cruz -, que vêm inserindo seus nomes e suas obras na constelação literária mineira e brasileira.
  
"Regina Przybycien, professora da Universidade do Paraná, ao analisar Magya Wygnania, (tradução polonesa de Henryk Siwierski, professor das Universidades de Cracóvia e Brasília, da antologia Mágica do Exílio, de Jacob Pinheiro Goldberg), adianta que se trata de um outsider, comparando-o a Tadeusz Rozewicz e a Carlos Drummond de Andrade", declara Sandra Magalhães.
Somos todos e cada um, à sua maneira, prisioneiros do passado, assegura Goldberg. "No exercício diário da psicanálise, constato o atemporal e o inespacial do inconsciente. O que me aconteceu na infância está mais presente, nostálgico, dilacerante, do que o café da manhã".
  
Na verdade, a escrita, para Jacob Pinheiro Goldberg, é o exercício balanceado entre a onipotência do criador e a impotência da fragilidade do ser. E, assim, a simbiose entre o irreal, a ficção e o acontecido é a maternidade no devir. "Psicologia em Curta-metragem" é mais um passo na trajetória de um autor que não teme o desafio de revirar o passado e de discutir o presente.

 

 

7

 

Jacob Pinheiro Goldberg

debate a violência urbana

e lança livro sobre o cinema

 

Jorge Sanglard

Jornalista, pesquisador e organizador da antologia “Poesia em Movimento”

 

A fronteira é a pátria de Jacob Pinheiro Goldberg, a esquina, sua peregrinação. Ao transitar pela psicologia, literatura, cinema e direito, Goldberg amplia sua visão de mundo e lança um feixe de luz para a compreensão dos conflitos que marcam estes primeiros anos do Século XX. Para o escritor e psicanalista, todo mundo constrói seu filme e ninguém consegue escapar do script, mesmo as pessoas sem nenhum tipo de contato com o cinema acabam criando e incorporando um personagem em seu dia-a-dia e produzem um roteiro, até sem querer. Afinal, a vida é presente divino, que não cabe em muito pouco, adverte o psicólogo.

   Nascido em Juiz de Fora e radicado em São Paulo, há mais de cinco décadas, Jacob Pinheiro Goldberg é doutor em psicologia e vem colaborando regularmente com a Revista OAB-MG 4ª Subseção, onde tem instigado o debate de idéias e a reflexão. Seu novo livro, “Psicologia em Curta-metragem” (Editora Novo Conceito), que será lançado em Juiz de Fora na sede 4ª Subseção da Ordem dos Advogados do Brasil – MG (Avenida dos Andradas 696), no dia 24 de abril, às 19 horas, é uma investida densa no universo do cinema. Segundo Sandra Magalhães, no prefácio da publicação, o autor, que é um cinéfilo por circunstâncias existenciais, exige do leitor que reescreva, na conformidade de seu tamanho, uma concepção de ser a partir do personagem. O livro tem lançamento marcado também em São Paulo, no dia 14 de maio, às 19 horas, na Livraria Cultura - Teatro Eva Herz - Conjunto Nacional- Avenida Paulista.

   Depois de quase duas décadas sem voltar a Juiz de Fora, Goldberg aceitou o desafio do retorno à cidade natal para participar de uma conferência e um debate, com o lançamento da nova obra, ao lado da procuradora do Estado de São Paulo, Ana Sofia Schmidt de Oliveira, no Ciclo de Debates promovido pela 4ª Subseção da OAB-MG e pela Escola Superior de Advocacia (ESA), no dia 24 de abril. O tema da conferência é “Macro e Micro Violência no Brasil”, onde serão abordadas questões polêmicas como a proposta de redução da idade penal e o endurecimento das penas no país. Tanto Ana Sofia quanto Goldberg defendem que o que importa é o desenvolvimento de uma visão crítica diante de uma realidade complexa, e é fundamental rechaçar soluções simplistas como o aumento do rigor das punições, a redução da maioridade penal, a criminalização de novas condutas. Assim, o essencial é colocar-se, especialmente aquele que se ocupa do sistema como policial, advogado, juiz ou promotor, numa posição de maior humildade, incorporando a crença de que, se o sistema deixar de causar um mal maior do que aquele que pretende combater, já terá feito grande coisa.

O ser humano ainda não encontrou uma fórmula para driblar sua tendência à perversidade, enfatiza Goldberg. “É aquela espécie que tortura, mutila e mata, por prazer. O exercício diabólico do sado-masoquismo. A resposta está na alteridade, sublimação da finitude, única saída para o desespero do acaso, raiz da violência”. E esse dialógico se trava e destrava na palavra que raspa os idiomas, garante o psicanalista.

Na opinião de Sandra Magalhães, “em sua amplitude, Jacob Pinheiro Goldberg vem construindo uma teoria brasileira da psicologia, na melhor tradição da originalidade que captura no humano, a liberdade”. E complementa: “Aproprio-me das palavras de Gilberto Felisberto Vasconcellos que, em crítica publicada na Folha de S. Paulo, sobre o livro “Cultura da Agressividade”, a edição da tese de doutoramento em psicologia de Jacob Pinheiro Goldberg, o enquadra ‘à maneira dos novos filósofos franceses, que são os representantes do pós-modernismo’”.

“Psicologia em Curta-metragem” é apontado por Sandra Magalhães como um outro turn over na difícil e impressionante obra de Goldberg, visto como o psicólogo da poética. Difícil enquanto escrita e falada, dispersa e exilada, em conferências, artigos, no Brasil e no exterior, em um processo de turbilhão de um peregrino que, em torno de si mesmo, visita o Outro e o mundo com profunda militância social que já se incorporou à própria história de nossa cultura. Impressionante, porque levanta polêmica, contesta, raciocina e faz a apologia da desrazão, provocando a ira dos covardes de espírito, suscitando emoção no humano.

O livro traz uma análise comportamental de diversos filmes, diretores e atores de cinema, onde Goldberg analisa “Matrix”, “Os Pássaros”, “Disque M para Matar”, “Dois Filhos de Francisco”, “Cidade de Deus”, “O Segredo de Brokeback Mountain”, “Meu Nome Não é Johnny” e até “Tropa de Elite”. Sobre este último, o psicólogo afirma que o diretor fez no cinema o que Nelson Rodrigues fez na literatura. “Ele escreveu um ‘brasileiro’ sobre o Brasil, que ninguém escreve, ninguém filma, porque somos filhos de uma cultura que escamoteia para evadir-se. Uma sociedade que não se enxerga com medo da visão horrorosa que a ameaça. Brutalidade, violência, hipocrisia, tudo é tratado pelo viés do tabu, da falsa cordialidade. O indivíiduo diz não com um sorriso de sim”.

No dia 22 de abril, às 18h30, no Museu de Arte Murilo Mendes (MAMM), da Universidade Federal de Juiz de Fora (rua Benjamin Constant, 790), Jacob Pinheiro Goldberg participa do projeto Diálogos Abertos, onde grava um depoimento e será entrevistado sobre sua trajetória entre Juiz de Fora e São Paulo.

Juiz de Fora é uma cidade que tem como marca a industrialização, na virada do século XIX para o XX e no início do XX, e ao longo do tempo acolheu muitos imigrantes. Assim, os pais de Jacob Pinheiro Goldberg escolheram as terras banhadas pelo Paraibuna para se fixarem no Brasil. A memória de Juiz de Fora, e da rua Halfeld, no coração da cidade, permeia diversos poemas escritos por Goldberg, que revela: “Na infância, viajei dezenas de vezes nos trens da Central do Brasil, entre minha cidade natal e São Paulo, a fim de visitar meus avós maternos...voltava saudoso da garoa, talvez ensaio para o fog”. O apito do trem foi o musical que acompanhou a saga do menino apelidado, Esquina, no percurso entre Minas e São Paulo. Estes poemas são fruto de um mergulho na infância e na adolescência vividas na pioneira e industrial Juiz de Fora, além de um resgate das lembranças familiares vislumbradas no mapa da Polônia.

Jacob Pinheiro Goldberg, Affonso Romano de Sant’Anna, Fernando Gabeira e Itamar Franco, entre tantos outros juizforanos, de nascimento ou adotados, estudaram no tradicional colégio metodista Granbery, uma referência educacional juizforana e mineira. O ar de mistério que certas cidades capturam, como Juiz de Fora, segundo Goldberg, remete ao absurdo que habita as almas e, sem lógica, exaspera e exige. Assim, o berço de Pedro Nava, Murilo Mendes e de Rubem Fonseca abriu caminho e/ou acolheu uma geração de novos e consagrados escritores e poetas – entre os quais, Luiz Ruffato, Iacyr Anderson Freitas, Edimilson de Almeida Pereira, Fernando Fiorese, Prisca Agustoni, Júlio Polidoro, José Santos, Eustáquio Gorgone, Sérgio Klein, Walter Sebastião, Fabrício Marques, Ronald Polito, Júlio Castañon Guimarães, Knorr, Ricardo Rizzo e o saudoso José Henrique da Cruz –, que vêm inserindo seus nomes e suas obras na constelação literária mineira e brasileira.

“Regina Przybycien, professora da Universidade do Paraná, ao analisar Magya Wygnania, (tradução polonesa de Henryk Siwierski, professor das Universidades de Cracóvia e Brasília, da antologia Mágica do Exílio, de Jacob Pinheiro Goldberg), adianta que se trata de um outsider, comparando-o a Tadeusz Rozewicz e a Carlos Drummond de Andrade”, declara Sandra Magalhães.

Somos todos e cada um, à sua maneira, prisioneiros do passado, assegura Goldberg. “No exercício diário da psicanálise, constato o atemporal e o inespacial do inconsciente. O que me aconteceu na infância está mais presente, nostálgico, dilacerante, do que o café da manhã”.

            Na verdade, a escrita, para Jacob Pinheiro Goldberg, é o exercício balanceado entre a onipotência do criador e a impotência da fragilidade do ser. E, assim, a simbiose entre o irreal, a ficção e o acontecido é a maternidade no devir. “Psicologia em Curta-metragem” é mais um passo na trajetória de um autor que não teme o desafio de revirar o passado e de discutir o presente.

 

 

8

 

ESPECIAL

 

“Eram três crianças dentro da cena. Se nós partirmos do pressuposto ou da probabilidade de que fossem eles, uma das crianças seria o chamado Terceiro Excluído.”

 

(Ensaio de doutor em Psicologia ajuda a entender o que aconteceu com Isabella)

 

A MADRASTA

E O TERCEIRO

EXCLUÍDO

 

“Nós somos aqueles que matamos a quem mais amamos.” (Oscar Wilde)

 

JACOB PINHEIRO GOLDBERG*

 

   Nós somos herdeiros de uma tradição que remonta à Idade Media, o conceito da mulher-bruxa que seria, na verdade, a esposa de Satã.

   Se você remontar a períodos anteriores, pelo menos em relação à civilização ocidental, sem dúvida que teríamos que nos reportar ao conceito de Lilith, que segundo a Cabala seria a mulher proibida de Adão, portanto, a Outra, a Amante.

   É nesse traço de serpente insidiosa que se estabelece, principalmente a partir da Idade Média, com a idéia das bruxas, a idéia dessa mulher que não faz o papel sacralizado da mãe, papel que se imagina da mulher perfeita, por isso associada ao conceito de total amor.

   No folclore, quando se pensa na madrasta, ela é a mulher que maltrata, tanto é que se faz uma certa relação, uma certa sinonímia que não é só de origem sangüínea: quem pariu Mateus que o embale. Por que no folclore, frequentemente, mesmo para a mãe sangüínea que abandona o filho se usa a equação ‘ela até parece madrasta’, não obstante ser a mãe que gerou.

 

A madrasta é sempre má?

E por que a “segunda mãe”

também é madrasta?

 

  Não existe ainda uma nomenclatura para a figura da segunda mãe, que foi batizada de madrasta. Na realidade, podemos até estender ao conceito de padrasto, só que há diferenças: até na jurisprudência, nos acertos legais relativos a crimes cometidos, prevalece o conceito de que o pai que casa com a mulher e por isso passa a exercer papel de entidade paterna nunca é tão ciumento, tão difícil, tão severo, tão rigoroso quanto a mulher, o que traz no seu bojo, mais uma vez, o preconceito machista.

   Explicando melhor: se o homem casa com uma mulher que tem filhos, ele já é visto tanto por essas crianças quanto por essa mulher como mais compreensivo, mais tolerante com os filhos que não são dele do que no caso inverso.

   Talvez ele tenha um papel mais poderoso, é o homem que traz dinheiro para casa, enquanto a outra, teoricamente, é uma gastadora. Dá despesa, vai dividir fortuna em caso de falecimento, de inventário... e assim por diante.

   Agora, o que também é muito interessante de se revelar é que o ser humano não é só agente de funções sociais, ele é objeto de função social. Explicando melhor: quando uma mulher vai casar com um homem que é viúvo ou separado ela já vai com uma tendência a exercitar esse papel.

   Essa mulher vai ter que encarar filhos que já têm a suspeita de que ela é uma invasora, que pretende ocupar o papel considerado mais sagrado na nossa cultura, que é o papel de mãe. Então, essas crianças não vão aceitar a transfer0bncia psíquica no seu imaginário e no simbólico.

   A madrasta vai ter que passar uma parte da sua vida provando em primeiro lugar que ela não é essa feiticeira maldosa a que os contos de fada tanto aludem. E os contos de fada, todos sabemos hoje que correspondem a fantasias neuróticas infantis.

   Então, ela vai ter que provar que ela não é a ladra, a que roubou o papel da mãe, primeiro. É um esforço extraordinário, você já partir de uma posição socialmente, familiarmente e intrapsiquicamente extremamente desconfortável.

   E se ainda não tiver, como a maioria de nós não temos, um equilíbrio, uma harmonia muito bem resolvida, a tendência no caso da madrasta é a de desempenhar o papel que a sociedade lhe impõe.

 

A relação da madrasta

com a filha do marido

é sempre tensa?

 

   Muitas vezes a relação da mãe sangüínea com a filha é mais tensa do que com a madrasta e a filha. Tanto é que um dos contos mais extraordinários da literatura árabe, de Kalil Gibran Kalil é assim: a mãe e sua filha adulta deitam na mesma cama para dormirem e antes de pegarem no sono fazem grandes declarações de amor, se acariciam, se beijam, Manifestam todos os sentimentos positivos e dormem. Entregues ao sono, elas sonham,. E as duas têm pesadelos. E nesse pesadelo elas cometem, cada uma, o assassinato do ente querido na vigília. A mãe sonhou ter matado a filha. A filha sonhou ter matado a mãe. Ao acordar, elas voltam ao seu papel.

   Kalil Gibran, um dos poetas que mais usou os recursos psicológicos na literatura, mostra que esse recalque dos sentimentos proibidos mascara situações muito violentas. Então, se isso acontece com a mãe de sangue, é natural que esse ciúme se estabeleça quando há duas mulheres. Ou seja: a madrasta e a filha do seu companheiro são duas mulheres teoricamente disputando o amor do mesmo homem. E mais, na eventualidade de não se tratar de uma órfã e sim filha de mãe viva, esse sentimento ainda fica dentro de um cipoal muito mais complexo, de muito mais difícil deslinde. Porque a mãe biológica vai ter uma tendência natural de ter medo de que essa madrasta também vá  roubar o amor da sua filha.

   O fato é que nós estamos dentro de um processo extremamente perigoso, principalmente tendo em vista que hoje no Brasil, no período aproximado de três anos mais ou menos 60% dos casamentos se desfazem, portanto novos casamentos se estabelecem.

   E hoje boa parte da população que vive casada ou amancebada você pode considerar na faixa de 60% a partir de oito anos, grande parte dos casais está no segundo ou terceiro casamento, então essas interações estão cada vez mais presentes e mais complexas.

   Porque às vezes a madrasta tem que cuidar dos seus filhos da primeira relação; dos filhos do seu companheiro da segunda relação; dos filhos dele da primeira relação... então há também os choques fraternos, dos meio-irmãos.

   As divisões internas das atenções e do zelo, todos sabemos que já não são fáceis na família tradicional, então se imagina  a exasperação desses jogos nesses grupos modernos que substituíram a família tradicional. É muito mais difícil e sempre localizado numa tendência passional, onde a reação é substituída por paixões desenfreadas, quando não por compulsões.

 

O que desencadeia

a agressão

é o ciúme?

 

   Eu acho que as relações humanas, mesmo aquelas muito próximas do afeto como emoção central são carregadas de agressividade. O ser humano é filogeneticamente programado para a agressividade. Existe uma diferença entre agressividade e perversidade.

   A perversidade é a agressividade orientada no sentido de mutilar, torturar e matar alguém da mesma espécie sem uma causa que explique. E até com prazer. A tortura. E são elementos do sado-masoquismo, que são sentimentos genéricos na condição humana.

   Eu acho que o cinema, DVD, internet, TV essa imagética toda têm servido como elemento catártico, quer dizer, você projeta na tela esses sentimentos, mas também está acontecendo o contrário: principalmente através da instantaneidade e a simultaneidade de informação, também está acontecendo o contrário.

   Hoje você pega qualquer filme americano, comum, o mais comum, você vê pais matando filhos, filhos matando pais, a violência das emoções levadas ao nível do paroxismo. Só hoje na Folha tem quatro noticias de morte de criança. Só hoje. Infelizmente, existe uma cultura de destrutividade na qual nós estamos imersos. Quando, então, o indivíduo é obrigado a conviver, como, no caso da madrasta com os filhos de outro homem na mesma casa, em condições freqüentemente difíceis, ciúme, inveja, ressentimento são emoções que podem levar à ira, ao furor, à perda de controle.

 

O que leva um

adulto a matar

uma criança?

 

   Eu acho que no caso da Isabella existem vários ângulos que merecem ser discutidos. Em primeiro lugar, quero deixar claro o seguinte: que a gente pode discutir esse caso em tese; enquanto não houver um julgamento, o que existe na minha opinião é um linchamento, desse linchamento faz parte uma população ressentida, sedenta de vingança, ignorante, como é a média da população brasileira, incapaz de compreender a complexidade dos meandros psíquicos e jurídicos  de um crime dessa natureza, manipulada principalmente pela mídia televisiva.

   Essa mídia televisiva perdeu, na minha opinião, o mínimo do senso de decência, está se repetindo o fenômeno da caça às bruxas.

   Eu acho que aqui existe um crime infame, que é exatamente o assassinato de uma criança e existem dois suspeitos, que a policia elegeu antes das provas. Ainda que posteriormente fossem divulgados laudos, o fato é que, historicamente, nós sabemos que sempre foi muito fácil se usar todas as aparências de prova, muitas vezes para acobertar situações inesperadas. Mas, de qualquer maneira, existe aí um crime infame, existem suspeitos, mas por enquanto são suspeitos.

   O que me chama muita atenção é que essa criança foi usada, seja qual tenha sido a circunstância, como bode expiatório. Essa criança não foi o agente provocador da sua morte. Não haveria qualquer motivo, seja de um pai ou de estranhos, que poderia de alguma maneira explicar esse assassinato. Então, ela é o bode expiatório. Seja de vingança, de ódio, de crime, por vizinho, por pai, por mãe – é um bode expiatório. Agora, o que nós não podemos é transformar também o casal em bode expiatório. De uma população violenta e agressiva como a nossa.

 

O instinto de

destruição é o

mais forte?

  

  

   O fato é que só pode existir qualquer resposta a essa questão da madrasta se nós entendermos o impulso de destruição chamado destruct versus construct, a necrofilia versus biofilia, o impulso de morte versus impulso de vida que existe em cada um de nós. Não esquecendo a famosa frase de Oscar Wilde: “Nós somos aqueles que matamos a quem mais amamos.”

   Então, o amor e o ódio estão muito perto.

   E ali dentro havia jogos de amor, independente de eles serem ou não culpados. Mas o que a gente tem é a percepção da intervenção muito grande das famílias de origem, a família do pai Antonio, e do pai dela, muita gente, ali dá impressão de relações quase tribais. Nessas relações tribais em geral as crianças de alguma maneira, direta ou indiretamente, pagam um preço muito alto.

   Por que? Por covardia. Os adultos não têm coragem de se confrontarem, fica muito mais fácil descontar nas crianças, que são alvos fáceis nos quais se despejam esses ódios.

 

Que tipo de

confronto

pode ter havido?

 

   Veja bem: eram três crianças dentro da cena. Se nós partirmos do pressuposto ou da probabilidade de que fossem eles, uma das crianças seria o chamado Terceiro Excluído.

   O Terceiro Excluído é a figura clássica dentro da psicologia, daquele que não tem espaço do qual ele participa. Ele é o Outro. Então, essa é uma das hipóteses.

   O que eu quero discutir: esse crime passa a ser emblemático daqui pra frente na cultura brasileira.

   Vejo semelhanças com um episódio bíblico fundamental, que dividiu a civilização em duas eras: a era da crueldade e a era da inocência. Deus manda Abraão sacrificar o filho Isaque. Deus é o super-pai. O pai obedece. Levanta a espada contra o filho. Mas o anjo salvador segura a mão do pai. Isaque não é sacrificado. Deus não queria sangue, só a prova da obediência cega.

   Desta vez, o anjo se ausentou da cena.

  A criança não é mais vista como elemento vulnerável, indefeso. Eu tive uma discussão violenta a respeito da pedofilia num debate na revista Trip. Eu dizia que a pedofilia é um crime dos mais graves e alguns intelectuais se opuseram, afirmando que não é tão simples assim, afinal a menina era um elemento sexual de desejo, eu tinha que compreender que, modernamente, a partir do Lolita, de Nabokov essa é mais uma das manifestações de erotismo admissíveis.

 

 

Por que a

madrasta

é mais odiada

que o pai?

 

  Voltando à questão da madrasta, da filha, da mulher, através de uma revolução feminista que foi truncada, o que aconteceu?

   Aqueles que se imaginam na vanguarda da libertação da mulher, transformaram a mulher na cachorra, e o ídolo da cachorra quem é, segundo o funk carioca? É o cafetão. Isso, aliás, numa imitação da música popular negra norte-americana.

   É preciso ter coragem de mostrar essa adulteração de algumas das bandeiras comportamentais mais avançadas aparentemente que se deturparam de tal maneira que nós estamos transformando aquilo que eram sonhos socialistas em realidades fascistas.

   Isso não só com a concordância, mas com o masoquismo feminino. A mulher se prestando a esse serviço. Não é mais a mulher; é a adolescente; não é mais a adolescente, é a criança.

   Hoje, meninas - e é um testemunho meu como psicanalista - de 11, 12 anos de idade fazem questão de ficar entre aspas com menininhos, disputando campeonatos pra ver quem beija mais, cada vez  a crianças mais novas se pergunta se têm namorada. Se você transmite regras tão intimas quanto morais e sexuais nós estamos muito perto do homicídio, estamos muito perto do assassinato da individualidade da criança, desrespeito completo.

   A partir daí, se você trata uma criança como um adulto, se essa criança olha com olhar negativo para um adulto, pode ser considerado uma provocação que justifique uma reação brutal.

   E outra coisa. Partindo ainda da hipótese de que esse casal tenha matado a criança, você percebe que grande parte do ódio popular se volta muito mais contra a madrasta do que contra o próprio pai, o que é uma aberração porque se nós levarmos em conta a ordem natural, em termos de civilização, a pessoa mais próxima seria o pai, então o crime seria mais infame praticado pelo pai.

   Mas o que a mentalidade popular imagina? Que esse pai foi manipulado pela madrasta. Quer dizer, mais uma vez, até nesse caso, o que ocorre é isso. Se nós levarmos em conta a hipótese de uma discussão mais ampla, e eu reitero que enquanto não houver um julgamento, com todas as suspeitas que esse reality show está provocando, eu como advogado que trabalhou muitos anos com o crime, acho tudo muito estranho, tudo me lembra um grande espetáculo midiático e uma incompetência muito grande, de todos os participantes.

Mas, digamos que tenha sido, por que não se admitir que fosse só o pai? Não, alguém levantou a hipótese de que a perícia teria mostrado que o machucado no pescoço seria do tamanho da mão da madrasta. Vão me desculpar, mas nem a CIA consegue identificar com essa precisão...

   Não tenho acesso aos laudos, prefiro falar do ângulo psicológico, mas qualquer laudo admite um contra-laudo, Nós não estamos trabalhando com ciências exatas e sim com ciência biológica, que sempre admite uma margem de erro, de ambivalência e subjetividade.

 

Será que os pais

pensam: o filho

é meu e eu faço

com ele o que eu quiser?

  

   Para os grupos humanos primitivos, no Oriente, principalmente, é muito comum a idéia de que as crianças podem ser vendidas, com 10 anos se estabelece contrato de casamento, a menina é vendida aos 11 para um homem de 60. Levando essa idéia à última fronteira da razão, leva ao filicídio.

   Diariamente tenho contato com relações entre madrastas e suas “filhas”. Cada dia mais. E nunca encontro relações que no profundo eu possa considerar harmoniosas e muito menos razoáveis, embora muitas vezes debaixo do manto da hipocrisia.

   Você repara uma coisa: no caso aqui outro fenômeno que me chamou a atenção em todo esse processo são as reações estranhas, as reações idiossincráticas atípicas, estranhas. Você não vê quase choro compulsivo, não vê reações intensas de sofrimento, de dor, de nenhum dos participantes: nem pai, nem mãe, nem madrasta, nem avô, nem avó.

 

* Doutor em Psicologia, psicólogo, advogado, assistente social e escritor. Deputy-chairman - Middlesex University South American Advisory Board. Professor convidado - University College London Medical School - Uniwersytet Jagiellonski e Uniwersytet Warszawski (Polonia) - Universidade Eotvos Liorand (Budapest-Hungria ) - University of Leicester (Inglaterra) - Hebrew University of Jerusalem - École des hautes études en sciences sociales - (Paris) - USP - PUC-SP - PUC-Campinas - Universidade de Brasília - UNESP - Mackenzie.

 

8

 

Estado de Minas

Pensar

BH – 19/04/2008

 

LANÇAMENTO  

 

Cinema e psicanálise

Livro de Jacob Pinheiro Goldberg, Psicologia em curta-metragem faz

análise comportamental de filmes, personagens e diretores

 

Jorge Sanglard*

 

Jacob Pinheiro Goldberg (foto de Pena Prearo) leva para o divã  diretores de

 cinema como Akira Kurosawa, Eisenstein, Steven Spielberg e David Lynch

 

   A fronteira é a pátria de Jacob Pinheiro Goldberg; a esquina, sua peregrinação. Ao transitar pela psicologia, literatura, cinema e direito, Goldberg amplia sua visão de mundo e lança um feixe de luz para a compreensão dos conflitos que marcam os primeiros anos do século 21. Para o escritor e psicanalista, todo mundo constrói seu filme e ninguém consegue escapar do script. Mesmo as pessoas sem nenhum tipo de contato com o cinema acabam criando e incorporando um personagem em seu dia-a-dia e produzem um roteiro, até sem querer. Afinal, a vida é presente divino, que não cabe em muito pouco, adverte o psicólogo.
   Nascido em Juiz de Fora e radicado em São Paulo há mais de cinco décadas, em seu novo livro, Psicologia em curta-metragem, Jacob Pinheiro Goldberg faz uma investida densa no universo do cinema. Na opinião de Sandra Magalhães, “em sua amplitude, Jacob Pinheiro Goldberg vem construindo uma teoria brasileira da psicologia, na melhor tradição da originalidade que captura no humano, a liberdade”. E complementa: “Aproprio-me das palavras de Gilberto Felisberto Vasconcellos que, em crítica sobre o livro Cultura da agressividade, a edição da tese de doutorado em psicologia de Jacob Pinheiro Goldberg, o enquadra ‘à maneira dos novos filósofos franceses, que são os representantes do pós-modernismo’”.
   Psicologia em curta-metragem é apontado como um outro turn over na difícil e impressionante obra de Goldberg, visto como o psicólogo da poética. Difícil enquanto escrita e falada, dispersa e exilada, em conferências, artigos, no Brasil e no exterior, em um processo de turbilhão de um peregrino que, em torno de si mesmo, visita o outro e o mundo com profunda militância social que já se incorporou à própria história de nossa cultura. Impressionante, porque levanta polêmica, contesta, raciocina e faz a apologia da desrazão, provocando a ira dos covardes de espírito, suscitando emoção no humano.
   O livro traz uma análise comportamental de diversos filmes, diretores e atores de cinema, onde Goldberg analisa Matrix, Os pássaros, Disque M para matar, 2 filhos de Francisco, Cidade de Deus, O segredo de Brokeback Mountain, Meu nome não é Johnny e até Tropa de elite. Sobre este, o psicólogo afirma que o diretor fez no cinema o que Nelson Rodrigues fez na literatura. “Ele escreveu um ‘brasileiro’ sobre o Brasil que ninguém escreve, ninguém filma, porque somos filhos de uma cultura que escamoteia para se evadir. Uma sociedade que não se enxerga com medo da visão horrorosa que a ameaça. Brutalidade, violência, hipocrisia, tudo é tratado pelo viés do tabu, da falsa cordialidade. O indivíduo diz não com um sorriso de sim”.
   Juiz de Fora
   Jacob Pinheiro Goldberg, Affonso Romano de Sant’Anna, Fernando Gabeira e Itamar Franco, entre tantos outros juiz-foranos, de nascimento ou adotados, estudaram no tradicional colégio metodista Granbery, uma referência educacional. O ar de mistério que certas cidades capturam, como Juiz de Fora, segundo Goldberg, remete ao absurdo que habita as almas e, sem lógica, exaspera e exige. Assim, o berço de Pedro Nava, Murilo Mendes e de Rubem Fonseca abriu caminho e acolheu uma geração de novos e consagrados escritores e poetas – entre os quais Luiz Ruffato, Iacyr Anderson Freitas, Edimilson de Almeida Pereira, Fernando Fiorese, Prisca Agustoni, Júlio Polidoro, José Santos, Eustáquio Gorgone, Sérgio Klein, Walter Sebastião, Fabrício Marques, Ronald Polito, Júlio Castañon Guimarães, Knorr, Ricardo Rizzo e o saudoso José Henrique da Cruz –, que vêm inserindo seus nomes e suas obras na constelação literária mineira e brasileira.
   Somos todos e cada um, à sua maneira, prisioneiros do passado, assegura Goldberg. “No exercício diário da psicanálise, constato o atemporal e o inespacial do inconsciente. O que me aconteceu na infância está mais presente, nostálgico, dilacerante, do que o café-da-manhã”. Na verdade, a escrita, para Jacob Pinheiro Goldberg, é o exercício balanceado entre a onipotência do criador e a impotência da fragilidade do ser. E, assim, a simbiose entre o irreal, a ficção e o acontecido é a maternidade no devir. Psicologia em curta-metragem é mais um passo na trajetória de um autor que não teme o desafio de revirar o passado e de discutir o presente.
   Psicologia em curta-metragem
  
De Jacob Pinheiro Goldberg

   Editora Novo Conceito, 192 páginas


   *Jorge Sanglard é jornalista, pesquisador e organizador da antologia Poesia em movimento.

 

 

10

 CARTAS À REDAÇÃO
Como o dr. Goldberg chegou lá

Por Alberto Dines em 13/4/2004

 

O artigo de Olavo de Carvalho sobre o filme de Mel Gibson na revista Bravo! (abril, 2004, pág. 42-47) contém um ingrediente midiático que conviria destacar: é quase todo dirigido contra um desconhecido dr. Jacob Pinheiro Goldberg.

Quem é este senhor, da onde veio, o que fez ou disse, quem representa, qual a sua importância para ser escolhido como alvo da mais nova cruzada do filósofo?

O tema central do artigo é a nova perseguição aos cristãos empreendida por aqueles que não gostaram do filme A paixão de Cristo ou o consideraram anti-semita. Imagina-se, portanto, que o dr. Goldberg seja alguma autoridade teológica ou tenha alguma representatividade para merecer a furiosa investida. O talento, a cultura e as devoções de Olavo de Carvalho não podem ser desperdiçados com figuras insignificantes. O inimigo precisa ser magnificado, caso contrário a investida minimiza-se.

O dr. Jacob Pinheiro Goldberg é uma destas figuras transcendentais da vida contemporânea que se ocupa com a magna tarefa de escrever cartas aos jornais. Apresenta-se como advogado, foi dono de uma clinica psiquiátrica, mas já identificou-se como psicólogo, psicanalista, professor-visitante da Universidade de Londres etc., etc.

O atributo que não exibe é o seu extraordinário faro para ludibriar jornais, espécie de jornalista às avessas. Opina sobre qualquer assunto, especialmente aqueles que dizem respeito ao judaísmo, valendo-se do sobrenome para defender as posições mais amalucadas.

Justiça lhe seja feita: conhece como ninguém as deficiências das nossas redações. Há poucos anos, quando foram lembrados os 60 anos da morte do escritor Stefan Zweig, escreveu uma bateria de cartas aos principais jornais brasileiros afiançando que o criador do Brasil, País do Futuro não se suicidou junto com a mulher, mas foi liquidado por agentes da Gestapo a serviço de Getúlio Vargas.

Colou: publicaram a carta, pediram uma entrevista, o jornal concorrente não queria ficar atrás e convidou-o a escrever um artigo, logo apareceu uma emérita historiadora da USP para convidá-lo a participar de um congresso internacional. Não completou os 15 minutos de fama, seu trabalho foi desclassificado.

Ao perceber a "onda" Mel Gibson, o dr. Goldberg achou que valeria a pena pegar carona neste bonde. Escreveu uma carta sugerindo que o filme fosse proibido para menores. Colou novamente: um redator de plantão do Estado de S.Paulo achou que o missivista deveria um importante líder da comunidade judaica, e certo de que iria fazer barulho, publicou uma notícia com a sua absurda proposta. A Folha, mordida de ciúmes, publicou um artigo na nobilíssima Página 3.

Desta vez, o dr. Goldberg chegou lá: o filósofo Olavo de Carvalho dedicou-lhe cinco páginas em papel couché impressas em quatro cores, mostrando-o como o perverso censor e algoz do cristianismo.

É a glória, dr. Goldberg! Mas, doravante, convém que os redatores de plantão se acautelem e não se deixem enganar com as idéias estapafúrdias do renomado prof. Iceberg.

 

 

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A PAIXÃO DE CRISTO
Jacob Pinheiro Goldberg

em 23/3/2004

"Um filme anticristão", copyright Folha de S. Paulo 20/03/04

 

"Acho desnecessário, pela obviedade, provar que o filme é anti-semita, digno de Mel Gibson, que se afirmou orgulhoso do pai, que negou o Holocausto. Mas é oportuno provar seu anticristianismo agressivo.

Trata-se da versão hollywoodiana da maior contrafacção política e ideológica da história, a inteligente e hábil manobra de atribuir aos judeus a culpa da condenação de Jesus à morte. Como essa fórmula primária, que qualquer criminalista seria capaz de desmistificar, tem resistido a estudos e análises?

Em primeiro lugar, explica-se pelo anti-semitismo disseminado pelos cultores da nova religião, interessada em bloquear as fronteiras com sua fonte originária. Em segundo lugar, a uma natural e apaixonada resistência judaica, indignada diante do apoderamento de seu filho, transformado, contra sua vontade, em instrumento de ódio e perseguição. Em abono desta tese poderíamos transcrever inúmeras passagens do Novo Testamento. Inútil. Ou o leitor percebe que, numa vida de 30 e poucos anos, Jesus dedicou todos os seus momentos conhecidos à tarefa do estudo da Torá e dos preceitos religiosos do judaísmo, como antes e depois fizeram milhares de rabinos e eruditos pregadores, ou escolhe a via tortuosa do sadomasoquismo anti-semita, que se prende ao drama arquitetado pelos dominadores romanos nas suas últimas horas.

Na verdade, na figura de Jesus, foi crucificado na época o espírito de insurreição religiosa e política de Israel, provavelmente com a cumplicidade de alguns elementos engajados com o conquistador. Nos dois milênios que se sucederam, os judeus têm sido castigados pela trágica herança de haverem concebido um filho mágico e dileto, de espírito universalmente aberto. Provavelmente, uma das grandes horas da história será o instante da reversão da dinâmica de Jesus. De seus versículos proferidos, de todas as passagens vividas por Jesus, Yeoshua bem Yossef, transpira sua apaixonada adesão ao judaísmo, seu entranhado amor ao seu povo e sua mensagem de libertação.

O processo de seu deslocamento começa no desenvolvimento produzido por Pilatos, a reconciliação e o reconhecimento de sua função como judeu, o apagar do tônus anti-semita, que procura retratá-lo como estranho ao seu povo, a final trama desmentida pelo senso comum de seu papel, como messias para os cristãos, como filho querido para os judeus. Quem instruiu, magistralmente, a necessidade dessa revisão foi o poeta libanês Khalil Gibran, no seu diálogo entre Jesus de Nazaré e Jesus dos cristãos, que, segundo ele, ainda não tinham conseguido se conciliar. Fonte histórica de Jesus, o judaísmo perdeu para o cristianismo institucionalizado seu poder político e social, que permitiu à nova religião dar o tônus da civilização ocidental.

No entanto, nas últimas décadas, e destacando-se o pensamento de figuras como João 23, Tomas Merton e Jacques Maritain, acentua-se um processo de judaização do pensamento cristão de algumas áreas mais esclarecidas. Do lado judaico, tal inclinação se adivinha na análise de Jesus feita por Joseph Klausner. No estudo ‘A Morte de Deus e o Futuro da Teologia’, Gallagher afirma que devemos nos rejubilar ‘não por qualquer coisa que é, mas por aquele que virá’. Dificilmente a noção judaica do messias poderia ter uma melhor categorização do que esta.

Na medida em que o cristianismo passa pelo mergulho introspectivo do abandono das imagens greco-romanas e penetra no ‘pathos’ e no ‘ethos’ de Jesus, o rabi judeu, a mansidão e o amor à vida se irão contrapor ao martírio da paranóia. Obviamente, a dialética de uma crise de consciência e revisão totalizante desse

alcance não se fará suavemente, eis que vai abalar toda a teologia do sofrimento -interno e externo, expresso na mecânica da agressividade- das cruzadas, do ódio ao prazer, da tendência à abstinência, do conceito brutal de salvação de todo o gênero humano e, finalmente, da própria concepção da estrutura religiosa como instituição.

Talvez este será o mais formidável paradoxo da história: vencidos os bloqueios psicológicos, o anti-semitismo terá ensejado a mea culpa, que conduzirá a elite do pensamento filosófico cristão à aceitação do judaísmo. Porque nesse jogo, como na vida, quem perde ganha. Não se pode esquecer de que a cruz era um suplício romano, não um instrumento da justiça judaica. Jesus foi executado pelos romanos, na missão de dominação política, como agitador. A acusação ao judeu de ser o assassino de Cristo foi uma lenda divulgada pela propaganda romana, na Diáspora.

Depois dos Manuscritos do Mar Morto, estudar Jesus não é tarefa para a construção da desavença. Judeu, estudei no Instituto Grambery, Colégio Metodista, em Juiz de Fora, onde nasci. Lá começou a revelação, para mim, de que Jesus não morreu -ao contrário do que imagina Gibson. Ele vive com os cancerosos, os miseráveis, os abandonados, órfãos e viúvas. Mas também na alegria, na esperança, na fé. Sente-se a paixão de Jesus no silêncio, na introspecção do seu sacrifício. Na vitória da vida sobre a morte, do amor sobre a raiva. O filme de Gibson é a recrucificação de Jesus por US$ 200 milhões. Jacob Pinheiro Goldberg, psicanalista, é doutor em psicologia pela Universidade Mackenzie e professor convidado pela Uniwersytet Jagiellonski (Cracóvia, Polônia)."

 

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Cara e Coragem
Ao caminhar sozinha até o altar, dia 10 de dezembro, para se casar com o publicitário Roberto Justus, Adriane Galisteu joga mais luzes sobre a força de seu nome, que se tornou um sinônimo de sucesso. Há cinco anos, ela era a namorada de Ayrton Senna e acusada de viver à custa de sua fama e de sua memória.

Foto: DARCIO DE JESUS

 

MARTA GÓES

 

Adriane Galisteu sente um frio na barriga quando pensa em seu casamento, dia 10 de dezembro, com o publicitário Roberto Justus. "Estou ficando muito nervosa", ela admite. "Estou morrendo de medo." Uma ansiedade inesperada para alguém como ela, que enfrenta platéias e câmeras desde os nove anos, pisa em passarelas como se estivesse em casa e apareceu nua em um milhão de exemplares de Playboy. Além do mais, ela sempre sonhou entrar na igreja vestida de noiva. Mas agora que o dia está chegando, os 50 metros que percorrerá até o altar lhe parecem assustadoramente longos. Adriane Galisteu vai entrar sozinha. Ela é órfã de pai desde os 13 anos e perdeu o único irmão, com 30 anos, no ano passado. Mas caminhar sem o apoio de um braço masculino também tem um sabor de triunfo para quem foi acusada de explorar primeiro a fortuna e depois a memória de um herói nacional, Ayrton Senna. Aos 25 anos, Adriane Galisteu é um nome forte, uma griffe capaz de vender jóias, sopa dietética, maiôs, revistas, academias de ginástica e ações beneficentes. Na carreira de modelo, ancorada hoje pela agência Mega, ela se situa na categoria celebrities. Um público de 17 milhões de ouvintes acompanha aos domingos o programa Torpedo jovem (Rádio Jovem Pan), que ela apresenta com Luciano Huck, e o contrato de apresentadora de Quizz, na MTV, foi renovado por mais um ano. Com seu trabalho – e seu próprio sobrenome –, ela ganha hoje entre R$ 70 mil e R$ 80 mil por mês. Mas o melhor de tudo é que quando ela circula por São Paulo ao volante de sua perua Mercedes preta, numa velocidade comicamente lenta, para a ex-namorada de um piloto, as crianças se debruçam das janelas de ônibus escolares e os transeuntes acenam com carinho. Nada mal para quem, aos 20 anos, era vilã.

 

 Foto: JUCA RODRIGUES  -  DESTINO Encontro casual e fulminante

 

 

Adriane conheceu o noivo no programa de entrevistas de Salomão Schwartzman, na Rede Manchete. "Quando nos olhamos, foi daqueles segundos que parecem a eternidade", recorda Justus, 43 anos. Dias depois, quando ela embarcou para um evento em Pernambuco, ele tomou um avião e foi atrás. Justus foi casado duas vezes e tem três filhos – Ricardo, 15 anos, e Fabiana, 12, com a primeira mulher, Sasha, e Luisa, seis, com a segunda, Gisela. "Eu não estava nem pensando em me envolver tão cedo", ele garante. Àquela altura, Adriane estava em pausa para reflexão sobre o namoro de quatro anos com o empresário carioca Julio Lopes, corroídos pela distância entre São Paulo e o Rio, onde ele vive. "É claro que fiquei chateado. Gostei muito dela", admitiu Lopes, na semana passada. "O que ela estava querendo, com justa razão, era ter uma história familiar. Ela é uma pessoa muito sozinha", diz com grande fair-play.

Adriane ganhou de noivado um anel com dois imensos diamantes e um Mercedes cupê. O casamento vai ser exatamente como ela quer. O vestido colante, de crepe pesado e alcinhas, da griffe Valentino, a deixa longe das noivas bufantes que ela detesta. A compra em Nova York, em outubro, foi um parto. Ela queria um vestido de Vera Wang, estilista que já vestiu, entre outras, Sharon Stone e Cameron Diaz. O prazo mínimo era de 18 meses de espera. Na butique Valentino, o prazo era igual, mas o braço direito do estilista, o brasileiro Cacá de Souza, acionado em Roma, liberou para ela um modelo disponível na loja. Caiu como uma luva. Os sapatos são Manolo Blahnik e o arranjo de cabeça, assim como o buquê, será verde. A lista de convidados, inicialmente de 100 nomes, chegou a 800. Não vai ninguém da família Senna, para evitar a falsa impressão de um pedido de desculpas. Afinal, como frisa Adriane, "foram eles que romperam comigo". Em compensação, a família Szafir, dona de 50% do patrimônio genético de Sasha Meneghel Szafir, a filha de Xuxa, vai estar em peso. Salomão Szafir é um dos padrinhos, além de Hebe Camargo, Luciano Huck e o casal Antonio Carlos de Almeida Braga e Luisa. O altar, que abrigará um rabino e um padre, para o noivo judeu e a noiva católica, foi montado sobre o espelho d’água no jardim do bufê La Luna, no bairro do Butantã, em São Paulo.

 

 

Foto: MARCELO MIN  -  Beleza, 1,74 m, 53 quilos e espontaneidade a tornaram uma top model categoria celebrity e uma apresentadora de carisma

 

Os noivos vão morar num apartamento de quase 800 metros quadrados que compraram, no Morumbi, e que está sendo reformado e decorado pelo arquiteto Roberto Migotto. Cinco paredes derrubadas abriram um living de 30mx8m, com uma lareira em cada ponta e um home theatre. A suíte do casal tem closets e banheiros separados. Os dois precisam de armários grandes. Os de Adriane têm de abrigar, entre outros itens, 490 biquínis. "No ano 2000 já quero ter mil", diverte-se. Foi ela quem escolheu a cozinha, branca e moderna, mas não pretende utilizá-la. "Só sei abrir a geladeira e pegar água." Adriane não fez enxoval. "Eu já tinha casa montada e o Roberto também", explica. Tampouco haverá camisola do dia: "Eu durmo de calcinha de algodão. Não faço o gênero rendas e lycras", descreve. "Na noite do casamento, é muito hidratante no corpo e algumas gotas do meu perfume atual, Angel, de Thierry Mugler."

A lua-de-mel, em Las Vegas e em Los Angeles, só vai ter oito dias. A empresa de Roberto Justus acaba de dar um grande salto e a agenda de Adriane Galisteu é um quebra-cabeça difícil. Há três anos e meio, quem cuida de seus negócios é o advogado Sérgio Dantino, que representa os interesses de Thereza Collor, Lima Duarte e Silvia Popovic, entre outros nomes. Por ordem de grandeza, segundo ele, os rendimentos de Adriane provêm de publicidade, de presença em eventos e de licenciamentos. "A médio prazo os licenciamentos devem pular para o primeiro lugar", calcula. "E ela será, provavelmente, a primeira capa de Playboy no ano 2000, adianta o agente. Raramente ela diz um não. "Acho que não tenho mais que uns três anos como modelo pela frente", diz. Além de pressa, ela tem problemas de consciência. "Fico culpada de recusar quando tanta gente está sem trabalho, talvez pelo fato de que para mim as coisas fossem tão difíceis no começo", arrisca. Adriane foi criada numa casa modesta no bairro de classe média baixa da Lapa, em São Paulo. A vida da família Galisteu foi dura desde que o pai perdeu a gráfica que possuía. À dificuldade financeira, ele acrescentou o inferno do alcoolismo. O filho mais velho, Roberto, envolveu-se com drogas na adolescência e contraiu Aids. Aos nove anos, Adriane gravou o primeiro comercial – do McDonald’s – e começou a ajudar em casa.

 

Foto: ARQUIVO PESSOAL/JUCA RODRIGUES/OÃO PRIMO

 

SÓS Com a mãe e o irmão, na casa onde cresceram (à esq.), e hoje. "Sobramos nós duas

Adriane quis casar com separação de bens. "Não é para dar satisfações a ninguém", ela explica. "É apenas porque eu não dependo do Roberto. Estamos juntos por amor", diz. Sua relação com o dinheiro é um bom indicador do seu modo de encarar a vida. "Eu não passo vontades", ela resume. "Quando o Ayrton morreu, eu lembrei de todas as coisas que ele não teve tempo de fazer. Ele morreu sem nunca ter ido à Disney, por exemplo", lamenta. "Ao mesmo tempo, durante os dois anos em que meu irmão esteve doente, eu olhava o sofrimento dele e me perguntava: de que adianta ter dinheiro se eu não posso fazer nada por ele?" Entre outras lições, ela aprendeu que o dinheiro serve para dar prazer. Um deles é comprar roupas compulsivamente. Gosta de John Galliano, Dolce e Gabana e Gucci. Também é fã de sapatos Prada e das etiquetas brasileiras Forum e Les Filós, para roupas básicas. Adriane Galisteu jamais se amola por complicações desnecessárias. Talvez para não se chatear, fala pouco sobre a hostilidade de que foi alvo depois da morte de Ayrton Senna, em 1994. Ser convidada a desembarcar do carro da família, após o funeral, ser mantida a distância, no sepultamento, enquanto Xuxa, ex-namorada do piloto, recebia honras de viúva, foram apenas o começo. A partir daí ela foi chamada publicamente de viúva alegre, exploradora, garota de programa e até de drogada. "Eu fui julgada e condenada por crimes que desconheço, por pessoas que nunca trocaram uma palavra comigo." Ela atribui parte disso ao "poder do bloco e da Bic" – a prepotência da imprensa. Outra parte à inveja que o sucesso desperta no Brasil. Olha a reação da família Senna no contexto da dor que vivia no momento. "Se eu que era namorada estava sofrendo, imagina eles."

Há muitas teorias sobre a onda de hostilidade que se abateu sobre Adriane. As mais conhecidas são a acusação de que usou o piloto para ficar famosa ou até de que o traía com um antigo namorado e que uma conversa entre eles teria sido gravada. Falou-se também que seu livro, O caminho das borboletas – meus 450 dias com Ayrton Senna (Editora Caras, 170 mil exemplares), seria a exploração da tragédia em benefício de sua conta bancária. "Não explorei ninguém, não inventei nada. Contei uma história que vivi e me pertence", repete hoje. O estilista e apresentador Clodovil que já insinuara no ar que Adriane seria uma fachada para o desinteresse de Senna pelo sexo feminino, disse há semanas, no programa Soft Clodovil, na Bandeirantes, que o casamento com Justus era golpe do baú. Seu patrocínio foi retirado – era da sopa emagrecedora de Adriane Galisteu. E o programa acabou. "Nem conheço essa moça", diz Clodovil agora. Há explicações mais consistentes para esclarecer o fenômeno da rejeição. O psicólogo Jacob Pinheiro Goldberg, que fez um trabalho de psicologia da imagem com Ayrton Senna tirou algumas conclusões sobre o comportamento do público. "Voltou-se contra ela uma crueldade social muito nossa. Senna era um mecanismo de compensação para o nosso complexo de inferioridade", afirma Goldberg, professor convidado da Faculdade de Medicina da Universidade de Londres. "Houve um acerto de contas do País com a sua frustração, disfarçado em sentimentos éticos." O jornalista Nirlando Beirão, que escreveu o livro da modelo, acredita que seu pecado foi tratar um ídolo como gente de carne e osso. "Lançaram uns 12 livros sobre Ayrton Senna, desde que ele morreu. Nenhum no Brasil, porque aqui ele é intocável", teoriza.

 

Fotos: JUCA RODRIGUES e ARQUIVO PESSOAL

 

 

LEMBRANÇAS
Em 1993 em Sidney, e no funeral, um ano depois: honras para Xuxa

Amigos generosos a ajudaram. Um deles foi o empresário Antonio Carlos Braga, o Braguinha, sócio do grupo Icatu, que tinha veneração por Ayrton Senna e se encarregou dos primeiros socorros afetivos e financeiros a Adriane. "Não fiz mais do que a minha obrigação, já que Adriane estava muito desamparada e fez muito bem ao Ayrton", ele disse por telefone, na semana passada, das Bahamas. "Ele era um sujeito formidável, mas triste. E depois que conheceu Adriane ficou muito mais alegre", recorda. Outro porto seguro foi a mãe, dona Ema. Ela viu pela televisão Adriane desembarcar com os Braga para o funeral. Não podia deixar o filho para ir ao seu encontro, mas fez chegar às mãos de Adriane um bilhete que ela ainda guarda: "Filha querida, eu daria um pedaço de mim para não vê-la nesse estado (...) Lembre que você foi muito feliz ao lado dele. Agora está doendo muito, mas a lembrança do amor vai ficar."

 

Fotos: CAROL QUINTANILHA

 

 

"Voltou-se contra ela uma crueldade muito nossa, um ajuste de contas do País com a frustração"
Jacob Pinheiro Goldberg, psicólogo

Namorar um ídolo deu visibilidade a Adriane, mas ela se encarregou do resto. Como diz o jornalista e empresário Luciano Huck, seu parceiro em Torpedo jovem: "Adriane absorve informação com grande rapidez. Hoje ela é uma mulher que sabe se comportar tão bem num estádio de futebol quanto num jantar com um chefe de estado." O piloto Emerson Fittipaldi, seu amigo, comenta: "Ela conseguiu conviver com toda aquela pressão por ser namorada do Ayrton e amadureceu muito." Dono da Seven Day Diet, ele brinca: "Adriane tem uma ótima visão de marketing, só que está fazendo a dieta errada." Ela fez por si muito mais do que afinar a silhueta. (leia quadro). Há cinco anos, Jacqueline Kennedy não era um nome de localização imediata em seu repertório e quando Risoleta Neves a procurou para desmentir uma grosseria (segundo uma nota de jornal, dona Risoleta a teria chamado de falsa viúva), sua agente à época perguntou a um amigo quem era "essa tal de dona Rigoleta". Os implicantes podem notar, hoje, que ela diz close, em vez de closet. Mas até os mais distraídos percebem, atrás dos olhos azuis e do sorriso desarmante, uma mulher firme. Daquelas que podem entrar sozinhas no próprio casamento.

Colaboraram: Celina Côrtes (RJ) e Rita Moraes (SP)

 

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Jacob Pinheiro Goldberg: lições do caso Suzane.
HÉLIO DANIEL CORDEIRO 

 

     A partir do caso do assassinato dos próprios pais em São Paulo, sob a orientação da estudante de Direito, Suzane Louise von Richthofen, MEDICINA E SAÚDE entrevistou o psicólogo Jacob Pinheiro Goldberg (autor, entre outros, do livro Psicologia da Agressividade), em seu consultório em Higienópolis, São Paulo, para traçar uma análise da juventude atual e o conflito de gerações.

  É possível alguém matar por amor?
     Não existe o assassinato por amor. Conforme defini no meu livro Monólogo a Dois, a mais profunda noção de amor que existe foi estabelecida pelo filósofo Martin Buber. Para Buber a relação de amor não pede e nem solicita nada da outra pessoa. Você parte de um conceito altruísta, o oposto do egoísmo. O altruísta quer o bem da pessoa amada e não transforma o outro em objeto. No momento em que você usa a outra pessoa, isso vira uma relação de posse, de uso e de gozo.

     O que faz uma filha como a Suzane von Richthofen (mas poderia ser outra, como aliás tem ocorrido), desejar e matar os próprios pais, que, até onde pudemos ver, a amavam?
     Hoje fica claro nos estudos psicológicos o que é denominado de “conflito geracional”. Cada geração tem condutas e valores diferentes da geração dos pais. Tanto é que se fala na psicologia da “morte simbólica dos pais”. Em determinado instante da adolescência o filho (ou a filha) mata a entidade paterna ou materna simbolicamente e transfere a relação que tinha com os pais para um grande amigo ou amiga.
     Esta transformação é muito positiva, porque o adolescente precisa contestar para ele estabelecer o seu espaço. Agora esta contestação não deve ser feita com agressividade e muito menos com perversidade.

 

 

Suzane Louise von Richthofen

     Como os pais podem conciliar o desejo entre dar a liberdade que o filho precisa para se desenvolver enquanto pessoa e evitar más companhias e o contato com drogas e a criminalidade?
     Toda a liberdade tem uma dose de aventura. Não existe a liberdade sem a ultrapassagem de certas regras. O grande trabalho dos pais quanto aos filhos é proteger e zelar, mas principalmente educá-los, preparando-os para a arte da conquista da vida em sociedade. Viver em sociedade é aprender a interagir com os perigos hoje muito freqüentes ligados à violência em geral e à deterioração da civilização.


     A sociedade moderna está cada dia mais complexa. Como o senhor vê a juventude atual?
     Infelizmente a juventude atual está de baixo de um efeito que a gente pode chamar de “elemento deboche”. A música popular faz apelo à violência, à estupidez, à falta de cultura, ao racismo e à selvageria.
     Um dos ídolos da música pop é o Kurt Cobain, que acabou se suicidando sob o uso de drogas. A juventude hoje substitui os grandes valores espirituais e culturais por valores de sucesso a qualquer preço e de consumismo. Isso em todos os campos. O que importa é o ser e o acontecer, principalmente em função dos outros, da opinião pública e do olhar alheio.


     Os anos 60 marcaram época com ícones culturais como os Beatles, Marcuse, Sartre, Cohn-Bedit... A juventude de então era revoltada em torno de causas políticas e ideológicas que tentavam mudar o mundo para melhor. Qual a diferença daquela geração para a juventude de nossos dias?
     A grande diferença entre a juventude dos anos 60 e a juventude de hoje é a perda dos sonhos. Uma frase terrível usada nos últimos anos é “o que importa é ser objetivo.” Na realidade, o que importa é ser subjetivo. O que importa não é o concreto, mas o abstrato, aquilo que nós fazemos com as nossas esperanças, com a nossa fé, intenções e convicções. O ato e o fato são muito menos importantes de que o desejo e o sonho.


     Qual o papel da mídia na formação da cabeça das novas gerações, no que tange à violência?
     A mídia, principalmente a televisão e a Internet se transformaram em um repositório de péssimas informações daquilo que existe de mais insensível nas condições humanas, da pedofilia à apologia do homicídio, com requinte de mau gosto. Existe uma relação entre estética e ética que tem de prevalecer. Infelizmente nós vivemos em um mundo onde a desconsideração pelo outro indivíduo não tem mais qualquer limite de natureza ética ou estética.

- Hélio Daniel Cordeiro é editor da revista MEDICINA E SAÚDE.

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Entrevista

 

Como Nossos Pais

 

 

O que faz um casamento feliz e duradouro hoje em dia? Estamos livres de antigos padrões?
O psicanalista — e feminista — Jacob Pinheiro Goldberg dá seu barulhento parecer

por Ariane Abdallah retratos Gabriela Bernd

 

 

Você já experimentou se ajoelhar, antes de dormir, e fazer uma oração para a Deusa que está no céu? Para nós, reles mortais criadas majoritariamente sob ideologia cristã, soa estranho usar a terminação feminina para evocar o Onipresente. Mas o consagrado psicanalista dr. Jacob Pinheiro Goldberg acha natural que Adão tenha sido gerado no útero de Eva, e não Eva da costela dele, como reza a Bíblia. Em 1998, o psicólogo causou polêmica na conferência “Eva Será Deus” apresentada em Londres para intelectuais e cientistas de diversas nacionalidades. Jacob é firme ao dizer que os casamentos atuais ainda seguem modelos machistas e discute o uso da palavra traição. Defende que a revolução feminista, que ainda não aconteceu, é a única maneira de mudar essa realidade.

Tpm. O que leva as mulheres a se casarem hoje?


Dr. Jacob. A idéia de um companheiro ou pai ainda é, e provavelmente sempre será, a prioridade. O segundo fator é o conceito romântico de amor. Outra constante é a tentativa de fuga da promiscuidade, do risco de vários parceiros. E, infelizmente, a mulher ainda tem jornada dupla de trabalho. Então, se ela encontra um parceiro capaz de dividir as responsabilidades, tem a vida facilitada. Mesmo a mulher autônoma ainda é submetida a uma pressão machista, violenta e cruel da sociedade. A mulher solitária é vista com desdém, com rejeição e suspeita. Por muitas vezes, ela procura o reconhecimento da sociedade através do casamento, que funciona como uma apólice de seguro. Me arrisco a dizer, num cálculo arbitrário, que entre 70% e 80% das mulheres se casam por uma dessas razões. Ou ainda por aflição ou desespero.

Um homem de 50 anos, solteiro, é visto como bom partido... Não como bom, mas ótimo partido. Em geral, está numa situação econômica melhor, tem experiência. E se o homem for feio pode ter charme. A mulher feia sofre preconceitos da manipulação masculina. Esse discurso e essa mentira de que houve transformações radicais nas relações são estatisticamente desprezíveis. A intelectualidade brasileira tem uma atitude hipócrita, a mulher fica vaidosa: “Hoje eu estou mais liberada”. Entra na jogada masculina e é explorada. Para casar, o homem é mais difícil, cobra o preço da submissão, inclusive nos pequenos grupos chamados da elite sociocultural.

Como essa submissão se manifesta? Eu vejo isso dentro da minha casa. Tenho um filho do primeiro casamento que tem 40 anos. E um de 17, um de 16 e uma de 12. Eles circulam nos meios considerados socialmente privilegiados, mas eu percebo que meus filhos vão com mais trânsito para as baladas do que ela e as amigas. O discurso aparente delas é de liberdade. Mas não é verdade, elas se sentem mais à vontade quando acompanhadas pelos meninos. A própria paquera delas vem com uma carga de aflição. É como se precisasse exibir o troféu do amor conquistado, enquanto os meninos têm uma atitude quase de superioridade. Em vez de a mulher criar um modelo próprio, revolucionário, algumas acabam acompanhando esses modelos masculinos, superados, grosseiros.

Tenho a impressão de que se criaram modelos diferentes de casamentos, mesmo com pequena parte da sociedade. É só uma impressão? É só uma impressão. Há poucos anos recebi um holandês que disse estar aborrecido porque a mulher estava tendo um caso com um terceiro. Eu, brasileiramente, o interrompi: “Então ela está cometendo adultério?”. Ele olhou para mim, perplexo: “Como assim? Ela tem todo o direito de amar um outro homem. Estou é triste porque gostaria de ajudá-la”. Ouvindo aquilo tive a consciência de quanto isso é estranho para nós. Como vamos falar em casamento aberto no Brasil? Só como piada. Só para o homem. Ai da coitada da mulher que tiver coragem de revelar para o marido que está apaixonada, tendo um caso. Agora, se for o contrário, o sujeito ainda é capaz de exigir compreensão, “dá um tempo, é uma fase que eu estou passando”.

É possível amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo? Absolutamente possível.

O ser humano é poligâmico essencialmente? Acho que não existe uma resposta genética, e sim cultural: nós somos contraditórios. As pessoas exigem uma inteireza idealizada. Isso causa dor por causa da culpa. O conceito de lealdade, de traição, é um conflito que pelo menos para a alma latina não está resolvido. Todo mundo que conheço, todos os meus pacientes, principalmente os homens, quer lealdade de seu parceiro. Mas se reserva o direito de pular a cerca.

Há neles uma consciência de que o outro pode estar fazendo o mesmo? Na ordem dos fatores é assim: “Eu preferiria que fosse leal, mas se tiver que ser corno, pelo amor de Deus, que eu não saiba. Se, na pior das desgraças, eu ficar sabendo, que pelo menos a minha mamãe não fique”.

 

 

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Texto do Projeto de Resolução

 

 

PROJETO DE RESOLUÇÃO Nº 559/2000

 

EMENTA:

CONCEDE O TÍTULO DE CIDADÃO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO, PROFESSOR DOUTOR JACOB PINHEIRO GOLDBERG.

 

 

Autor(es): Deputado MARCO FIGUEIREDO

A ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO

 

 

RESOLVE:

Art. 1º - Fica concedido o título de CIDADÃO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO ao Professor Doutor Jacob Pinheiro Goldberg.

Art. 2º - Esta resolução entrará em vigor na data de sua publicação, revogadas as disposições do contrário.

Sala das Sessões, 05 de setembro de 2000.
DEPUTADO MARCO FIGUEIREDO

 

JUSTIFICATIVA


O presente Título de Cidadão do Estado do Rio de Janeiro ao Professor Doutor Jacob Pinheiro Goldberg – Ph.d. em psicologia, psicoterapeuta, advogado, assistente-social, se justifica pela trajetória acadêmica e destaque internacional recebido pelos projetos (textos e pesquisas) desenvolvidos nos últimos anos que servem e servirão de parâmetro para aprimoramento nas áreas de ciências e humanas para o país, também pela participação e colaboração frente ao Centro de Estudos da Universidade de Middlesex em Londres, reforçando assim o destaque dos acadêmicos e cientistas brasileiros, na arena internacional.

 

 

 

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Presidente da Federação Israelita impede, judeu de entrar em congresso judaico

 

Presidente da Federação Israelita impede, com o uso de seguranças, judeu de entrar em congresso judaico

Presidente da Federação Israelita impede, com o uso de seguranças, judeu de entrar em congresso judaico


Senhores Congressistas:




No dia de ontem, como puderam testemunhar alguns integrantes da Confederação Israelita Brasileira (Confib), solicitei, como membro da comunidade judaica e como repórter e redator brasileiro, o conhecimento da programação do Congresso Judaico Latino-Americano (desculpem-me se o nome não for exatamente este, mas pude vê-lo apenas numa placa meio escondida no mezanino, depois do Hall do Hotel Crowne Plaza).
Estava conversando tranqüilamente com um dos diretores da Confib e depois com um senhor que se apresentou como jornalista e amigo dos diretores dessa entidade, quando se dirigiram para mim, com um semblante carregado, os senhores Boris e Nathan Berger, o último, presidente da Federação Israelita Paulista.
Cumprimentei-os e fui agredido, primeiramente pelo senhor Boris, a quem havia polidamente me apresentado:

- “Nós te conhecemos e conhecemos o teu livro. Você não é bem-vindo aqui”.
Depois da agressão, procurei, na medida do possível, manter a calma e disse apenas:
- “Sei que o livro apresenta as minhas discordâncias com os crimes cometidos por esse e outros governos israelenses e, portanto, não vim pedir de vocês, que os apóiam, que me dêem boas vindas, peço apenas, como jornalista e como judeu, a programação e a possibilidade de assistir os debates do congresso”.
- “O senhor não vai entrar. Só entram os credenciados”.
- “Então, já que sou uma pessoa conhecida e que expressa publicamente suas opiniões, e faço parte da imprensa, quero me credenciar imediatamente”.
- “Agora é tarde, não há mais credenciamento”.
- “Sei que o motivo, Boris e Nathan, não é este e sim o fato dos senhores quererem impor a toda a comunidade judaica, de forma autoritária, uma opinião única, que é a dos senhores”.
Neste momento foi a vez de Nathan Berger me agredir, de forma mais violenta:
- “Não diga que o senhor é judeu porque assim nos ofende”.
- “O que ofende os judeus são os crimes de guerra de Sharon e o fato de você os apoiar”.
- “É muita cara de pau sua vir até aqui”.
- “Cara de pau é a sua de achar que no Brasil, um país onde lutamos muito e muitos deram o seu sangue para atingirmos a democracia, se pode impedir a entrada das pessoas desta forma acintosa e autoritária”, fui obrigado a responder e neste momento Boris tomou a iniciativa de afastá-lo ao fundo do hall do Hotel, enquanto o número de seguranças à minha volta crescia.

Sinceramente, não sei se os senhores Boris e Nathan leram atentamente o meu livro, “O apartheid de Israel”, onde afirmo que está próximo o momento da virada que virá após “uma luta interna árdua e profunda em Israel e nas comunidades judaicas do mundo inteiro e no interior das consciências dos judeus. Está próximo o momento em que as verdades venham, finalmente à luz, e se inicie o processo de ruptura definitiva da comunidade judaica em Israel e no mundo inteiro com os resquícios purulentos do velho gueto, a caminho de uma nova era de florescimento da paz e do avanço, com o qual contribuirá (a comunidade judaica), a partir desta ruptura e da sua verdadeira integração no mundo”.
Portanto, digo, a Boris e a outros tantos que torcem o nariz diante dos questionamentos que levantei em “O apartheid de Israel”, que são questionamentos duros, questionamentos que incomodam porque vão de encontro a preconceitos arraigados, mas, indubitavelmente, feitos a partir e para a elevação e aprofundamento da consciência judaica naquilo que ela tem de mais digno e forte em valores ancestrais éticos.
Felizmente, esta consciência judaica mais profunda, que tem sua raiz histórica na disposição dos profetas para o questionamento dos monarcas hebreus, quando estes se afastavam do povo ou agrediam os vizinhos, está se espraiando. Fruto do labor de verdadeiros heróis judeus que têm tido a coragem de correr todos os riscos e ouvir todo tipo de injuria e de suportar agressões para afirmar a condição humana - e portanto contra a discriminação racial – dos judeus.
Cento e cinqüenta mil judeus israelenses marcharam, há poucos dias, no Kikar HaMelachim, no centro de Tel Aviv, contra os crimes de guerra cometidos pelo governo de Israel durante a ocupação, trilhando os caminhos da consciência abertos por Martin Buber, Magnes, Israel Shahaq e, mais recentemente, Ilan Halevi, Haim Hanegbi, Norman Finkelstein, Noam Chomski, Jeff Halper, Gila Svirski, Neta Golan, o rabino Areih Freedman, enfim, uma lista interminável de valorosos combatentes e intelectuais judeus.
Lembro a Nathan Berger que, num debate recente na sede paulista do PT, afirmou: “sou favorável à criação de um Estado Palestino, lado a lado com o de Israel”. E que no mesmo debate negou um pedido meu para o diálogo e para que eu pudesse colocar a sua disposição a minha relação com as lideranças árabes de São Paulo, que querem dialogar sincera e profundamente no sentido do estabelecimento de uma ação conjunta em apoio ao surgimento do Estado Palestino, melhor saída para a paz, o progresso e a elevação da moral, da segurança e do prestígio internacional de Israel.
Ora, Berger, onde está a tua sinceridade se você não consegue dialogar nem mesmo com um judeu, que defende com convicção o surgimento do Estado independente Palestino? Como vai dizer que quer dialogar com os representantes dos agredidos pelo Estado de Israel? Cena para a platéia é fácil fazer. Eu mesmo te aplaudi, naquele dia, esperançoso com suas palavras. Ocorre que é preciso mais do que palavras, é preciso muita sinceridade nas atitudes, decisão e ruptura com estigmatizações para construirmos a difícil mas inevitável e inexorável ponte para a paz.
Recentemente, um artigo de Jacob Pinheiro Goldberg, num jornal paulista, pôde expressar as banalidades que envolvem a tentativa daqueles judeus que defendem a agressão ao povo palestino e a manutenção do governo que conduz esta agressão, quando tentam imputar aos seus críticos dentro da própria comunidade a sua própria “judeofobia”.
Jacob Pinheiro Goldberg, que aliás mostra seu despreparo ao citar a frase famosa de Auguste Bebel, “o anti-semitismo é o socialismo dos tolos”, (que surge em seu texto, “Rede über Antisemitismus auf dem sozdem Parteitag”), atribuindo-a erradamente a Engels, diz, numa forma embolada, que prossegue pelo seu artigo afora, que “o anti-sionismo é a formula semântica moderna do anti-semitismo” e, mais, que “a solidariedade oportunista com os palestinos no conflito do Oriente Médio mascara sua paranóia”.
No meio de uma colagem mal-ajambrada de pensamentos desconexos, Goldberg tem o único mérito de inconscientemente expor a indigência moral dos que entre os judeus optaram pela adesão ao racismo anti-árabe e, portanto, também anti-semita.
Depois de relatar o histórico de uma paciente judia que, segundo ele, tremia de medo sempre que se falava das atrocidades cometidas pelos nazistas, ele afirma: “os indivíduos que sofrem esse tipo de medo são personalistas e desumanos. Não têm compaixão pelo sofrimento humano alheio, só o medo de que o mesmo lhes possa acontecer”, dizendo que isto ocorre com os judeus que são solidários aos palestinos.
Claro que, para confundir o leitor, Goldberg não diz assim de forma direta, mas entremeado de uma rebuscada de idéias, numa fraseologia psicologista sem nenhuma fundamentação científica, mas apenas para instilar veneno.
É evidente que não são os judeus solidários para com o sofrido povo palestino – ou mesmo os judeus que se bateram heroicamente nos EUA contra o racismo dirigido contra os negros ou na África do Sul contra o apartheid – os desprovidos de compaixão, os desumanos.
É evidente que desprovidos de compaixão e desumanos são os que – ao transformar o medo e o ódio contra si e os demais judeus pelos criminosos nazistas - depois de introjetada a ideologia do agressor, em pulsão sádico-paranóica – passam a agredir os palestinos sem “compaixão pelo sofrimento alheio” e, ainda, com “medo de que o mesmo lhes possa acontecer”, pois têm consciência, ainda que deturpada por sua paranóia, da pusilanimidade de seus crimes, só conseguem elevar o nível da agressão numa escalada destrutiva e autodestrutiva cada vez mais insana e perigosa.
Como bem afirmou Zenon Lotufo Júnior, em carta publicada dois dias depois no mesmo jornal: “Contrariamente ao que tenta fazer crer o sr. Jacob Goldberg, ser judeu e simpatizante da causa palestina está longe de configurar patologia e, muito menos, anti-semitismo. Quem acompanha os pronunciamentos e atitudes de judeus contrários aos crimes de Sharon e cia. Pode ver que se trata de pessoas das mais lúcidas, éticas e dignas de todo o respeito. O uso deturpado da psicologia, colocada a serviço de manobras retóricas e visando desqualificar oponentes, é um desserviço que se faz a essa ciência”.

Caros congressistas judeus, chegou o momento de - diante das agressões ao povo palestino, cometidas pelo terrorismo israelense, e de suas danosas e trágicas conseqüências em termos de perdas de entes queridos e amigos civis em Israel - abrirmos mão de preconceitos que, infelizmente, muitos entre nós absorveram do passado de perseguições nazistas e racistas – muitas das quais cometidas pela elite norte-americana, que os dirigentes de Israel cultuam hoje como grandes amigos dos judeus; a mesma elite que impedia os judeus e os negros norte-americanos de freqüentar determinados clubes e ambientes, assim como fizeram Boris e Nathan Berger comigo no dia de ontem.
Chegou o momento de permitirmos e abrirmos um vasto espaço para um debate, por difícil que seja, por sua carga emotiva proveniente de décadas de sofrimento, às vezes imposto sobre nós, às vezes impostos por integrantes de nossas comunidades aos seus vizinhos, o único caminho de resgate da verdadeira origem e ética judaicas: a origem semítica de imbricamento profundo e milenar, desde o início da civilização humana, com os povos que originaram a nação árabe.

O caminho do resgate que trará, para nós e para nossos irmãos árabes, a disposição de luta conjunta contra o anti-semitismo, que hoje se manifesta, particularmente na Europa e nos EUA, indistintamente, contra árabes e judeus. Um resgate que após o necessário aprofundamento de uma nova consciência trará de volta os inesquecíveis e produtivos anos da Idade de Ouro, que frutificou – com Ben Maimon, Ibn Gvirol, Ibn Ezra e Ibn Pakuda, entre outros, à testa - na Península Ibérica do período pré-inquisicional.

Um resgate, para a honra, orgulho e esperança dos que o defendem, já preconizado e posto em prática sincera e honesta por dois primeiros-ministros israelenses: Moshe Sharet, que ao começar os contatos com Gamal Abdel Nasser foi abruptamente deposto, e o heróico Itzhaq Rabin, que após assinar os acordos de Oslo com seu parceiro, Yasser Arafat, foi covardemente assassinado por um fanático judeu, logo após entoar, junto com uma multidão no centro de Tel Aviv, “Shir Lashalom” (Poema à Paz).



São Paulo, 10 de junho de 2002.



Nathaniel Braia

  

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Jacob Pinheiro Goldberg / Psicologia em curta-metragem:

Reflexões sobre o cinema no divã

 

Jorge Sanglard

Jornalista e pesquisador brasileiro

 

   O olhar múltiplo faz Jacob Pinheiro Goldberg transitar pela psicologia, literatura, cinema e direito, sempre na perspectiva de compreensão dos conflitos que marcaram o Século XX e os que marcam os primeiros anos do Século XXI. A fronteira é a pátria de Jacob Pinheiro Goldberg, a esquina, sua peregrinação. Não é à toa que lança mão de Walter Benjamin numa epígrafe do livro: “Como existem muitos caminhos, estamos sempre na encruzilhada”. Na concepção do escritor e especialista em psicologia da imagem, todo mundo constrói seu filme e ninguém consegue escapar do script. Mesmo as pessoas sem nenhum tipo de contato com o cinema acabam criando e incorporando um personagem em seu dia-a-dia e produzem um roteiro, até sem querer. O novo livro de Goldberg, “Psicologia em Curta-metragem” (Editora Novo Conceito) é mais um passo na trajetória de um autor que não teme o desafio de revirar o passado para discutir o presente.

   Numa conjuntura globalizada e onde tudo e todos estão plugados ou antenados, seja pela internet, seja pelo celular, ou pelo cinema, ou ainda pela TV, Goldberg argumenta que o script de cada um está no ar e não tem escapatória. Desta forma, o “psicólogo da poética” mergulha no universo da sétima arte com uma perspectiva “arteira”, ou matreira, de quem vislumbra, a partir de rolos e rolos de filmes, uma nova utopia. Afinal, ao longo de sua trajetória de vida já viu desmoronar muros e sonhos, virtudes e verdades, esperanças e desejos. Mas nunca perdeu a fé.

   Segundo Goldberg, todo estudo de comportamento se ampara em algumas ondas históricas. Contraditória, paradoxal e perigosamente, em um processo de instantaneidade, convive-se com o sincretismo, que é a possibilidade de compreensão aberta, e com o totalitarismo, que é o fruto do medo. Atento ao que passa ao redor, o autor destaca que as tribos urbanas, incluídas ou exclusas na massa, definem tendências e emprestam caráter à modelagem do processo social. Enfático, afirma que as fontes da imaginação e da aventura são, cada vez mais, essenciais para a uma nova educação do homem e da mulher.

   Nascido em Juiz de Fora, Minas Gerais, e radicado em São Paulo, há mais de cinco décadas, Jacob Pinheiro Goldberg é um outsider e tem instigado o debate de idéias, a reflexão e, com isso, provocado muita polêmica. No livro “Psicologia em Curta-metragem” o autor promove uma investida densa no universo do cinema, ora como espectador, ora como um atento observador do contexto social. Segundo Sandra Magalhães, no prefácio da publicação, Goldberg, que é um cinéfilo por circunstâncias existenciais, exige do leitor que reescreva, na conformidade de seu tamanho, uma concepção de ser a partir do personagem.

   A macro e a micro violência no Brasil também permeiam o livro, onde propostas polêmicas, como a redução da idade penal e o endurecimento das penas no país são avaliadas e questionadas, tendo a violência abordada no cinema como referência. Hoje, declara o psicanalista, somos todos reféns da bandidagem. Mas mudar o jogo exige mudar as regras. Goldberg defende que o importante é o desenvolvimento de uma visão crítica diante de uma realidade complexa e argumenta que é fundamental rechaçar soluções simplistas como o aumento do rigor das punições, a redução da maioridade penal e a criminalização de novas condutas. E Goldberg, lançando mão de um conceito da procuradora do estado de São Paulo Ana Sofia Schmidt de Oliveira, adverte que o essencial é colocar-se, especialmente aquele que se ocupa do sistema como policial, advogado, juiz ou promotor, numa posição de maior humildade, incorporando a crença de que, se o sistema deixar de causar um mal maior do que aquele que pretende combater, já terá feito grande coisa.

   O ser humano ainda não encontrou uma fórmula para driblar sua tendência à perversidade, enfatiza Goldberg. “É aquela espécie que tortura, mutila e mata, por prazer. O exercício diabólico do sado-masoquismo. A resposta está na alteridade, sublimação da finitude, única saída para o desespero do acaso, raiz da violência”. E esse dialógico se trava e destrava na palavra que raspa os idiomas, garante o psicanalista.

   Na opinião de Sandra Magalhães, “em sua amplitude, Jacob Pinheiro Goldberg vem construindo uma teoria brasileira da psicologia, na melhor tradição da originalidade que captura no humano, a liberdade”. E complementa: “Aproprio-me das palavras de Gilberto Felisberto Vasconcellos que, em crítica publicada na Folha de S. Paulo, sobre o livro “Cultura da Agressividade”, a edição da tese de doutoramento em psicologia de Jacob Pinheiro Goldberg, o enquadra ‘à maneira dos novos filósofos franceses, que são os representantes do pós-modernismo’”.

   “Psicologia em Curta-metragem” é apontado por Sandra Magalhães como um outro turn over na difícil e impressionante obra de Goldberg. Difícil enquanto escrita e falada, dispersa e exilada, em conferências, artigos, no Brasil e no exterior, em um processo de turbilhão de um peregrino que, em torno de si mesmo, visita o outro e o mundo com profunda militância social que já se incorporou à própria história de nossa cultura. Impressionante, porque levanta polêmica, contesta, raciocina e faz a apologia da desrazão, provocando a ira dos covardes de espírito, suscitando emoção no humano.

   O livro traz uma análise comportamental de diversos filmes, diretores e atores de cinema, onde Goldberg analisa “Matrix”, “Os Pássaros”, “Disque M para Matar”, “Dois Filhos de Francisco”, “O Segredo de Brokeback Mountain”, “Meu Nome Não é Johnny”, “Cidade de Deus”, e “Tropa de Elite”. Sobre este último, o psicólogo afirma que o diretor José Padilha fez no cinema o que Nelson Rodrigues fez na literatura: “Ele mostrou um olhar ‘brasileiro’ sobre o Brasil, que ninguém escreve, ninguém filma, porque somos filhos de uma cultura que escamoteia para evadir-se. Uma sociedade que não se enxerga com medo da visão horrorosa que a ameaça. Brutalidade, violência, hipocrisia, tudo é tratado pelo viés do tabu, da falsa cordialidade. O indivíduo diz não com um sorriso de sim”.

   Somos todos e cada um, à sua maneira, prisioneiros do passado, assegura Goldberg: “No exercício diário da psicanálise, constato o atemporal e o inespacial do inconsciente. O que me aconteceu na infância está mais presente, nostálgico, dilacerante, do que o café da manhã”. E a escrita é o exercício balanceado entre a onipotência do criador e a impotência da fragilidade do ser, proporcionando a simbiose entre o irreal e o acontecido.

 

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MOTOBOY - VIDA LOKA

 

 

Dois motoboys morrem a cada dia em São Paulo. Acidentes envolvendo exclusivamente motoboys paulistanos custam ao Estado mais de R$ 200 milhões por ano. Os números não são oficiais, mas fazem parte das estatísticas levantadas pelo filme. Já as estimativas oficiais indicam 220 mil motoboys em circulação diariamente pela cidade. Na prática, ninguém sabe ao certo qual é o número correto, pois até hoje os órgãos públicos da terceira maior metrópole do mundo não desenvolveram estudos sobre essa categoria profissional. Registro in loco a vida de 5 motoboys, entre eles uma motogirl, revelando sua intimidade e comportamento, seus medos e sonhos. Conta ainda com uma extensa gama de entrevistas, de autoridades a paulistanos.

Ficha Técnica

Título Original: Motoboys - Vida Loca
Gênero: Documentário
Duração: 52 min.
Lançamento (Brasil): 2003
Distribuição: 
Direção: Caíto Ortiz
Roteiro: Giuliano Cedroni
Produção: Prodigo Films
Co-produtora: Estúdios Mega
Produção executiva: Adriano Civita e Francesco Civita
Música: Instituto

 

Elenco

 

Paulo Mendes da Rocha
Marta Suplicy
Washington Olivetto
Gilberto Dimenstein
Serginho Groisman
Carlos Zaratini
Roberto Scaringela
J.R.Duran
Rafic Farah
Jacob Pinheiro Goldberg
Xis

 

  

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KADISH POR BRUNO SCHULZ

 

 

 

 

NICHT ALAIN

                                                              (Jacob Pinheiro Goldberg)

 

 

Em Drohobych

você não morreu.

Sabia, Zofia Nalkowska,

Informou-me.

.

Seu fuzilamento, o

trágico engano dos

que se imaginam os

Senhores da Morte.

 

As lojas de canela,

quantas vezes as

visitei nos sonhos e

pesadelos.

 

Certa noite, Bruno,

li o manuscrito oculto,

e “o Messias” acordou-me.

 

Você está mais vivo

e nenhum gueto te prende,

nem a solidão, nem a finitude.

 

(Nicht Alain – em Ydish – “não sozinho” ou “acompanhado”.)

 

 

 

Lido no Festival Bruno Schulz por seu tradutor brasileiro professor doutor Henryk Siwiersk /Universidade de Brasília e Cracovia), em 2008, em Drohobych, Ucrania.

 

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O JIDAIGEKI NO DIVÃ.

 

 

Cabe ao leitor acreditar ou não. De preferência, ceticismo. Sincronicidade, serendipty, acaso, destino. Ou mera artimanha para impressionar.

Tudo num mesmo dia. Miguel de Almeida informa que a edição da revista cuidará do cinema japonês. Ao telefone comenta o papel do Encontro na arte, que expões no lançamento de “Psicologia em Curta Metragem.”

Vou almoçar com o professor Henryk Siwierski, da Universidade de Brasília, que me presenteia com um exemplar do ultimo livro que produziu enquanto dirigia a Editora da UnB , “História do cinema japonês”, da italiana Maria Roberta Novielli.

Siwierski se despede de mim e de João Suplicy pois viaja, em seguida, para a Ucrânia, aonde vai, como tradutor do romancista judeu polonês, Bruno Schultz para o português, participar com outros 13 tradutores do todo o mundo (cada um, do respectivo idioma), de um festival das 14 estações representativas dos cenários dos contos de Schultz, quando se lêem trechos de sua obra. H.S. que é doutor em literatura comparada pela Universidade de Cracovia fez a versão para o polonês (Magia Wygnania) do livro de poesia de minha autoria; “ Mágica do Exílio”.

Passo o resto da tarde discutindo com João, pessoa e personagem.

O prefácio do livro de Maria Roberta, escrito por Nagisa Oshima (Senjo no meri kurisumasu-Furyo), caminha pelos desvios das impossibilidades-“... Se Giuliana Stramigioli, uma italiana que morava no Japão não existisse não sei qual o destino que o cinema japonês teria tido no exterior”.

Ao chegar em casa um “e-mail” –

Caro amigo Jacob, ontem assisti pela internet sua entrevista na TV Aparecida e gostei muito, saiba que muito dos meus amigos aqui no Japao e no Brasil viram em tempo real através de um programa de computador chamado de (streaming de video), usado pelos brasileiros para acessar canais do Brasil e de todo o mundo..., sua entrevista sobre <COMPULSAO ALIMENTAR> foi maravilhosa como tema de vários assuntos que vc destacou como sendo o alimento em si, temos a obrigacao de saber que nao somente o alimento digestivo nos faz viver com saúde, mas, também o alimento espiritual, aquele que é mais dificil de nós seres humanos nos alimentarmos dele, de amor, carinho e protecao daqueles que amamos...parabens mais uma vez, explicou com tamanha exatidao de um cidadao de Juiz de Fora que com suas palavras é capaz de modificar o mundo...Arigato...Sayonara....seu amigo do Japao.... 

E, por tudo isto, a concepção que segue –

Os trovadores baianos, os seanchais irlandeses, vão os homens, e as mulheres.

Contando “causos” para doutrinar, em ritmo de salmódia, em forma de prosa ou verso, riso e tristeza.

E assim vão os homens e as mulheres enganando e se enganando, fugindo e à busca da morte.

Em que se tece a identidade, perdida metamorfose do eu.

Nas terras de frio ou calor, alguém em noite de chuva, mente uma estória que assim, um dia, se verá, verdade.

Esta a saga pobre do homem, à cata dum deus devoluto, procurando um sentido.

 

Psicólogo – Meia noite, se faz tarde para uma sessão e inusual vocês dois (Maria Paula e Shozo) no divã.

Shozo Makino – Pelo contrário, a única hora adequada. Os ponteiros de relógio ocidental não combinam com os horários de meu pai e muito menos de minha mãe que celebrava a cada instante o espetáculo vital.

Para escapar do real, seja lá o que isto for, pois não sei, dirigindo o teatro kabuki Senbonza de Kyoto, fui descobrir Emosuke Yokota e, em três dias, independente de roteiro, filmei os “A batalha do templo Honno, Honnoji kassen.

P. – De propósito, a falta de roteiro, a câmara no ponto central, e assim fez a escola do jidaigeki, a teatralização do mundo, em concessão popular?

S. – Concessão? Mais uma vez você não compreende. È o oposto. A pose estilizada (mie) é que fala, amplia ao reduzir. E outra vez, mais uma vez a aparição de Matunosuke Onoe rompe, viola todos os horizontes. Ele que com os olhos ( Medama no Matchan-o ator nos olhos que rolam) emprestava a ressurreição dos contadores (kodan), epopeia e coloquial.

P. – Fale de você, é o trabalho para a sublimação do mundo que não pode perecer, a infância, o tempo que passa, os costumes que se alteram, se alternam?

S.- Não, nada disso. Aparecer e desaparecer, começar e terminar, nada disso faz qualquer senso. Ninjutsu, o ninja salta da tela para romper a lei da gravidade, as leis, a impressão, a pressão, a descompreensão.

S. – Dispara do divã, levita e retorna.

P. – O que aconteceu?

S.- Oito fotogramas por segundo.

P. – Mágica?

S. – Talvez você entenda a paralógica deste não-dialogo lendo Teinosuke Kinugasa,

 

O estúdio da Nikkatsu em Mukojima estendia-se ao longo do rio Sumida. Tratava-se de uma propriedade muito ampla, de 7500 metros quadrados, na qual havia uma casa antiga e um grande jardim.

Ali tinham construído um Stage de vidro de mil metros quadrados.

Utilizava-se o edifício principal como escritório e laboratório e numa das dependências trabalhavam-se os roteiros[...]. No estúdio de Mukojima produziam-se filmes de temas contemporâneos, enquanto as obras históricas eram deixadas para Daishogun, de Kyoto. Eram chamados “temas contemporâneos”, mas freqüentemente se tratava de versões cinematográficas de melodramas shinpa [...] ou de filmes baseados em eventos atuais como Le dernier jour du port de Nikolaievsk [...]. Seguindo as indicações do diretor do estúdio, um roteirista escrevia em quatro ou cinco dias um roteiro transformando uma peça shinpa de três atos numa vintena de seqüências. Em seguida, o diretor e os cinco ou seis atores de destaque reuniam-se para escutar o roteiro e expressar as próprias opiniões [...]. No dia seguinte, fazia-se uma leitura geral, na qual o diretor explicava os papéis lendo o roteiro. E mais um dia para se ocupar dos trajes e das perucas.

Depois, rodava-se no estúdio em dois dias e as externas em três. E o filme estava pronto. [...] não havia luzes artificiais e se dependia dos raios solares tanto no estúdios quanto fora. Se ficava nublado ou o pôr-do-sol estivesse próximo, suspendiam-se as filmagens. [...] Montava-se um décor como aquele do shinpa e os atores atuavam como se estivessem em cena. [...] Não havia ensaios nem repetições.

Cada um representava como bem lhe parecia. [...] A filmadora era instalada atrás, de onde se podia filmar a cena inteira sem ter de se deslocar.

[...] Quando comecei a trabalhar em Mukojima, usavam-se as velhas máquinas filmadoras da companhia Pathé, com apenas duzentos metros de película, não mais que dois minutos de filme. [...] Visto que a máquina de filmar não se mexia, os atores precisavam voltar-se em sua direção para mostrar suas expressões.

P. – Estranha cena essa sessão. Já se faz tarde. Terminemos, pai. (S. foi considerado o pai do cinema japonês).

S. – Dr. Lembre-se de Zygmunt. O pai não termina, inicia. Ação.

P. – Desembainha a espada, risca o espaço, desaparece.

S. – Erich From.

P. – Suzuki.

The end – “Psicanálise e zen – budismo”. Alusões, ilusões.

 

Jacob Pinheiro Goldberg é doutor em psicologia, psicólogo, advogado e escritor.

 

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Rede Globo – Programa Panorama Entrevista

 

Entrevistadora: Boa noite, o convidado de hoje é doutor em psicologia e psicoterapeuta, advogado, assistente social, e escritor com reconhecimento fora do país, especialista em analisar a imagem de personalidades, como o piloto Airton Senna e o Presidente Lula, nascido em Juiz de Fora, mora em São Paulo há mais de cinqüenta anos. O Panorama Entrevista de hoje conversa com o psicanalista Jacob Pinheiro Goldberg. Boa noite, Jacob..

 

Jacob: Boa noite.

 

Entrevistadora: Também participam do programa o jornalista Jorge Sanglard, a professora do curso de letras da Universidade Federal de Juiz de Fora, Verônica Lucy Coutinho Lage, e o psicanalista José Eduardo Amorim.

 

Entrevistadora: Jacob é um prazer tê-lo aqui conosco, e eu gostaria de saber de você fazer uma viagem um pouco no tempo né, uma coisa muito boa, também de conversa psicanalista e saber se essa sua infância aqui em Juiz de Fora, uma criança, descendente de judeus, que viveu a infância durante a Segunda Guerra Mundial, estudou num colégio protestante, e sofria toda uma influência de um momento no Brasil em que o integralismo tinha força no governo Getúlio Vargas, dizem que os judeus inclusive eram colocados meio contra a parede. Se as imagens da infância são tão poderosas em toda a nossa história como você bem diz, como isso te marcou?

 

Jacob: Bom, isso marcou de forma indelével pra sempre e são marcas muitas delas difíceis, tristes, traumáticas, doloridas, mais você sabe que a criança tem também um mundo surreal, um mundo mágico, um mundo dela. A criança não habita no mundo do adulto. Então pra mim não passava de um, mais um, bandidozinho, daqueles que eu ia ver no cinema, no Cine Glória, no Cine Central, sabe aquele bandido que no fim do filme leva um tiro do mocinho? Eu me identificava era com o mocinho, e isso é extraordinário na criança. Eu vivia no cinema e vivia na rua e vivia no Instituto Granbery. No Granbery eu ouvia histórias a respeito de um personagem que na minha casa era respeitado e reverenciado como judeu, que era Jesus. E no Instituto Granbery era como o filho de D´us. Esta convergência divergência, que meus pais foram muito liberais e tolerantes, mesmo porque eles foram praticamente expulsos da Polônia antes da guerra, eles vieram antes da Segunda Guerra pro Brasil, e para Juiz de Fora. Meu pai era um ser esquisito, estranho, um visionário. Ele nunca acreditou que Juiz de Fora ficasse em Minas Gerais - Brasil. Ele sempre achou que Juiz de Fora era a repetência da cidade natal dele, uma pequena cidade no interior da Polônia chamada Ostroviec. Ele pegou Ostroviec e trouxe pra Juiz de Fora. Ele dizia pra mim:- Eu era criança, né? Meu filho, eu ando pela rua, eu vejo meu pai, minha mãe, meus irmãos, meus amigos.

Ele negou a brutalidade do genocídio. Então eu, muito cedo, aprendi a criar universos mentais, fantasmáticos, eu obtenho facilmente no imaginário e no simbólico. Toda criança faz isso.

 

Entrevistadora: Eu acho interessante quando você fala do seu imaginário e a presença dessa narrativa do cinema como ela também ajudou a compor o teu imaginário, quer dizer, a tua visão de mundo. E isso se reflete até hoje, tantos anos depois, nesse livro que você vem lançar, lançou em Juiz de Fora, vai lançar em São Paulo, psicologia em curta metragem. E aqui você exercita esse seu olhar multicultural, essa formação tão eclética que você teve, de família, de escola, de cidade, e analisa vários clássicos do cinema. Tanto brasileiro quanto do cinema mundial. Um dos filmes que você analisa, “Cidade de Deus”, que é baseado num livro do Paulo Lins e filmado e dirigido pelo Fernando Meirelles, falando da violência, tema também recorrente na sua obra. O que é que você falaria desses personagens como o Dadinho, que é um personagem que, de certa forma, é uma metáfora dessa violência que a gente vê hoje nas favelas do Rio, nos centros mais marginais de todas as periferias urbanas, o que é que isso representa em termos de personagem, de pessoa hoje no nosso universo?

 

Jacob: Há alguns anos atrás, até em sendo advogado, também não é, uma das minhas formações, eu fui convidado pelo então Prefeito de São Paulo, Mário Covas, para trabalhar com as populações carentes, num serviço de psicoterapia de comunidades, sabe? Levar a psicoterapia, e o Mário, chegou pra mim e disse assim:- Mas você vai ter facilidade de compreender, de entender, de se identificar, você sabe, tem muito bandido, drogado, traficante. E eu disse:- Mas, Mário, eu nasci num Outsider, eu nasci e me fiz e me elegi um excluído e um excluso, mas isso não como vitimização, mas com orgulho. Eu, de certa maneira, tenho alguma coisa de um Zé Pequeno, sabe? Mas que Zé Pequeno coisa nenhuma, grande pela formação, na atitude de dignidade humana. Então, quando eu vejo essa violência, eu penso na violência que cada um de nós carrega ou tem o tempo todo, maquiada muitas vezes, na classe A e B, das formas mais sutis, mas, nem por isso, menos agressivas, menos cruéis, menos brutalizantes.

 

Entrevistadora: Quer dizer, a violência, ela perpassa hoje toda a sociedade, parece, quer dizer, quando a gente vê um filme, né, como “Cidade de Deus”, ela parece até localizada e muito característica de uma periferia que teria a marca da violência, agora hoje essa violência se espalha por todas as classes sociais, em todos os ambientes, sejam eles pobres ou ricos, não só pela interferência do trafico de drogas, o crime organizado, mas me parece uma crise de valores, que você sempre aborda também em seu livro, da ética. Como é que você coloca isso hoje de uma maneira mais simples, que crise que nós vivemos?

 

Jacob: Eu acho que, essencialmente, nós vivemos, em minha opinião, uma crise, um choque de civilização, em alemão, é (curt canf), né, guerra cultural. Porque? Nós temos toda a tecnologia possível e imaginável a nossa disposição. Um livro muito interessante, de um americano chamado Robert Jungk, que o título é “O Futuro Já Começou”, e ele conta que ele estava visitando o Vale do Silício, que é um lugar de grande progresso tecnológico, e ele entrou numa fábrica, e o engenheiro disse assim “Pense, pensa qualquer coisa que nós executamos. A dificuldade é pensar.” Eu acho que o convite que existe hoje subjacente na escola, na família, em toda a cultura, é “Não pense, finja que você está de acordo com tudo. Diga sim.”,. É o contrário e o oposto do exercício franco, da rebeldia inteligente, o indivíduo só se transforma em alguém verdadeiramente criativo quando ele é capaz de se surpreender. E você percebe que a surpresa foi excluída do mundo do convívio. Você, para ser socialmente aceito, você tem que ser polido, e eu acho que nós deveríamos aceitar que a poluição não fosse exógena, externa, mas fosse também a poluição interna, que nós trabalhássemos, aprendêssemos a lidar com a nossa violência, porque se nós não soubermos trabalhar com este bandido que cada um tem, aquele bandido Caim, que matou Abel, no fratricídio que inaugura a civilização, não adianta acusar o Zé Pequeno não, porque o Zé Pequeno é bandido mas é vitima também.

 

Entrevistadora: Daqui a pouco a gente vai voltar a conversar sobre esse tema que é recorrente. Nós voltamos depois do intervalo, até já.

 

(* Intervalo *)

 

Entrevistadora: O Panorama Entrevista está de volta. Hoje conversamos com o psicanalista Jacob Pinheiro Goldberg. Jacob, agora nós vamos ter a participação dos nossos convidados, e o primeiro que vai lhe dirigir uma pergunta é o jornalista Jorge Sanglard.

 

Jorge Sanglard: A covardia humana não tem limites, como enfrentar essa tendência, principalmente nesse momento do Brasil?

 

Jacob: Você sabe, né Jorge, a covardia é uma opção moral, mas é também um mecanismo de defesa psicológico. Essa idéia de bravura, de coragem, é uma idéia alimentada principalmente pela idade média, ou na idade média, e pelo Chevalier Sans Peur e Sans Reporche, a idéia do cavaleiro sem medo e sem mágoa. E é uma mentira, é uma mentira. Na verdade nós todos temos medo e nós todos temos mancha. Então de alguma maneira, a covardia, pelo menos, se não é justificável, é compreensível, porque o poder é cruel, o poder é perverso. E é difícil exigir que cada um de nós, que a sociedade enfrente a gangue que nós sabemos que não tem código moral nenhum, e como não tem código moral nenhum, não tem limite.

 

Entrevistadora: Verônica.

 

Verônica Lage: Sendo professora de literatura, logicamente eu vou virar um pouquinho esse jogo aqui e eu estou tendo o prazer de ler o seu livro, e eu percebi o pós-modernismo muito na sua montagem, desse teu livro. Fragmentações, várias impressões que você tem do mundo. Como é que fica a identidade Jacob?

 

Jacob: Bom, você sabe, Verônica, que essa questão da identidade é um dos grandes enigmas modernos. Eu acho que é a identidade explodiu. “Blow up”, para quem gosta de cinema, sabe o que significa esse filme, esse filme que marcou em minha opinião, o rompimento de um momento. Porque basicamente se o telespectador não assistiu o filme, basicamente a grande cena é o jogo sem bola. Eu acho que esta é a questão da inidentidade. Porque não é bem perda de identidade, eu não tive na minha vida nenhuma perda de identidade, eu tive excesso de identidade. Judeu querendo que eu seja judeu quando dá certo, quando não dá certo, mineiro quer que eu seja mineiro quando dê certo, e assim por diante. A minha posição é a posição do excluso. Então, essa nitidez de identidade, ela não me agrada. Eu sou desenraizado, eu sou cosmopolita, aquele que durante muito tempo, você sabe, Verônica, que foi considerado um insulto político, porque o sujeito ser patriota era amar o seu pais com ódio de todos os outros povos. Eu nunca consegui entender isso, nem como brasileiro, nem como mineiro, nem com judeu. Comecei a servir ao exército aqui, 12º Regimento de Infantaria, depois que eu fui pro 4º Regimento de Infantaria, fui preso em 1964, fui preso em 1968, eu fazia parte do grupo que apoiava o João Goulart, então os hinos marciais sempre me impressionaram muito, mas não como uma identidade nem étnica, nem religiosa, nem de nenhuma outra natureza. Eu prefiro a ética, ao étnico.

 

Entrevistadora: José Eduardo, essa é boa pra você que é psicanalista, hein?

 

José Eduardo: É verdade, e eu gostaria até de pegar esse gancho e retomar a partir daí com a questão da violência. Veja bem, a agressividade do ponto de vista pulsional, é algo genuíno, é algo da natureza humana. E é muito comum à ligação, a relação de agressividade e violência. Na medida, se é que o senhor concorda que com essa relação, que possa existir essa relação da agressividade com a violência, eu indagaria ao senhor, professor Jacob, o que é que seria mais interessante? Tentar eliminar a violência?  Humanizar a violência? O que pensar sobre a violência nessa perspectiva?

 

Jacob: Eu acho que você usou, José Eduardo, uma expressão felicíssima, “humanizar a violência”, aprender a trabalhar com a agressividade de tal sorte que a gente possa exercitar a violência em termos de sublimação, transformar em esporte, música, em trabalho, em literatura, em solidariedade, ou seja, aquilo que Válter Benjamin chama de viver. Que é o contrario do cotidiano, da rotina, da mesmice. Vamos ser violentos sim, mas você colocou tão bem, no humanista, na posição do Guet, tudo o que é humano me pertence. Tudo o que é humano me pertence, nada me é estranho, naquilo que eu vejo no olho do outro, nada me é estranho.

 

José Eduardo: O senhor concorda com atitudes hoje de larga escala, norte a sul do país, sobretudo desenvolvidas por ONG’s, que, a partir da música, da cultura, da literatura, esporte, etc. e tal, tem tentado um trabalho sobretudo junto à população mais carente, mais necessitada?

 

Jacob: José Eduardo, eu acho que o Brasil está desperdiçando o que ele tem de melhor em termos de energia. Quanto mais eu saio do Brasil mais eu acredito piamente que a principal energia que esse país tem é o talento desperdiçado daquilo que a gente chama de classe C e D. Mas que coisa terrível, que desgraça que é essa, nós não termos a graça de aprender a explorar isso que você sugere. Vamos levar esporte, musica, pega a orquestra sinfônica, tira de dentro do teatro, tem um francês agora que está falando muito disso, ele levantou uma questão polemica em Paris dizendo que os museus deviam ser proibidos, porque o museu é o cemitério da arte. Porque a arte tem que ser levada para a rua.

 

Entrevistadora: Jacob eu acho que você até tem uma idéia que me parece que é muito clara. Nessa resposta ao Zé Eduardo, que é a de que a ética e a estética devem andar lado a lado, quer dizer, você não tem ética no lugar que não num espaço, público ou não, que não explore os valores da beleza ou do sonho ou da fantasia, que isso deveria fazer parte, ser introjetado na nossa vida, mesmo. Seria por aí?

 

Jacob: É exatamente por aí e eu queria dizer pra você o seguinte, que eu acho que você me dá a chance, me dá a oportunidade de falar duas palavras sobre isso, sabe. Eu, há uns anos atrás, eu escrevi um ensaio sobre a importância da feiúra, e no momento que ficou publicado, houve um mal entendido, mas eu deixava, tentava deixar bem explicitado a beleza que existe por exemplo, numa criança que nasce com o lábio leporino. Eu faço parte de um grupo, dos Estados Unidos, chamado “Operation Smile”. É um grupo de voluntários do mundo inteiro e que eu fiz um trabalho psicológico a respeito da família que recebe uma criança que não tem aquela harmonia aparente, que é a idealização de todos os sonhos do consumismo. Mas como é bonito você ver aquela criança, não obstante visto que aparentemente a natureza não lhe ofereceu como dote você subjetivamente aceitar, entender, e ver o belo e o ético da aceitação dessa criança né?

 

Entrevistadora: Eu acho que é perfeito, aí a gente deve ter que, é uma sublimação mesmo, inclusive de algumas angústias e lacunas que a gente tem talvez. Vamos deixar para o próximo bloco?

 

Jacob: Vamos.

 

Entrevistadora: (risos) A gente volta daqui a pouco, depois do intervalo, até já.

 

(* Intervalo *)

 

Entrevistadora: Estamos de volta com o Panorama Entrevista, hoje nosso convidado é o psicanalista Jacob Pinheiro Goldberg. Jacob, agora quem vai lhe fazer a primeira pergunta é a professora de letras, Verônica Lage.

 

Verônica Lage: Jacob, lendo o seu livro, novamente, né, vou retomá-lo, você destaca uma frase de Valter Benjamin: “Como existem vários caminhos, estamos sempre na encruzilhada.”. Em face de tudo o que você vem falando eu gostaria que você comentasse um pouco mais porque o destaque pra essa frase de Valter Benjamin.

 

Jacob Pinheiro Goldberg: Bom, eu tenho que fazer uma confissão pra você, viu, Verônica. Quando moço em Juiz de Fora, eu, perplexo, como continuo, sabe? diante da vida, eu costumava ficar na esquina, eu sempre tive uma paixão pela esquina. Muitos anos depois um amigo lá em São Paulo, disse que o meu apelido em Juiz de Fora, mas eu não sabia não, ninguém tinha me contado isso, era “O Esquina”. Essa sensação da metrópoles, da megalópoles, da grande cidade, porque Juiz de Fora já na minha época, eu considerava uma grande cidade, tinha 120 mil habitantes, hoje tem 500 mil, mas era grande. E eu não acho que a grande cidade esmaga o indivíduo e faz com que ele perca a identidade, sabe. Pra mim, esse é um dos muitos clichês da cultura contemporânea. A grande cidade nos liberta também, do provincianismo, da pequena intriga, do olho perseguidor e paranóico que impede que cada um possa fazer o seu pecado, cometer o seu pecado sem que o vizinho se meta. Essa emancipação, essa libertação que a cidade oferece em relação à pequena cidade, ao campo. Eu acho que foi uma conquista de cultura em civilização. Então, a mim, me agrada ficar na encruzilhada, sabe? Essa exigência permanece de escolha sempre implica em perda, e eu tenho muito medo de perda.

 

Jorge Sanglard: A sociedade brasileira sempre foi muito violenta, historicamente, é uma sociedade violenta. Nós temos pistolagem no interior, por causa de questões eleitorais, nós temos nas grandes cidades com inchaço nas favelizações e tal, um aumento da violência muito acentuado e uma repressão também muito violenta, fruto lá da formação policial da ditadura. Como é que você vê a cabeça do brasileiro em meio a tanta violência e tanta rapidez, porque hoje é tudo on-line, hoje é tudo acompanhado in loco..

 

Jacob: Eu acho que nós corremos o risco da chamada cultura da bobagem, principalmente através da internet. Um dia desses, eu até escrevi um trabalho sobre isso, que foi publicado pelo Jornal da Tarde, né? A cultura da bobagem é perigosíssima, se você entra em brends na busca do google e assim por diante, o que você encontra de asneira é uma barbaridade, então esse excesso de informação fria, eu acredito que é mais um elemento em minha opinião, de alienação. Porque quanto mais à gente foge das questões essenciais de ser mais violento a gente se transforma. É o que está acontecendo, em minha opinião, com a cabeça do brasileiro. Eu acho que nós temos que voltar, e não é só do brasileiro, do homem moderno, da mulher moderna. Nós temos que voltar, nos voltar para a subjetividade. Eu gosto muito daquela frase de Nelson Rodrigues, relacionada com o idiota da objetividade, “O mundo objetivo me interessa muito pouco, o que me interessa é aquilo que o mundo me sensibiliza e me emociona.”.

 

José Eduardo: Professor Jacob, o senhor nasce em Juiz de Fora, na adolescência e juventude ganha mais espaço, mais amplidão, ganha São Paulo, Brasil, mais tarde, o mundo, mais de 40 livros publicados, incontáveis artigos. Como que uma pessoa que volta, retorna hoje, 20 anos depois a Juiz de Fora, como que é essa pessoa do mundo, de Juiz de Fora, de fora, vê hoje Juiz de Fora?

 

Jacob: José, a sua pergunta me permite dar uma resposta incisiva e eu gostaria muito de convencê-lo. Na verdade isso fica entre eu, você, ninguém está nos ouvindo, está bom assim? Eu nunca saí de Juiz de Fora. Eu nunca saí de Juiz de Fora. Isso foi uma invenção. Eu consegui enganar meio mundo dizendo que eu tinha saído daqui. Olha bem pra minha cara, rapaz. Você acha que eu saí de Juiz de Fora? Eu ando pela rua Halfeld  é como se ontem e hoje e o amanhã, eu usei essa expressão, o tempo não passa, o tempo espaça.

 

Jorge Sanglard:: A infância está mais presente no do que o café da manhã?

 

Jacob: Absolutamente, rapaz, você jogou futebol comigo, é que você não sabe disso! No campo do Granbery. Nós sempre estamos na cidade do nosso espírito. Jerusalém, pra mim, é Juiz de Fora. Quando eu estive em Jerusalém, eu fui dar uma olhada ali no Muro das lamentações, eu olhei praquilo e falei “Mas, meu Deus do céu, o que é que eu vim fazer aqui? Isso aqui parece uma quermesse! Fica esses árabes e judeus brigando por causa de centímetros  de terra? Não existe um centímetro de terra no mundo que justifique um cadáver. É só o sonho que é nossa pátria.” E por isso tudo eu nunca saí de Juiz de Fora, eu sou incapaz de olhar de fora, porque eu estou por dentro.

 

Entrevistadora: Agora seria interessante, Jacob, eu queria também retomar um pouco a questão do Zé Eduardo, e te perguntar o seguinte: Já que você é um cidadão do mundo, tão cosmopolita, e consegue ter a felicidade de ver esse local global, essas coisas que dialogam o tempo todo, a ligação Polônia, o que é que ficou da história da sua família, uma história fortíssima, vários dos seus parentes, antepassados, foram mortos em campos de concentração e a Juiz de Fora, porque você escreveu sobre isso, a cidade do seu pai, né? Uma pequena cidade, você já mencionou isso, que funcionava quase como que um gueto, já antes da guerra de 39 e a cidade de Juiz de Fora e todas as cidades do mundo que hoje correm o risco de perderem até um pouco desse encanto, do espaço publico delas, que hoje está, assim, teve se reduzindo a um espaço da rede, da conexão, mas não ao espaço da praça ou da rua?

 

Jacob: Bom, eu diria para você o seguinte, quando você fala em Ostroviec, eu penso muito assim, eu escrevi num livro chamado “O Ritual de Clivagem” expressamente a seguinte frase: “A Polônia, as terras geladas, anti-semitas, aonde nunca estarei.” Os anos se passam, e eu recebo um telefonema de Henrique (Siversk), um dos principais líderes católicos da Polônia, professor de teoria de literatura comparada da Universidade de Brasília, me convidando pra dar uma aula na Cátedra que foi de João Paulo II, o último brasileiro que falou lá foi Santiago Dantas, na Universidade de Cracov, que você sabe que é a mais antiga da Europa, tem 500 anos. O presidente da Polônia me dá, pelo livro publicado pelo Henrique, em polonês, é o único livro de poesia brasileira traduzido para o polonês, chama-se “Mágica do Exílio”, e é de minha autoria. (Esteves) me deu um título de cidadão polonês, e eu fico em duvida se eu rasgo o título, ou se eu vou até a Polônia agora em agosto para que eu possa encarar esse conflito dialético que você acaba de apontar. E eu só posso responder pra você, que se eu for, e fica condicionado, eu não sei se eu vou ter coragem suficiente para enfrentar esse desafio de ir até lá.

 

Entrevistadora: São as esquinas da vida, (risos). Você é bom um analista de imagens, e analisou a imagem do nosso cenário contemporâneo, que privilegia esse nosso sentido do olhar, sem dúvida, tem figuras que você analisou, e algumas que são especialmente caras. Eu queria terminar o programa perguntando alguma coisa sobre essa análise da imagem, tem um mito brasileiro, que foi Airton Senna, e o que é que ele poderia nos dar de sentido nesse momento, hoje, o mundo tão complexo, tão sem respostas e referências?

 

Jacob: Eu fui levado a conhecer o Airton Senna e fiquei trabalhando com ele aproximadamente durando um ano e meio, nós fizemos a imagem do Senninha. E o que eu quero dizer pra você é que impressionava profundamente no Airton era ao mesmo tempo, sabe aquela idéia do herói humilde? Do samurai? Pra mim, Airton Senna era um samurai. Eu diria pra você que a cena que mais me marcou na relação com ele foi assim,
nós entramos num elevador, né, e uma pessoa humilde olhou pra ele e disse: “O senhor desculpe, o senhor não é o Airton Senna?” e o Airton disse, “Eu sou. E o senhor, qual é o seu nome?” e o homem declinou o nome. O Airton estendeu a mão, mas não com demagogia, não tentando ser sedutor, não tentando conquistá-lo, mas com respeito. E naquele momento, eu entendi porque que a multidão o acompanhava. Eu fui com os pilotos da Fórmula 1 acompanhando o enterro do Airton. Eu vi um homem carregando um bebê no colo e correndo. Agora a emoção me toma,.E eu pensei, “porque que esse homem está atrás, correndo, do carro,que está indo tão devagar?” Porque o Airton, na minha opinião, nos ensinou a andar, a correr, a perseguir, a avançar.

 

Entrevistadora: Eu também fiquei emocionada. (risos) Eu queria te agradecer, queria agradecer aos nossos convidados, e lembrar que este programa será transmitido daqui a pouquinho pela Rádio Panorama. Uma excelente semana e até o domingo que vem. Tchau.

 

 

 

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PALESTRANTE - DOUTOR PROFESSOR JACOB PINHEIRO GOLDBERG

LOCAL: OAB – JUIZ DE FORA – MINAS GERAIS

 

 

Com a presença das autoridades e personalidades:

Doutor Wagner Antônio Policeni Parrot – Presidente da 4ª Subseção da Ordem do Advogados do Brasil em Juiz de Fora.

Doutor Inácio de Loyola Câmara Costa – Vice Presidente da 4ª Subseção em Juiz de Fora e Diretor da Escola Superior em Advocacia em Juiz de Fora.

Doutor Denílson Clozato Alves Secretário Geral da 4ª Subseção da OAB em Minas Gerais.

Doutora Valquiria Valadão Secretária Adjunta 4ª Subseção da OAB em Minas Gerais..

Doutora Andréia Vasconcelos Diretoria Geral da Caixa de Assistência dos Advogados em Minas Gerais.

Doutora. Ana Sofia Schmidt de Oliveira.

Doutor. Agostinho Marion.

Doutor. Elcio Guilhermino Junior.

Membros da Comissão de Defesa da Assistência Prerrogativa dos Advogados da 4ª Subseção

Doutor Rafael Pimenta – Presidente da Comissão de Direitos Humanos da 4ª Subseção da OAB de Juiz de Fora

Doutora Maria Cecília Gomes Estefane – Juíza da Vara da Infância e da Juventude dessa Comarca.

Doutor Antonio Galvão Dias Nascimento – Representando o Delegado Regional  da Segurança Publica de Minas Gerais.

Doutora. Isabela Primo do Vale – Representando a Faculdade de Direito da Faculdade de Direito em Juiz de Fora.

Doutor Lucas Batituci – Representando o coordenador do Curso em Direito da Faculdade Metodista Granbery.

Doutor Robson Ribeiro de Sá – Representando a Faculdade de Direito da Universo.

Doutor Nilson Ferreira Neto – Conselheiro 4ª Subseção da OAB em Minas Gerais

Professor. Jornalista Ulisses de Aleori - Presidente da Associação dos Ex-Alunos do Instituto Metodista Granbery.

Maria Helena Herror – Vice Presidente da Associação dos Ex- Alunos do Instituto Metodista Granbery.

 

PALESTRANTE : DOUTOR PROFESSOR JACOB PINHEIRO GOLDBERG

 

As autoridades aqui presentes, Senhores Advogados, Doutor Wagner Parrot, do que eu convivi esses dois, três dias, justamente eu estava dizendo a ele que nessas décadas que eu tenho trabalhado a tentativa de compreensão da linguagem do corpo e da mente às vezes a gente desenvolve um olho clinico, e onde almoçando com Wagner Parrot ele dizia que na minha percepção sensorial, o Wagner é uma encarnação que os americanos chamam de (Linderchin), que é uma liderança consensual diferente do conceito alemão de (Fierstein) que é autoridade de chefe.

Quero cumprimentar particularmente a Professora Doutora.Ana Sofia Schmidt de Oliveira, agradecer a ela essa aula que não foi exatamente de direito penal em minha opinião mas foi uma aula de critica social. Critica social lúcida, contundente, corajosa, e a mesma coragem que fez com o que ela se deslocasse de São Paulo e viesse até aqui, e nessa madrugada indo voltar pra São Paulo, e enquanto ela falava, ela falou em tietagem, e eu tomo a liberdade de usar uma expressão do nosso maior polemista que todos nós sabemos que foi muito criticado em sua época, e muitas vezes com toda a razão com suas previsões políticas e ideológicos  absolutamente erradas mas um gênio em termos de literatura, Nelson Rodrigues ele usava uma expressão que me agradava muito, ele falava em “babando em admiração” , ficava “babando em admiração” quando você falava.

Realmente vocês todos são testemunhas, como interessante vocês sabem que o uso do cachimbo faz a boca torta, então ela estava ao meu lado cantando o Hino Nacional e eu percebia que na voz dela a credibilidade.

Vocês sabem que a palavra patriotismo foi expurgada do nosso vocabulário como por ventura reverencia a pátria fosse piegas quando na verdade a pátria não é uma dimensão continental, não é uma tribo contra as outras tribos, é uma formação de cultura, é solidariedade, é um tecido social que não pode ser esgarçado, e ela cantava com aquela fé, que é absolutamente necessário e cada um de nós tenha para enfrentar essa mesma desordem absurda e ignorante afora,.na ampla expressão ignorante, na ampla expressão do termo, me lembrando do julgamento de Sócrates que os senhores todos conhecem e sabem qual foi a base fundamental da denuncia contra Sócrates o que levou a morte. Ele perguntava demais, acusação essencial é essa, o resto é de menor importância, ele era considerado excêntrico, diferente, com isso perigoso para a ordem social, simplesmente porque ele parava as pessoas na rua e ele perguntava para as pessoas – “O que você acredita nisso? Seja o que for”.

Mas ele questionava, e vocês sabem que foi dado toda a oportunidade que se arrependesse e ele se negou, preferiu enfrentar a morte com a dignidade, daquele que acredita na sua descrença, no seu ceticismo. Quando (Jorge Zahar), esse visionário idealista e intelectual do século XXI como eu já disse umas dez, doze vezes “porque sou repetitivo sabe Jorge”. Eu acho que minha memorização é perigosa, até preciso repetir cansativo e exaustivamente. Onde (Jorge Zahar) fez esse convite para que eu viesse até Juiz de Fora eu vim como medo sabe? Porque eu me lembrava de uma frase do grande escritor mulçumano (Salma Gursky), que disse “O homem pode polvilhar toda a terra, menos o lugar onde foi feliz”. Eu pensei muitas vezes no sentido dessa frase, e eu vejo aqui inclusive o pessoal do Granbery, do Instituto, do Colégio Protestante aonde eu menino judeu fui estudar, com todas as contradições e dificuldades, do sofrimento a angustia o menino que nasceu com orelhas de abano, a policia era dumbo, o menino que tinha matado Jesus. Embora que na realidade ouvisse o Pastor Protestante Walter Harvery Moore o homem que marcou indelevelmente a minha formação e a minha vida, de que Jesus era o anuncio judaico da divindade, como era possível viver com essa contradição? Com a tradição judaica em casa e a tradição evangélica na escola. Mal sabia eu, que era exatamente esses fragmentos, essas divisões, essa incoerência, essa contradição a qual aludiu com tanta insistência Ana Sofia quando perfilava uma pergunta atrás da outra, “Aonde é que o homem procura segurança?” O homem procura segurança, a mulher procura segurança na policia? Mas que ingenuidade ou que torpeza. São Paulo visse como empregues aos escândalo ao mundo, cada um de nós é testemunha da critica a um dos três poderes entre aspas, resta muito pouco de se dizer a não ser uma atitude de profunda e humilde alto critica, o que é que nós estamos fazendo com nossas vidas? Com a vida de nossos semelhantes. Quando ela falava dos números de presos dos Estados Unidos, quantos anos faltam para que todos os americanos tenham passado pelo sistema presidiário? Quantos anos faltam que todos vocês e eu também respondesse para um inquérito criminal, por algum crime, e por alguma legislação surrealista, enlouquecida, ensandecida, nós possamos ter transmitido a genialidade de Machado de Assis em alienista. O alienista já tinha afirmado a hipótese da loucura coletiva, mas eu acho que Machado de Assis talvez não tivesse imaginado a crueldade maior que não é da psicose é a do crime. Portanto em principio somos todos criminosos até que provem o contrario.

A chamada “Sociedade do Espetáculo”, através do cinema e da televisão, dos instrumentos e tecnologias mais avançados, os conectaram de tal maneira que nesse momento nós estamos vivendo aqui nessa sala os papeis de um reality show, o show de Truman, cada um de nós estamos representando um papel nesse instante, eu o papel de palestrante, vocês de ouvintes, um dia de admirador outro dia de admirado, e assim por diante, por isso eu resolvi escrever esse livro numa tentativa de desconstrução na idéia de Jacques Derrida, “como sair do papel pré-determinado para cada um de nós?”. Pela cultura, pela igreja, pelo exercito, pela comunicação absoluta. Existe um programa nos Estados Unidos que está sendo imitado aqui no Brasil que eu recomendaria pra vocês assistissem, e para aqueles que não assistiram ainda, eu fico impressionado, eu fico absolutamente impressionado na televisão quando o programa passa.  O programa é uma espécie de terminal do narcisismo, o cidadão ungido pelo senhor, ele examina alguns candidatos que querem se tornar empregados dele e ficarem ricos, e ele usa esse poder da sentença do qual a Ana falou, e no final ele ao invés dele absolver ou de condenar ele afirma ele tido. Eu fico impressionado que ninguém se revolta, isso é a vitória do fascismo, o totalitarismo entrou dentro da nossa casa e nós achamos graça, e a gente dá audiência, e todo mundo acha razoável, sensato, ninguém protesta contra essa violação absoluta do mínimo da punição da dignidade humana. Não! Não! Os outros programas passam de alguma maneira a imitá-lo de tal sorte que branqueado as fronteiras daqui pra frente vamos ter talvez um programa só, e o tempo todos vamos estar na expectativa de ser aprovado ou reprovado.

Esse trabalho aqui eu aproveitei guardado naturalmente todas as restrições éticas possíveis, mas eu tentei imaginar e conceder uma espécie de sociodrama de um filme que todos vocês provavelmente assistiram que foi “O Tropa de Elite”,.Eu tomaria a liberdade de ler, não é muita coisa não, mas eu montei da seguinte maneira, “como se fosse um filme daqueles que eu assistia quando menino adolescente no Cine Central daqui de Juiz de Fora pra mim refugiar das bobagens e asneiras dos moleques da Rua Santos Dumont, eu ia pra dentro do cinema e me libertava através do imaginário, do fantasmático, do simbólico, criando mundos e universos dos quais eu poderia ser alternativas e simultaneamente mocinho e bandido. É claro que no final fica com a mocinha”. Eu comparei com “Tropa de Elite” uma obra prima da filmografia mundial que foi encouraçado por “Jungk”, Filme esse que foi um dos catalisadores da revolução socialista russa que todos nós sabemos que começou numa grande utopia da humanidade e terminou uma tragédia sem limites. Todos nós sabemos também, ao mesmo tempo a inspiração genial e o talento e a dor do seu criador que foi Eisentein, eu imaginei “O Encouraçado” por Jungk encourando em Copacabana.

Jose Padilha fez do cinema o que Nelson Rodrigues fez na literatura, ele escreveu em brasileiro, porque grande parte do nosso cinema faz o painel de uma linguagem esotérica cujo objetivo é realmente que aquele que a qual iludiu a Ana Sofia, é afastar o poderoso do impotente. No cinema às vezes de tal maneira confuso que nem o roteirista entende o roteiro, e Jose Padilha resolveu escrever em brasileiro no Brasil, o que Nelson Rodrigues tinha feito na literatura, escreveu em brasileiro sobre o Brasil que ninguém escreve, ninguém filma, porque os nossos filmes são filhos de uma cultura que se escamoteia para se evadir. Uma sociedade que não se enxerga com medo da visão horrorosa que ameaça, brutalidade, violência, hipocrisia, tudo é tratado pelo viés, do tabu, da falsa cordialidade, o individuo diz não com sorriso de sim, “volte daqui alguns meses parece que vai abrir uma vaga”. Escarra assim quando talvez abita sua alma, um talvez feto que pode abortar qualquer projeto catártico, qualquer salvação. Setecentos e cinqüenta mil ovos piratas vendidos antes da primeira exibição, eu usei a expressão “ovo” porque vocês todos devem conhecer a expressão “Ovo da Serpente” que foi usada para definir o inicio insidioso do totalitarismo.

Tem pessoas que imaginam que o regime totalitário acontece de uma hora pra outra que alguém chega na televisão e diz “A partir dessa data, a sociedade passa a viver o regime totalitário”.

Não é assim não, é bem devagar, é na escola, é na infância, é com sorriso, é com manipulação indireta. E eu falei de DVD porque dois três anos atrás eu respondi a um processo crime. Eu havia feito um requerimento discutindo o filme que seria exibido no Brasil, “A Paixão de Cristo” por Mel Gipson, e o repórter da “Folha de São Paulo”, um jornal do qual eu colaboro a muitos e muitos anos, um jornal que faz parte da minha vida, muito de perto. O repórter na pressa me entrevistando por telefone perguntou “Mas como o senhor fez um requerimento se o filme ainda não está sendo exibido?” e eu tentei explicar pra ele por telefone que as imagens estavam na internet e que embora eu seja um monoglota, eu só falo a língua portuguesa e falo mau, mas eu leio razoavelmente em inglês até para poder dar aula na Faculdade de Medicina da Universidade de Londres. Eu tinha lido à crônica do York Times a respeito do filme, e a (.... Germany), que era o suficiente para que eu achasse pelo menos discutível e polemico a exibição do filme, claro que eu era politicamente incorreto, eu estava assumindo o risco de não ser compreendido.  E ele vira pra mim no telefone e diz assim “Mas isso está muito complicado Doutor Jacob”. E eu disse “Mas complicado porque meu filho? Eu to explicando pra você, e eu arrematei mesmo que DVD pirata esta sendo vendido na esquina da minha rua, na Rua Augusta, se você quiser tem ai a vontade, eu só não comprei porque eu não vou assistir ao filme e depois eu explico o porquê, eu não preciso assistir o filme”. Ele: “Sabe jornalisticamente, ta bom, ok obrigado doutor.” E desligou o telefone.

Só que a manchete da matéria era “Psicanalista assiste o filme em DVD pirata”, mas que depressa a distribuidora entra no Ministério Publico com pedido de abertura no inquérito. Umas duas horas depois eu recebo um e-mail de um procurador dizendo que realmente gostava de mim era muito amigo meu, a gente participou por muito tempo de programas, alias vou dizer o nome dele, hoje é deputado Fernando Capez, ele dizia que descordava da minha posição. Eu mandei um e-mail pra ele pedindo paciência, falei: “Fernando tenha paciência de ouvir minha argumentação e depois conversamos.”

E a direção da “Folha de São Paulo” me pediu para escrever uma carta na pagina 03, na pagina de opinião, justificando porque da minha posição, e eu escrevi o artigo, por sinal recebi trezentos reais de pagamento sobre o artigo.

E o jornalista judeu escreveu no site, na internet que é a cultura da bobagem, que eu tinha sido oportunista e que eu tinha pedido a publicação do artigo. Aqui tem algumas dezenas de advogados e eu posso deixar e faço questão de deixar claro quem sabe com a esperança que ele me processe, ele é um canalha, a “Folha de São Paulo” é quem me pediu o artigo, pediu e pagou, e eu me achei e continuo me achando com o direito de exprimir minha posição em relação a Jesus, porque pra mim Jesus não era cristão, e Jesus não era judeu, a mais importante figuração da historia da humanidade, grande demais para ser propriedade de qualquer religião, grande demais para transmitir lição de ódio, de sadomasoquismo como foi expresso nesse filme terrível do Mel Gipson, onde diz respeito por isso eu dei o titulo ao artigo de “um filme anticristão”, e por isso em trinta e cinco paises do mundo, grupos religiosos cristãos se dividiram diante da minha posição, a favor e contra, registrado na internet.

Os meus familiares principalmente meus filhos, disseram “Pai! Tu não sossegas não? Realmente é necessária mais essa briga alem de todas as outras que você já incensou.” E eu pensei comigo, existem vidas que se justificam com uma frase, existem anos das nossas vidas que são gastos na absoluta superfluidade, na necessidade da aprovação do alheio, do qual você substitui a sinceridade pela simpatia, e essa não foi minha opção.

E foi nessa cidade, no Instituto Granbery, como missionário protestante que eu aprendi essa missão quando eu era vice-presidente diretório de alunos do Instituto Granbery, dirigi uma greve em nome da união da juventude comunista, ele me chamou na sala dele, eu apavorado, um moleque, deveria ter uns quinze, dezesseis anos de idade, aquele homem imponente, Walter Moore, aquela figura imponente de pastor metodista, colocou uma bíblia em cima da mesa, olhou pra mim e disse com sotaque americano “Meu filho, você acredita mesmo nessa greve?” Eu fiquei olhando pra ele...”é agora, é agora ou nunca..Falei acredito”  Ele leu a bíblia e leu uma passagem, e disse “Se você acredita vai em frente, eu vou te suspender, porque eu não acredito nessa greve, mas eu faço questão que você continue com ela.” Essa foi uma lição imorredoura pra mim para o resto da minha vida, eu me nego, eu me recuso a fazer o papel que é me emposto, a minha vida não é script cinematográfico, ela é uma opção moral que faço a cada instante, e mil vezes errando, mil vezes tropeçando, fragmentado, eu acredito que essa é a única resposta possível para essa aflição e angustia desesperada e terrível a qual se referiu Ana Sofia, “O que fazer?”

Alguns meses atrás eu fui procurado por um paciente, homem rico, poderoso, bem realizado, ele disse pra mim “Faz oito dias que não durmo de enxaqueca, e o meu medico pediu mim para falar com o senhor”. Mas eu disse ”Como é que começou essa enxaqueca?” O paciente “ Doutor eu não sei, não estou com paciência para muita conversa não, o senhor não tem alguma coisa pra me recomendar não? Não suporto mais essa dor”.

“Quando é que começou essa dor?” O paciente “Bom eu estava dirigindo meu automóvel”..   

“Que marca que é seu automóvel?” O paciente “Mas que importância tem isso para diagnosticar a minha dor de cabeça, sei lá que importância tem, se tem alguma coisa descubra”.

Ele falou uma dessas marcas, eu não sei, mas deve ser uma marca de uns cento e cinqüenta mil reais. O Paciente “Eu tava no meu carro”.

“É blindado?” (O sujeito estava com uma falta de paciência) O paciente “É blindado sim, é blindado. Eu tava na esquina da Rua Haddock Lobo com a Avenida Paulista, e vi um moleque, imagina só que absurdo, o moleque devia ter uns oito ou nove anos de idade, bateu no meu vidro e eu pensei que devia ser um assalto, fiz a bobagem de abrir o vidro, e o moleque me pega e me pede dinheiro pra comprar pão”

Eu disse “Que coisa absurda, eu pensei que era assalto e o menino só pede dinheiro pra comprar pão, você deve ter ficado frustrado” Paciente “Mas que coisa esquisita, mas fiquei sim, fiquei frustrado mesmo, eu já estava pronto pra dar um tiro na cara do moleque, porque eu ando sempre armado”.

“Ah! Sei.” O Paciente “Fechei o diabo do vidro, fui pra casa e a partir dessa hora eu to com essa dor de cabeça, mas o que há uma coisa com a outra doutor?”

“Absolutamente nada, o senhor não percebe nenhuma ligação, pois é”.

Há muitos anos atrás na então província que restou do império austro-húngaro, existiu também um homem muito esquisito, tão esquisito que respondeu a um processo pra ser expulso da sociedade de medicina alemã por suas idiossincrasias, o nome dele era Zigmund Freud, ele dizia que uma dor insuportável se chama (VEL SZMERDS), é dor do mundo, é de existir, é dor da alma, ”é dor da dor alheia, “o senhor está com a dor do menino e se o senhor não superar isso, o senhor vai carregar essa dor pro resto da sua vida”.

Ele ficou olhando pra mim perplexo, e disse “Verdadeiramente não estou entendendo nada”, eu disse pra ele “Eu comungo com sua perplexidade, eu também não entendo nada do seu não entendimento. Vamos ficar por enquanto por aqui, mas quando sua dor for insuportável, o senhor vai imaginar que o menino leva essa sua dor desde o útero da mãe dele.”

Quando eu fui a delegacia de policia, o delegado, como todos os delegados, os escrivães para ouvir meu depoimento, eu me sentei e disse “Qual é a pergunta doutor?” Ele disse que não tinha pergunta a ser feita, nós estamos todos aqui reunidos para ouvir as suas razoes. Eu disse “Eu gostaria de começar dizendo que eu não precisava ver esse filme em DVD pirata porque eu assisto esse filme a dois mil anos, faz dois mil anos que esse filme está na minha retina, faz dois mil anos que eu acho que esse filme deveria ser proibido, faz dois mil anos que eu acho eu acho desse filme de dor e sofrimento, de punição, de condenação, de destruição, de dor, de morte devia ser substituído amai vos uns aos outros.

Muito Obrigado!

 

DEBATE

 

Vagner Barroco:- Eu na terça-feira participei da memorável participação no Museu da Arte Moderna Murilo Mendes, onde o Professor Jacob deu o seu testemunho de vida, da sua historia em Juiz de Fora, mas esse testemunho de vida eu fiz uma pergunta que tirei do seu livro, mas cometi um erro, porque a pergunta deveria te fazer que consta no seu livro é a seguinte, o que de bom o senhor vai levar nessa vida, eu esqueci de colocar “o bom”, e a resposta não foi a que o livro questionava, então essa é uma pergunta que eu gostaria de ouvir do senhor. O que de bom o senhor leva nessa vida?

 

Jacob:- Eu disse pra vocês, que a impressão de impacto que me causou de conhecer o Vagner Barroco, eu gostaria de afirmar, de reiterar essa minha afirmação, eu diria pra você Vagner que eu levo de bom nessa vida é o conceito de afinidade eletiva, que é um conceito (DO GUET) .amparado a uma idéia grega, os gregos tinham dois grandes conceitos pra idéia de amor, Eros Erotismo que nós sabemos que tem sua ancora inanibido. .E Agape, que é a idéia da afinidade da vida que uma maneira poderia ser traduzida em mau por amizade, mas a mim me agrada mais nesse aspecto um vocábulo americano que é ser inbido, não é um vocábulo inglês, é um vocábulo novo que é uma tentativa de sintetizar o milagre, o americano é tão pragmático que eles são capazes de vender milagres na esquina. Eu diria pra você que eu levo dessa vida de bom o milagre da convergência, Teihard de Chardin, o teólogo cristão, ele tem uma afirmação extraordinária, ele diz “Na dimensão do cosmos só o milagre é compreensivo” , e uma outra, “Tudo que converge sobe”.

Pra mim um milagre essa noite eu ter voltado para Juiz de Fora, encontrar vocês, a presença de vocês, essa moça extraordinária, eu olhava pra ela, como eu tenho um certo compromisso, eu tenho um autentico pavor da idéia de sedução, acho tão perigosa,  a idéia de conquistar o outro, a idéia de conquista do outro, pra mim tem algo haver com posse, e a idéia de posse vocês todos sabem que a minha postura é filosófica e anarquista então posse pra mim é me é repulsiva, então eu fico meio hesitando eu também não posso hesitar, então eu fico hesito ou não hesito, e eu fico pensando, porque não é uma mulher como essa que é candidata a presidente desse pais.

Mas que Hillary Clinton?, que perdoe aquela torpeza daquele marido dela, único jornalista, foi transcrito em quatorze jornais americanos, o artigo que escrevi na “Folha de São Paulo”, dizendo que não era possível que aquela mulher não tivesse vergonha na cara que continua casada com aquele homem depois daquilo, depois da Mônica, ainda é candidato a Presidente dos Estados Unidos. E nós temos essa idealista aqui do nosso lado, pra mim isso é milagre, e esse milagre que eu vou carregar pro resto de minha vida, você sabe que eu não acredito na morte né? Eu acredito na eternidade, eu acredito piamente que nós vamos ao mesmo lugar de onde nós viemos, ou seja para o centro, e para sempre eu hei de carregar essa noite, a sua presença, presença de cada um de vocês e estar sentado aqui compartilhando e dividindo conosco, (ele usou uma palavra extraordinária), .”Testemunhando”, nós somos testemunhas, de que nós fomos condenados a dar certo.

 

Guilherme: Boa noite para todos. Meu nome é Guilherme, eu gostaria de aproveitar a presença de figuras tão profundas, tão importantes aqui na nossa cidade, e questionar ao Jacob, se me permite chamá-lo assim, questionar uma possibilidade de ouvirmos do senhor um comentário um pouco mais aprofundado a respeito de um palavrão que eu gostaria de falar e eu gostaria que o senhor comentasse a respeito. Esse palavrão chama-se "manipulação". Continuando aquilo que o senhor começou a falar, que a rebatedora também comentou, a respeito da grande manipulação social em que vivemos, eu gostaria que o senhor traçasse um breve paralelo em relação às manipulações pessoais, que às vezes, porventura, podem ser até positivas, no dia-a-dia de cada um de nós. E quando se debatendo macro e micro violência, precisamos falar da conduta humana, da pessoa humana, e eu gostaria de aproveitar a presença, do nobre debatedor, para ouvir um pouco mais do senhor.

 

Jacob: Em minha opinião, o mais brilhante, estudioso a respeito dessa questão que você levanta, foi (Hary From.). Hary From distinguia com radicalidade a relação do homem com o seu semelhante no impedimento de você coisificá-lo . Quer dizer, quando você usa outra pessoa, pra corresponder ao seu desejo, você está manipulando essa pessoa. Ou essas pessoas, quando se trata de muitos, e de sociedade. Fugindo de teorias conspiratórias que a gente sabe que estimulam paranóia social, fugir das teorias conspiratórias, mas também sem ingenuidade. Nós sabemos que a sociedade contemporânea é formada por uma série de entidades de gangues de poder, de poder econômico, de poder midiático, de poder religioso, de todos os tipos de poder, que acreditam que os fins justificam os meios. Que em nome de fins aparentemente os mais limitantes, é possível transformar o outro no instrumento de nosso desejo, e isso acontece dentro de casa, na sociedade, em todas as estâncias e interações sociais. E eu acredito que a única maneira que nós temos de nos defendermos contra o perigo da manipulação, o risco da manipulação, é a crítica dura e ácida e sem concessão. A cada instante cada um de nós tem de demitificar e desmistificar. Quando o atual presidente da república se candidatou eu tive a oportunidade de travar um debate com o, então candidato, Luis Inácio Lula da Silva em dois programas. Em um programa de televisão da Silvia Popovic e num programa de rádio.

E nos dois programas eu dizia que ele corria um risco extraordinário, que era o risco de se transformar em um estagogo, que é uma conjunção de demagogo e  místico  e que isso com facilidade captura imaginação e a alma popular e depois de um duro debate de duas horas, foi pela Rádio Excelsior,  nós descemos juntos a rua das palmeiras, ele acompanhado do filho e da primeira mulher, não, do filho, do primeiro casamento da dona Marisa. Nós descemos, e fomos até o bar, ele olhou pra mim e disse "Que bom que você tenha me alertado pra este risco que eu corro, eu sempre soube que eu seria capaz de encantar as pessoas" e eu disse, "E é exatamente isso que cada um de nós, cuidado pra gente não se transformar num encantador de serpente, e não permitir que a serpente nos encante."

 

23

 

SOCIODRAMA DE “TROPA DE ELITE”.

Take 1

 

 

O Encouraçado Potenkim em Copacabana

 

 

 

José Padilha fez no cinema o que Nelson Rodrigues fez na literatura.

Escreveu em “brasileiro” sobre o Brasil, que ninguém escreve, ninguém filma, porque somos filhos de uma cultura que escamoteia para evadir-se.

Uma sociedade que não se enxerga com medo da visão horrorosa que a ameaça. brutalidade, violência, hipocrisia, tudo é tratado pelo viés do tabu, da falsa cordialidade. O individuo diz não com um sorriso de sim. Escarra sim quando o talvez habita a sua alma. Um talvez feto que pode abortar qualquer projeto catarse, qualquer salvação.

750.000 dvds piratas vendidos antes da primeira exibição. A platéia aplaude e urra porque, finalmente, sua vida escrachada está com as vísceras expostas.

Nem direita, nem esquerda, nem centro. Não é do morro, não é do BOPE, não é da policia, não é do tráfico.

E do sindico, é de Brasília, é do transito, do serviço de saúde falido,é do desemprego, é da corrupção,é do escárnio.

Homem de preto, qual é sua missão? Entrar pela favela e deixar corpo no chão.

Bullying, genocídio, racismo, machismo, ignorância, menino começa a assobiar no escuro para exorcizar seu me o-Homem de preto, o que é que você faz?

Eu faço coisas que assustam Satanás.

Está tudo dominado.

Estupro,pedofilia, coluna social:

Mexe, remexe, o filme que vomitou e exclama – Durante muitos anos os médicos pretendendo preservar o paciente usavam a sigla “c.a” para designar a doença.

Doutor, não é “c.a”, é “CANCER” !

 

 

Take 2

 

O ESPECTADOR 

 

Com 19 anos de idade fui servir ao N.P.OR. (Núcleo Preparatório de Oficiais da Reserva), em Juiz de Fora, MG.

O quartel, se bem me lembro era em Mariano Procópio. Infantaria hipo-móvel, tínhamos que andar a cavalo e levar a munição morro acima usando burros. Anos 1950. Não conseguia acompanhar o treinamento com os cavalos. Idiossincrasia insuperável. O tenente bossal e grosso, passava os dias aos berros – “Pinheiro, olha o cavalo, senão xadrez”. Olhar eu olhava, até demais. O problema era montar e disparar.

Acabei por optar por uma alternativa milagrosa. Pedi transferência para São Paulo, C.P.O.R, Rua: Alfredo Pujol. Não era hipo móvel, a infantaria era separada da Arma da Cavalaria? Me saí bem. Grandes amizades, inclusive o extraordinário jurista Mario Simas, advogado dos presos políticos na época da ditadura , militante católico corajoso que dizia: “Meu comandante é D. Paulo Evaristo, Mineiro, não tenho outro comandante”.

Dali fui servir como aspirante no 4º Regimento de Infantaria (apelido 4º Reduto do Inferno”).

Tive o privilegio de servir sob o comando dum “chevalier sans peur et sans reproche” Coronel, mais tarde General Euryale de Jesus Zerbini, patriota, nacionalista, erudito e sensível.

Acabei respondendo pelo comando da la. Cia. de Fuzileiros. Aproveitei este período para fazer o trabalho “Serviço Social no Exercito Brasileiro”, para a Faculdade de Serviço Social, da P.U.C de S. Paulo, sob a supervisão do líder democrata-cristão José Pinheiro Cortez. No dia da defesa do trabalho de conclusão do curso , Zerbini que fazia parte da banca, fez blague: “Não sei se lhe dou nota 10 ou mando prende-lo por suas idéias subversivas”. Gargalhou, de nota 10. Quem foi preso mais tarde pela ditadura foi ele, por suas idéias progressistas de um país justo, o marido da extraordinária Terezinha de Jesus Zerbini, jurista e intelectual, que na convenção do P.D.T indicou minha pré-candidatura a senador pelo Movimento Feminino e Negro do partido.

Tudo isto e muito mais que fica para outra oportunidade para dizer que nos anos de formação entendi e aprendi a distinguir o homem que usa arma por contingência e o homem que usa arma por covardia.

E assim sendo, abrem-se as cortinas:

 

Take 3

 

GÊNESES

 

 

O Batalhão de Operações especiais (BOPE), criado em 1978 começou com o treinamento de 30 policiais cariocas pelo Exercito.

 

 

 Take 4

 

DIAGNOSTICO

 

Caim matou Abel e não morava em favela.

 

 

Take 5

 

PROGNÓSTICO

 

Quando o Baiano pede para manter a face, quer viajar ao Indizível com sua  identidade.

Matias quer a viagem para o Inconcebível – o Mal sem expressão.

 

 

 

Ronald Reagan, presidente dos E.U.A, Arnold Shwarznegger governador da Califórnia, mais de 100.000 intervenções  na internet  sugerem  - Wagner Moura (Capitão Nascimento) para presidente do Brasil.

 

 Take 7

 

 

- Estamos reunidos aqui para uma discussão franca e livre, ouvir quem queira falar.

- Matias – Já tentei numa aula da Faculdade explicar que não é possível a simplificação do problema . Nem toda policia é corrupta e violenta,ma acabei me ferrando. Aliás, quem se ferrou mesmo foi o Neto, cara limpo, descente.

- Baiano – Num tem cara limpo na policia, quem põe limpeza no morro é nóis.

- Capitão Nascimento – Homem de preto – qual é a sua missão? Entrar pela favela e deixar o corpo no chão.

- Baiano – Num entra no Leblon?

- Nascimento – Não tem conversa com bandido. Homem de preto, o que é que você faz? Eu faço coisas que assustam Satanás.

- Satanás é o Baiano que traz o diabo na cocaína, na maconha, na desgraça, na conversa.

 

 

- Qualquer um – mas a tortura  a sacanagem contra a gente e até no treino contra vocês.

- O que resolve é o Caveirão (voz do fundo). Guerra é guerra.

- Senhores,tentemos encontrar uma solução para aliviar o sofrimento de todos.

-Rosana – Vamos embora. Já passou da hora.

 

 

 

 

 

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PROGRAMA DISC DEBATE

 

APRESENTADOR – PAULO MARKUN

 

CONVIDADOS ESPECIAIS:

 

DOUTOR JACOB PINHEIRO GOLDBERG – PSICOLOGO

PADRE HUMBERT LEPARGNEUR

DOUTOR ROBERTO BRÓLIO – MÉDICO E ESPÍRITA

VALENTIM LORENZETTI – JORNALISTA E DIRETOR DO CVV

DOUTOR SERGIO PERAZZO – PSIQUIATRA PSICODRAMATISTA

DOUTOR OSVALDO GIANOTTI FILHO – PRESIDENTE ASSOCIAÇÃO                       PAULISTA DE MEDICINA

 

TEMA EM DEBATE - EUTANÁSIA

                         

 

PAULO MARKUN - Eutanásia, sem dor e sem sofrimento. Um tema polêmico, até mesmo nos países desenvolvidos, já que a eutanásia não é permitida expressamente em nenhum país. Seus defensores alegam motivos humanitários, e seus críticos também. Em uma pesquisa feita aqui em São Paulo há alguns anos provou que até a população de São Paulo está dividida. Alguns são contra, e outros a favor. Por isso nós reunimos aqui três pessoas a favor e três contra a eutanásia. A favor estão, o psiquiatra Sérgio Perazzo, o psicólogo Jacob Pinheiro Goldberg e o médico Osvaldo Gianotti Filho, presidente da Associação Paulista de Medicina. E contra a eutanásia está o padre Humbert Lepargneur, o jornalista Valentim Lorenzetti, diretor do Centro de Valorização da Vida (CVV) , e o médico espírita Roberto Brólio.

O Disc Debate começa em um minuto, mas você pode votar desde já. A favor da eutanásia o telefone é 200 10 11. Contra a eutanásia, 200 20 12. Voltamos já, já.

 

PAULO MARKUN - Com uma rodada de posições contra e a favor da questão que está sendo discutida. Como nesse caso da eutanásia primeiro é necessário se definir claramente o que significa essa prática que, de um jeito ou de outro, já foi adotada nas Ilhas Fiji, entre os povos escandinavos, entre os sardos e outras regiões do planeta, eu queria dar primeiro um pequeno tempo para que o Doutor Osvaldo Gianotti Filho fizesse essa definição, ele está na bancada de quem é a favor da eutanásia, e colocasse a questão de um modo mais geral, até para facilitar a votação dos telespectadores, que já está 169 a favor da eutanásia e 115 votos contrários. Doutor Osvaldo.

 

DOUTOR OSVALDO GIANOTTI FILHO - Perfeito. Aliás, na própria definição que reside a maior dificuldade, porque com freqüência existe muita distorção. Então, como você colocou, “tantus” é uma palavra de origem grega, e acabou tendo o significado de morte. E o “eu”, prefixo da palavra seria o normal, o bom. Então a composição dessa palavra, eutanásia, seria “boa morte”. Entretanto, na forma como ela vem sendo aplicada, ela foi descrita, pela primeira vez ela foi utilizada por um filosofo inglês, Francis Bacon, no século XVII. E a partir daí, surgiram várias distorções. E isto tem sido um encrave na maior na discussão maior do tema porque, inclusive, chega a se misturar, muitas vezes, com atuações ou com atitudes do tipo da eugenia. Estamos usando umas palavras complicadas, mas a eutanásia é chamada eugênica, que seria, no caso, exteriorar a espécie, que defenderia desse tipo de eutanásia, dependeriam disso.

PAULO MARKUN - Quer dizer, a aplicação da eutanásia pra crianças nascidas com alguma formação ou coisa ..... física.  

 

DOUTOR OSVALDO GIANOTTI FILHO - Até chegando a ter assim, absurdos, como posição dentro da sociedade, aliás, Platão defendia isso. Platão defendia isso, Platão, ele era a favor da eugenia Um dos exemplos dentro da história da humanidade de uma pessoa preferir a eugenia, mais ou menos então misturando. Então por isso que a eutanásia tem tido muito bloqueio na sua discussão. Para nós, médicos, a importância dessa discussão, hoje principalmente, é em função da evolução do aspecto de tecnologia, o que permite, o que traz situações em que pacientes ficam praticamente só com sua vida determinada por uma máquina que está funcionando, ou seja, ele não tem mais o poder inclusive de sobreviver em determinadas situações. E não que, com a defesa da eutanásia nós estejamos defendendo esses pontos fora, mesmo o aspecto da chamada morte por piedade, a morte piedosa, que é um outro aspecto da eutanásia, principalmente, agora, já em tempos mais modernos, por volta do século XVIII, século XIX, e mesmo na atualidade, alguns autores defendem a chamada eutanásia por piedade, ou piedosa, que seria a morte em que, uma pessoa com extremo sofrimento e em uma situação considerada incurável por quem a está examinando, essa pessoa então poderia ter aliviado as suas dores pela morte. Esse princípio também não é o principio que nós julgamos correto para a discussão, para uma discussão nesse momento atual.

 

PAULO MARKUN - Quer dizer, em suma, que o senhor considera que a discussão importante é até onde deve, o médico, o profissional, as pessoas envolvidas e até a família é envolvida no caso de um chamado paciente terminal, aquele que está num limite entre a vida e a morte, levar a manutenção artificial dessa vida?

 

DOUTOR OSVALDO GIANOTTI FILHO - Exatamente. Que é o que ocorre hoje com certa freqüência, o paciente, ele não tem mais o controle, o seu organismo, os seus órgãos, não têm mais como mantê-lo vivo e esse paciente então passa a ser sustentado por uma máquina, ou no fim, por condições altamente artificiais, e isso não é possível ainda pela lei vigente.

 

PAULO MARKUN - Ta certo, então eu gostaria de saber se essa explicação está clara para a bancada contrária.

 

PADRE HUMBERT LEPARGNEUR - Não, não está clara para mim. Pra mim o que diz o Doutor Osvaldo é a posição de alguém que está contra a eutanásia, e não a favor. Quer dizer, a manutenção artificial da vida vegetativa, quando não há mais consciência de uma maneira irreversível, cortar os aparelhos não é eutanásia, de jeito nenhum. No caso de morte cerebral comprovada, porque a vida da pessoa não tem mais futuro. A meu ver a legislação não proíbe isso. Então a manutenção artificial...

 

DOUTOR JACOB PINHEIRO GOLDBERG - Dá licença, mas a legislação, ela não fixa determinadamente esse ponto de irreversibilidade, ao qual o senhor mencionou.  Não existe, eu desconheço, pelo menos na legislação brasileira inexiste isso.

 

PADRE HUMBERT LEPARGNEUR - Mas...

 

DOUTOR OSVALDO GIANOTTI FILHO - Em um outro aspecto, desculpe padre, com relação a quem é o responsável por desligar esse aparelho, quem assume a responsabilidade, esse é um ponto que precisa ser discutido, é a família, é o médico, é um juiz que decide?

 

PAULO MARKUN - Bom, pelo o que eu estou vendo, é um tema que não é só polêmico como é altamente complicado, então, eu acho que a gente poderia tentar, em primeiro lugar, estabelecer uma área de discussão para que a discussão não vá caminhando a torto e a direito e a gente não consiga atingir alguns objetivos.

Pelo que eu posso repreender, o que nós vamos discutir aqui como eutanásia seria métodos de eliminação de formas artificiais de manutenção da vida, dentro de hospitais ou em situações de fim de vida mesmo de pacientes acompanhadas por médicos e até que ponto isso é legítimo e ético e até que ponto não é, porque se não, nós vamos ficar discutindo o que é eutanásia e o que não é eutanásia e não é exatamente o objetivo.

 

ROBERTO BRÓLIO - Eu acho que esse conceito é muito importante, quer dizer, eutanásia é dar a morte a um indivíduo, a um doente reconhecidamente incurável que está padecendo com fortes de dores ou em fase de grande sofrimento, quer dizer, eu acho que esse conceito é fundamental. E é o conceito que está estabelecido na legislação civil, que é um homicídio piedoso.

 

PAULO MARKUN - Quer dizer, a legislação brasileira considera isso o que?

 

ROBERTO BRÓLIO - A legislação brasileira considera a eutanásia um homicídio piedoso, e quem cometem a eutanásia está sujeito a julgamento, de acordo com a lei, e tendo atenuantes cabíveis em cada caso.

 

PAULO MARKUN - Eu vou fazer uma sugestão para a gente tentar encaminhar o debate, porque eu acho que ele patina numa questão secundária, e como nós temos médicos nas duas bancadas, eu levantaria a seguinte questão: Do ponto de vista da ética médica, é justo se fazer o impossível para manter uma pessoa com vida e qual é o limite pra que isso seja feito? Acho que com isso, estabelecendo isso, a gente encaminha o debate mais facilmente.

 

DOUTOR OSVALDO GIANOTTI FILHO - Pois é, esse é um dos pontos, inclusive estou com o código de ética aqui, e este é um dos pontos que ele, mesmo dentro do código, ele apresenta certo grau de subjetividade, ele vai levando a discussão até o ponto extremo. Então nós temos aqui uma situação, o médico, o artigo 57 do código de ética. “O médico não pode contribuir direta ou indiretamente para apressar a morte do doente.”

 

PAULO MARKUN - Está claro, né?

 

DOUTOR OSVALDO GIANOTTI FILHO - Então este é um arquivo que fica bem claro dentro da discussão, agora isto não resolve aquela situação que eu coloquei inicialmente, porque o aspecto da dor, do sofrimento, eu acredito que hoje, a medicina, ela tem condições de evitar, ou seja, isso, que na antiguidade, pode ter sido discutido, há algum tempo atrás, como uma forma de eutanásia, hoje no meu modo de ver não tem cabimento, quer dizer, a pessoa, a dor da pessoa é aliviada e nós temos recursos dentro da medicina para aliviar essa dor evitando que a pessoa tenha um sofrimento por dor até atingir a morte. Então, desse tipo de, vamos dizer, abreviar a vida, nessa situação, nós acreditamos que isso é até uma boa norma dentro do trabalho médico hoje.

 

JORNALISTA VALENTIM LORENZETTI - E tem um aspecto também subjetivo aí, tem indivíduo que suporta mais a dor, outro suporta menos, isso também é muito pessoal, muito subjetivo também. Existe isso também.

 

PAULO MARKUN - Bom, definidos alguns caminhos, eu queria colocar a pergunta para as duas bancadas, para se definirem e até para a gente entender quais são as diferenças de posição. Então, padre, porque o senhor é contra a eutanásia?

 

PADRE HUMBERT LEPARGNEUR - Eu acho indispensável distinguir a eutanásia como a ação que vai terminar a vida de alguém, da própria pessoa, e omissão, sobre a questão da manutenção artificial da vida, para nós, existe um problema que, para os moralistas católicos, não tem problema nenhum. Desde 57, o para piedosos, em 57, diz que não há obrigação de usar meios excepcionais. E mais recentemente, numa carta do  Cardeal Vidor, Secretário do Estado, em nome do Papa, em 70, diz, escreve: “Em muitos casos, não seria uma tortura inútil, impor a reanimação vegetativa, na ultima fase de uma enfermidade incurável, deve a medicina combater a dor, e não prolongar a qualquer custo a vida vegetativa”. Então, eu não conheço moralistas cristão, que defenda realmente a continuação vegetativa de uma vida que não tem mais consciência, nem futuro.

 

PAULO MARKUN - Doutor Jacob, o senhor fez uma pesquisa aqui em São Paulo com mais de mil pessoas em relação à morte, e nessa pesquisa, há um índice bastante elevado que eu poderia consultar aqui, eu não sei se eu tenho de cabeça esses números, mais eu creio que são 34% em relação à eutanásia. Você é favorável a eutanásia, 34% dos pesquisados foram favoráveis e 24,33%, ainda com um índice bastante elevado de 36,5% que dizia depende, indica que alguns casos se admitem. Por que o senhor é a favor da eutanásia?

 

DOUTOR JACOB PINHEIRO GOLDBERG - É preciso fazer uma reflexão a respeito do conceito de morte. O conceito de morte na civilização ocidental, ele é apresentado, com uma conotação de horror. Eu acho que desmistificar essa idéia de horror e a compreensão da morte como um elemento da própria vida, um elemento incidental da própria vida, como uma condição de irreversibilidade da existência do homem, é essencial para nós perdermos o medo elevado à patologia em termos da perda da auto-referência. O homem só é vivo enquanto ele é o sujeito. Em relação, em relação com ele mesmo, em relação com as outras pessoas. Mesmo quando eu pensava em vir aqui pro programa hoje, eu fiz uma anotação, de que eu sou contrário a distanásia. A distanásia é a morte terrível, com dores cruéis e lentas. E eu me lembrava de um caso, eu precisava trazer algum exemplo que fosse um exemplo de um elucidativo e corajoso pra uma sociedade que se quer inteligente e hábil, como é a sociedade brasileira hoje, que não pode se inferiorizar ou se minimizar em relação a quaisquer outras sociedades, as mais sofisticadas, e eu me lembrei daquele homem, que pra mim é um exemplo extraordinário de lucidez. Que é Sigmund Freud. Quer dizer, Freud morreu num processo de eutanásia, segundo o biógrafo de Freud, Ernest Jones, eu estou aqui com um texto, ele é considerado o melhor biógrafo de Freud, “foi através de uma injeção aplicada e resolvida em comum acordo com Freud e o seu médico, que ele terminou a vida dele com serenidade e coragem, sem a humilhação rastejante e terrível da distanásia”. Eu acho necessário que nós possamos ter a coragem, em uma sociedade aberta, e plural de discutir essas questões com serenidade, mesmo porque a qualquer instante nós estamos sujeitos a nos transformarmos num objeto passivo de uma decisão política e biológica a respeito da nossa existência sem que sequer nós possamos ser ouvidos. Eu acho está a maior das violências em relação à questão da minha morte. Eu quero poder ser ouvido se for possível, a respeito da minha morte, como eu quero poder resolver todas as questões da minha vida.

 

PAULO MARKUN - Jornalista Valentim Lorenzetti, o senhor como diretor do Centro de Valorização da Vida, é, seguramente, contra a eutanásia.

 

JORNALISTA VALENTIM LORENZETTI - É realmente, eu até me sinto meio deslocado aqui, porque estou no meio de médicos, de especialistas.

 

PAULO MARKUN - A intenção do debate é justamente de ser um debate plural.

 

JORNALISTA VALENTIM LORENZETTI - Ah, que bom. E eu sou um leigo nesse aspecto, eu tenho a vivência de 18 anos trabalhando no CVV, ouvindo pessoas em desespero, ouvindo indivíduos até numa fase terminal de vida. E pela experiência que a gente vai adquirindo no contato com essas pessoas, no ponto de vista leigo, apenas de amigo, que nós prestamos no CVV, percebe-se que em qualquer situação, mesmo nas situações mais dolorosas, a vida apresenta uma experiência pro indivíduo, ele está sob um tipo de experiência que, pra ele, é construtiva. A partir do momento em que nós oferecemos um apoio de amizade, um apoio moral, que oferecemos a ele todo um certo carinho, um calor humano, ele começa a se reconstituir, a se reconstruir. Por isso eu percebo que, eu pessoalmente, devo ser contra a eutanásia, porque todos estamos num processo de experiência e aquilo que eu, com o meu ponto de vista, considero dor insuperável, pro outro, a partir do momento que eu compreendo ele, passa a ser uma dor suportável. Por isso que eu sou contra.

 

PAULO MARKUN - Psiquiatra Sérgio Perazzo, por que o senhor é a favor da eutanásia?

 

PSIQUIATRA SÉRGIO PERAZO - Olha! Eu me sinto assim, pouco à vontade nessa bancada, porque eu entendo que é um debate tão complexo que a gente não pode ficar numa posição tão polarizada de ser contra ou a favor. Eu acho que existe muita ignorância. E essa questão da eutanásia, para mim, se insere numa dificuldade mais geral e maior, que é a dificuldade do povo ocidental de lidar com a morte hoje. Se a gente pensar que o homem, no passado, ele escolhia a forma de morrer, na medida que ele podia morrer cercado das pessoas da sua família, por exemplo, coisa que hoje em dia, fica cada vez mais difícil, à medida que as pessoas morrem, cada vez mais em hospitais, e muitas vezes isoladamente, em Unidade de Terapia Intensiva, eu penso se a gente tem o direito de determinar como uma pessoa deve morrer ou não, eu estou falando assim, do ponto de vista do médico, por exemplo, ou se a gente deve devolver ao homem a possibilidade de ele poder escolher os caminhos dele. Então, no que foi discutido até aqui, essa questão da omissão, que o senhor levantou, Padre, em termo da eutanásia, é algo que, para mim, deve ser compartilhado com as pessoas que cercam o indivíduo que está cercado de aparelhos artificiais e está em vida vegetativa.

 

PAULO MARKUN - Muito bem, Doutor Osvaldo Gianotti, o senhor só fez a explicação genérica, não colocou claramente a sua posição.

 

DOUTOR OSVALDO GIANOTTI FILHO: - Eu acho que é importante também lembrar que essa discussão é muito importante no início do levantamento desse problema neste país. Mesmo porque esse não é um problema da atualidade, pelo tipo de população que nós temos, ainda temos uma população muito jovem, nós ainda temos aproximadamente um terço dessa população, ou mais, que não tem a menor possibilidade de uma assistência médica, portanto não vai ter nem a possibilidade, se tiver em condições de morrer de poder nem ter idéia do que é isso, e os dois terços que têm acesso a essa assistência médica, só uma pequena porcentagem vai cair no problema da eutanásia. Agora, o problema da dor, como foi levantado aqui, eu acho que sim, no meu modo de ver a dor não é um dos fatores com relação à eutanásia, ou seja, a dor ela deve ser retirada, ela deve ser combatida com os analgésicos, com tudo o que for necessário para evitar as questões psicológicas.

 

PAULO MARKUN - Mas as questões psicológicas são o seguinte, porque assim, sempre a dor ou a sensação de total desconforto significa dor física, o fato de a pessoa estar presa num leito, numa Unidade de Terapia Intensiva, por exemplo, cheia de maquinas ligadas a ela, é uma situação de dor não física.

 

DOUTOR OSVALDO GIANOTTI FILHO - Perfeito, mas esse é exatamente o ponto em que eu estava colocando na apresentação inicial, aí é que eu acho que é o ponto, e o que falta da definição do nosso meio é quem tem a responsabilidade de desligar a máquina, e aí, como o padre concorda, eu acho que esse é um ponto importante porque para a mesma bancada que está numa posição contrária, vamos dizer, eu também acho muito importante essa posição que foi colocada de que é uma discussão difícil, mesmo nós, que estamos colocados assim, quer dizer, quem está do lado do sim e quem está do lado do não, é o começo de uma discussão.

 

PAULO MARKUN - É porque o fim dessa discussão certamente vai ser, algum dia, um projeto de lei, que terá que ser por alguém defendido, e por outros criticados e finalmente, votado. Ainda que se defina...

 

DOUTOR JACOB PINHEIRO GOLDBERG - Eu gostaria de nos lembrar que quando você falou da legislação, por curiosidade, que existiu no código penal soviético de 1922, rezava o código penal “O homicídio cometido por compaixão a pedido de quem é morto está isento de pena”. É curioso porque foi uma das tentativas revolucionárias de se rever à questão da morte e da decisão histórica do sujeito de por fim à sua vida.

 

PAULO MARKUN - Posteriormente isso caiu.

 

DOUTOR JACOB PINHEIRO GOLDBERG - Caiu.

 

DOUTOR OSVALDO GIANOTTI FILHO - Eu tenho uma pergunta para fazer ao padre, porque, nessa linha, da discussão, e eu acho importante com a presença aqui do psicólogo e do psiquiatra, a extrema unção, que é um ato em que o paciente vai receber o que deveria ser um conforto, mais eu acho que todos nós, se, numa situação de doença, numa situação grave, a presença desse padre no ato da extrema unção, isso, no ponto de vista psicológico, não seria um caminho, vamos dizer assim, pra essa eutanásia, que conforto isso poderia representar?

 

PADRE HUMBERT LEPARGNEUR - Sim, eu tenho vários pontos, vou começar pelo último. A extrema unção deve ser dar normalmente a pedido, todo o sacramento é um ato voluntário da pessoa, livra, então se a pessoa quer, a gente não deve impor a extrema unção na pessoa, de jeito nenhum. Agora, dizendo que a dor não tem relação com a eutanásia, não. A dor pode e deve ser aliviada para quem não a suporte, em geral, a administração de fortes doses de calmantes e analgésicos, sobretudo, derivados do ópio, os mais enérgicos, têm como conseqüência, não como fim, atenuar a consciência e abreviar a vida, então o problema é saber se a gente tem eticamente o poder de atenuar a consciência de modo que a gente morre na inconsciência, quer dizer, escapam os últimos momentos de lucidez e segundo deve abreviar a vida, então, sobre isso, os papas e os moralistas católicos são unânimes e  dizem que sim, mesmo se um analgésico atenua a consciência e pode abreviar a vida, a pessoa pode receber analgésicos. Segundo, a distanásia, a distanásia é a obstinação terapêutica, então dizer “combater a distanásia” é o mesmo que dizer “eu estou a favor da eutanásia passiva em certas circunstâncias”, o que a posição católica tradicional.

 

DOUTOR JACOB PINHEIRO GOLDBERG - Eu gostaria de dizer o seguinte, o padre colocou um problema que me parece extremamente oportuno, na minha opinião, jogar para a sociedade, e é altamente polêmico, e eu tenho consciência de quanto é polêmico, mas também tenho consciência de quanto é necessário pensar e repensar essa questão. Um dos livros mais impressionantes tem um texto belíssimo a respeito da morte de Aldous Huxley. Eu acho que independente da opinião de todos nós, todos nós respeitamos o esforço de lucidez de Aldous Huxley. Aldous Huxley, na hora de sua morte, ele pediu à sua mulher, quando ele percebeu, teve a consciência de que estava morrendo, ele percebeu que fosse aplicado a ele um tipo de alucinógeno capaz de fazer o contrário, quer dizer, ao invés de atormentar a consciência, através da diminuição da dor, ele já havia solicitado que fosse aplicado a ele um tipo de alucinógeno capaz de motivá-lo extraordinariamente em termos de vivências psíquicas porque ele queria poder entrar na morte com absoluta consciência, ao invés de fazer o processo inverso. Eu acho esse um dos grandes exemplos de visionário e de homem que tem uma experiência de futuro, que abre uma perspectiva diferente.

 

PAULO MARKUN - Senhor Jacob, eu vou pedir licença, por duas razões, a primeira é que houve um problema técnico no nosso Disc Debate e a bancada contrária à eutanásia o marcador parou de contar num dado tempo, então nós vamos zerar a partir de agora e começar de novo para que a votação não fique desigual. E em segundo, dizer que o Disc Debate volta em um minuto, depois dos comerciais.

 

PAULO MARKUN - O senhor ia pedir a palavra?

 

PADRE HUMBERT LEPARGNEUR - Sim

 

PAULO MARKUN - Pois não.

 

PADRE HUMBERT LEPARGNEUR - Só três pequenos pontos: O grande teólogo Alemão Karl que morreu há pouco, pensava que a morte devia ser um momento supremo de vida, queria dizer a morte de grande lucidez. Embora ele acha que prepara a morte toda a vida, então se não preservar a morte com a maior lucidez. Nós todos somos a favor da morte humanizada, só que alguns pensam aqui que é mais humano não sentir nada e não ter consciência e outros pensam que é melhor ter alta consciência, mas do mais subjetivo. Agora o problema concreto é que o moribundo, em geral, não está em condição de decidir sobre si. E por isso que um dos problemas delicados da matéria é a transferência da responsabilidade, quer dizer, em certos países, esses convênios pelo qual uma pessoa pede que quando suas forças diminuírem e quando for sofrendo, irreversível, e se tiver uma doença, ela pede que é para matá-la, então que um amigo, um médico ajude para abreviá-la. Mas estamos aqui caindo na história do bispo que pede ao Vigário Geral “Eu peço ao senhor, quando eu vou decair, quando eu não dirigir mais a diocese, disser besteiras no sermão, por favor me avise, e eu vou me demitir”, então depois de alguns anos o Vigário Geral. “Senhor Bispo, eu acho que é o momento realmente de pedir, de renunciar” . A reação do Bispo não renunciou mas demitiu seu Vigário Geral, ele diz “Muito bem, o senhor foi franco e eu pedi ser franco, mas eu demito o senhor por falta de juízo” Quer dizer, receber a incumbência de julgar o lugar de outra pessoa é delicado, porque você pode fazer isso um pouco antes ou um pouco depois. Então é difícil julgar para si, mas ainda mais para os outros, mas isso é realmente a eutanásia. Agora cortá-la num processo de desmerecência irreversível que só faz sofrer, isso não há problema.

 

PAULO MARKUN - Eu só queria colocar em discussão antes que a gente... pois não?... claro!

 

ROBERTO BRÓLIO - Eu queria fazer um pequeno aparte para o padre, contando um caso particular. Uma cliente ficou em estado de coma durante um mês, praticamente. Inconsciente, em estado vegetativo, como o senhor prefere, ela ficou neste estado, mas se lembrando de tudo e reconhecendo tudo, e ela disse “o único sofrimento meu é que ninguém me dava esperança” e depois de uns 30 dias de doença ela recuperou e está viva. Então que direito nós temos de interromper a vida, mesmo que vegetativa? A vida é um direito natural, a lei natural manda que respeitemos a vida num todo e em parte, por mais precária que seja. Logo que este é um princípio básico, e o professor Nelson Hungria, ele completa dizendo “é bom que assim seja, que a morte possa agir sozinha, sem cúmplices, sem colaboradores”. Eu acho que a morte tem este privilégio, de agir sozinha, porque nós, nós não sabemos nada sobre a vida, não sabemos nada sobre a morte. Sabemos que a vida é um milagre, é um milagre da própria vida, mas como é que nós vamos dispor da vida, se nós não conhecemos a vida na sua totalidade? Eu acho que esse é um princípio fundamental.

 

DOUTOR JACOB PINHEIRO GOLDBERG - Eu acho um pouco radical essa colocação de nós não sabemos nada a respeito da vida e nada a respeito da morte

 

ROBERTO BRÓLIO - Eu quero saber se.. Bom, eu sei que eu não sei nada, nem da vida nem da morte.

 

DOUTOR JACOB PINHEIRO GOLDBERG - É possível, eu respeito a sua opinião, e é possível que o senhor não saiba, mas todo o esforço da civilização e da cultura é para ter consciência da vida e da morte.

 

ROBERTO BRÓLIO - Eu sei. Mas quem sabe nós concedemos, mas não sabemos?

 

DOUTOR JACOB PINHEIRO GOLDBERG - Qual é a diferença de concepção e sabedoria?

 

ROBERTO BRÓLIO - Concepção é um princípio filosófico, se concede à vida...

 

DOUTOR JACOB PINHEIRO GOLDBERG - Não, os dois são uma elaboração intelectiva.

 

ROBERTO BRÓLIO - Não, não, não. São uma elaboração intelectiva, mas um é conceder e o outro é conhecer. Você não conhece a vida, não conhece a morte. Doutor, você não sabe por que nascemos, porque vivemos e porque morremos.

 

DOUTOR JACOB PINHEIRO GOLDBERG - O senhor, além de afirmar pelo senhor, parece que afirma por mim também. Eu acho um esforço sim, de conhecimento. É esta a característica do processo científico. Nós não podemos nos ausentar e desertar, principalmente quando está em jogo à angústia, o desespero, a dor, e o medo absolutamente sem limite, que é o medo da morte.

 

PAULO MARKUN - Doutor Sérgio, tinha pedido a palavra antes do comercial.

 

DOUTOR SERGIO PERAZZO - É, eu queria voltar um pouquinho, a uma coisa que você falou, não é, Gianotti, que é a questão de quem desliga o aparelho. Para mim é claro que qualquer decisão nesse sentido é uma decisão que só pode ser compartilhada com outras pessoas, de modo que, eu vejo assim, desligar o aparelho é um ato de mais de uma pessoa. Então dentro do que o senhor está dizendo também, eu me pergunto: se a gente mantém uma pessoa em vida vegetativa com aparelhos artificiais, se a gente também não está impedindo que o curso natural da vida e a morte vindo de uma forma natural, uma pergunta, e outra coisa assim, eu acho que essa questão da morte, que foi levantada pelo senhor, em termos assim, da extrema unção, eu acho que remete a gente à uma questão anterior. É a questão da falta de preparo do médico inclusive, de poder lidar com a morte, então, quando a gente tem uma preocupação com o padre que vá dá uma extrema unção, se isso é um conforto ou não é, quem dá esse conforto. Eu acho que a gente exige uma mentira na medida em que engana um doente, que não se conta a um doente, por exemplo, que ele tem câncer, existem vários estudos, assim, que mostram com muita clareza que crianças desenganadas sabem perfeitamente que vão morrer. Se crianças sabem que vão morrer, porque é que um adulto não sabe? Então na verdade, assim, a formação médica é uma formação que é dirigida de tal forma em que a morte não tem lugar no currículo médico. Por que é que não tem? Por que é que uma pessoa moribunda precisa de um padre para dar o conforto na hora de morte, e não o médico, que está preparado para isso e junto com a família?

 

DOUTOR OSVALDO GIANOTTI FILHO: - Eu vejo assim, que o caminho que a gente pode traçar, é um caminho de a ampla discussão sobre a morte, que tragamos todos nós assim a compartilhar a morte, a morte voltar a ser algo inserido na vida, como ela é.

 

DOUTOR SERGIO PERAZZO - Deixa eu dar um complemento?

 

PAULO MARKUN - Os três querem dar, podem dar os três.

 

DOUTOR JACOB PINHEIRO GOLDBERG - Então, eu fico em quarto.

 

PADRE HUMBERT LEPARGNEUR - Lidar com o moribundo e sempre lidar com a própria morte. Isso é sempre uma prova pessoal. Conhecendo pessoas que tiveram papel de padre e de enfermeiro e do médico, e comparando os dois, porque ele fala dos dois em situações diversas, eles me disseram sempre que é mais fácil ser padre do que médico, porque para o médico, a morte significa um fracasso na vida da medicina. Ao passo que há uma prova de esperança em Deus, que na religião tem outra base. Agora quem desliga o aparelho, normalmente é um consenso da família e do médico. Há normalmente um consenso. Mas, à medida que isso é feito, há mais um terceiro, que é quem paga. Quem tiver que pagar também tem que dizer a sua palavra, quer dizer, são dias muito caros. A respeito da questão que você me fez, sobre a manutenção artificial da vida vegetativa, não existe mais problema moral no caso de morte cerebral comprovada, morte cerebral comprovada não há problema nenhum desligar. Enquanto no caso, por exemplo, de Karen Ann, em 76, a morte cerebral não foi comprovada. Então não há discussão possível.

 

PAULO MARKUN - Quer dizer, é esse caso que eu queria abordar em discussão, se me permitem, para a gente encaminhar esse debate para frente, é bom a gente recordar a história. Essa moça entrou em estado de coma em 1975, chama Karen Ann Quilan, e vive no Hospital Morris Hill Nursing Home, ela ingeriu uma substância que acredita-se que seja uma droga misturada com álcool e entrou em estado de coma. Católica praticante, como a família toda, ela precisou de uma permissão do Tribunal de New    Jersey, nos Estados Unidos, para que a família pudesse retirar os aparelhos que a mantinham viva, aparelhos de respiração artificial que a mantinham viva, e se imaginava que quando retirasse os aparelhos ela falecesse, e não foi o que aconteceu, ela continua viva, completou 30 anos, e continua em estado de vida vegetativa. A família é a favor desse movimento chamado “Direito à Morte”, portanto, a favor da eutanásia, mas não decidiu ainda retirar os tubos de alimentação que mantém Karen viva. O que eu queria colocar um pouco em debate era isso, quer dizer, imaginarmos aqui que nós tivéssemos o poder de decidir sobre essa moça, se retiraríamos esses tubos de respiração artificial em primeiro lugar, e em segundo lugar se retirariam esses tubos de alimentação.

 

DOUTOR JACOB PINHEIRO GOLDBERG - Por paradoxal que possa parecer, eu gostaria de dizer que se tivesse que votar, eu votaria no sentido de não ser retirado.


PAULO MARKUN - Por quê?

 

DOUTOR JACOB PINHEIRO GOLDBERG - É paradoxal, mas eu acho que guarda uma lógica. Em minha opinião, o processo de eutanásia só pode ser admitido, quando, para o próprio objeto do processo de morte o prosseguimento visto que a gente poderia chamar de manifestação de vida fica absolutamente insuportável, a critério e juízo da família e do médico. Eu não saberia dizer, mas tudo me leva a acreditar que não é exatamente este caso. Quer dizer, que neste caso existe uma manutenção de vida colocando e me apoiando e me amparando nas palavras do Doutor Gianotti, em que a dor é mitigada, que a dor é posta de lado, quer dizer, que a medicina tem recursos suficientes para evitar o processo de dor. E neste caso, não.

 

DOUTOR OSVALDO GIANOTTI FILHO - Só uma pergunta, com a retirada do aparelho de respiração artificial, eu acho que, ponto pacífico que deveria ter sido retirado, inclusive isso como foi a julgamento. Estava-se nítido que essa paciente estava sendo mantida através de uma respiração artificial, e que ela não teria condições de ficar sem o aparelho, a retirada desse aparelho, como foi pedida pela família e como foi julgada procedente pelo juiz, eu acho que é válida. Aí eu seria favorável, agora, após isso, o fato de ela ter continuado viva, necessitando de uma alimentação, porém exatamente nesse aspecto, sem sofrimento, sem dor, e sendo possível se manter eventualmente tendo a possibilidade de recuperação eu acho que também pode parecer paradoxal, mas eu concordo

 

DOUTOR SERGIO PERAZZO - Eu concordo inteiramente com isso também. Eu jamais teria coragem de tirar os tubos de alimentação como médico, nunca.

 

PAULO MARKUN - Bom, então vamos deixar restrito aos da respiração.

 

JORNALISTA VALENTIM LORENZETTI - E com o avanço da ciência ainda preso a esse caso Karen Ann, com o avanço da ciência não é possível que daqui a algum tempo algum medicamento ou alguma tecnologia nova que possa reabilitá-la .

 

PAULO MARKUN - Eu faço uma pergunta apenas para provocar, o meu objetivo aqui não é tomar partido aqui de maneira nenhuma, o senhor não acha, talvez, que o que se gasta mantendo vivos esses pacientes terminais poderia significar na verdade, um investimento no sentido de se eliminar os índices de mortalidade infantil, para dar um exemplo bom para o Brasil.

 

JORNALISTA VALENTIM LORENZETTI - Eu também faço uma outra colocação, você não acha que as pesquisas que se fizerem para reativar esses elementos talvez não pudessem também descobrir outros medicamentos que viesses a mitigar a dor de muitas outras pessoas?

 

JORNALISTA VALENTIM LORENZETTI - Eu acho que também tem duas faces, eu acho que a partir do momento, estão pesquisando alguma coisa, pra fazer voltar à vida plena um individuo, nós estamos fazendo uma pesquisa muito ampla que não vai só beneficiar não só aquela pessoa, mas uma humanidade.

 

DOUTOR SERGIO PERAZZO - Agora veja, a gente não escapa muito disso, porque se a gente pensar que muito doente mental queimado nas fogueiras da inquisição como bruxo, muitos não eram doentes.

 

PAULO MARKUN - Doutor Roberto pediu a palavra.

 

ROBERTO BRÓLIO - Eu queira citar um argumento do jurista Aníbal Bruno, ele refere que ninguém tem direito de cortar a vida de ninguém, e que a própria vida é um bem individual e coletivo.

 

PAULO MARKUN - Então o senhor não retiraria esses aparelhos de respiração da Karin Ann?

 

ROBERTO BRÓLIO - Eu não retiraria, a eutanásia por si é desumana porque ela é irreversível. E todo o médico, todo o profissional que interromper a vida do semelhante ele está sujeito às leis naturais que regem a vida humana.

 

PAULO MARKUN – Como assim?

 

ROBERTO BRÓLIO – Bom! É a lei do retorno por exemplo, a lei da ação e reação.

 

PAULO MARKUN - Está falando como espírita?

 

ROBERTO BRÓLIO - Como espírita existe uma lei de ação e reação, que está no evangelho “Quem com ferro ferre, com ferro será ferido”. Não é ? E cada um deve pagar centímetro por centímetro por tudo que fez. E também sobre interromper a vida um ponto importante, nós encontramos no próprio evangelho o bom ladrão, Dimas, ele teve um momento de reflexão no último instante da sua vida, e aquilo lhe valeu a salvação, segundo os evangélicos. Nesse modo, nesse momento de reflexão que todos esperamos, que todos queremos, muitas vezes não temos durante a vida toda.

 

PAULO MARKUN – Doutor Roberto só para terminar a entrevista, o senhor além de espírita o senhor é médico. Como médico como é que o senhor justifica ser contrario a eutanásia?.

 

ROBERTO BRÓLIO - Eu me baseio na medicina, medicina é uma arte, uma ciência que nasceu no início dos tempos, se corporificou pelo estudo, pela ciência, pelos avanços até agora, e se enriquece dia a dia. E quais são os preceitos da medicina? Curar, prevenir, mitigar os males e promover a saúde, e transmitir uma esperança ao doente. Todo doente é digno de uma esperança mesmo que esteja em estado grave.

 

PAULO MARKUN – Então o senhor é a favor de não se contar a verdade por exemplo, para o doente.

 

ROBERTO BRÓLIO - Isso depende do doente. Nós temos que contar a verdade, mas nós devemos dar uma esperança, e tudo fazemos para que ele obtenha a cura, e que ele está tendo todos os recursos.

 

DOUTOR JACOB PINHEIRO GOLDBERG - A maior esperança em minha opinião é a realidade da consciência, quer dizer, nós não podemos dar uma esperança que não seja fundamental da realidade. Já disse antes o uma vez o Perazzo, eu concordo inteiramente com ele, que uma criança, de tenra idade, é capaz de ter noção da iminência de sua morte, quanto mais um adulto. Então entregar uma falsa noção de esperança é alimentar a onipotência do homem que um dos grandes males psicológicos da humanidade. A idéia que podemos subsistir e sobreviver em quaisquer circunstancias.

 

PADRE HUMBERT LEPARGNEUR – Eu vejo uma certa contradição na posição do Doutor Roberto, não reanimar causas finais, é deixar a natureza agir conforme suas leis, não  matar, é deixar agir.

 

ROBERTO BRÓLIO – Você tem que dar toda assistência, todo o recurso, esse é o dever do médico. Sempre mitigar as dores, e promover a saúde e transmitir esperança ao doente.

 

DOUTOR OSVALDO GIANOTTI FILHO - Doutor Roberto, eu gostaria de colocar um fator novo, e que até certo ponto é um argumento contrario a posição que o senhor colocou, no aspecto de esperança. Porque hoje nós sabemos que a morte de algumas pessoas, representa esperança para outras, exatamente num setor que a medicina, que a ciência, que o conhecimento humano se desenvolveu, que é problema dos transplantes. Nós vemos filas e filas de pessoas que dependem, por exemplo, a sua visão de um transplante de córnea. Nós sabemos que, um colega nosso, alias, mais uma vez prestando homenagem um dos grandes nomes da medicina Pedro Navo, nós tivemos noticia que ele havia doado sua córnea e infelizmente não foi possível à retirada para que fosse aproveitada em uma pessoa que precisa. O transplante renal também, a milhares de pessoas que precisam de rins para poderem ter uma vida melhor, e que hoje depende de diálise, isso também não deixa de estar relacionado com esse aspecto, por exemplo, de desligar o aparelho, uma situação desse tipo.

 

ROBERTO BRÓLIO – Este problema está muito bem estabelecido na Assembléia da Associação Medica Mundial de Sidney de 1965, que estabelece as regras para transplantes de órgãos. Está bem claro, que os órgãos podem ser mantidos fora do corpo com vitalidade, que eles podem ser retirados. Mas está claro também que a obrigação do médico quando recebe um doente em estado grave, a obrigação primeira é cuidar do doente. Porque nós vemos muitas vezes que o médico preocupado em fazer o transplante, preocupado em realizar um evento que pode ser grandioso para ele, muitas vezes ele é elevado, assim, apressadamente a considerar o doente morto. Por isso que o padre falou bem, é necessário que haja o conceito de vida, não só cardíaca, porque o coração pode parar e tornar a reanimasse, mas também é necessário que haja vida cerebral, isso é muito importante. Mas a obrigação primeira do médico é cuidar do doente, depois que ele morreu então pode tirar o rim, pode tirar a córnea, desde que haja permissão.

 

PAULO MARKUN – Eu vou pedir licença para o senhor, o senhor está me pedindo a palavra. É uma das dificuldades  de organizar esse debate é justamente interrompe-lo. Queria lembrar que até o momento 313 telespectadores votarão a favor da eutanásia, e 191 votaram contra. Quem quiser votar a favor de votar a eutanásia 200 10 11, contra a eutanásia 200 20 12. Disc Debate volta em 1 minuto, depois dos comerciais.         

 

PAULO MARKUN - Estava verificando os números 497 telespectadores votaram no momento a favor da eutanásia, e 424 telespectadores telefonaram para votar contra a eutanásia. Eu queria colocar para as duas bancadas uma questão que me parece intimamente associada a essa da eutanásia, que acho que poderia enriquecer o debate, e esclarecer um pouco mais as posições, que é a seguinte, uma telespectadora Maria Cristina, da Mooca, pede aos senhores que definam como é que os senhores encaram a morte, e como essa questão devem ser discutidas com filhos e com pessoas idosos principalmente. Fica o critério de quem quiser começar.

 

DOUTOR JACOB PINHEIRO GOLDBERG – Bom! Tendo escrito um trabalho sobre psicologia da morte e feito essa pesquisa com mil pessoas, eu acho que o primeiro passo de uma reflexão coletiva é desmistificar a idéia da morte com uma finalidade trágica. Citou o padre, um teólogo, por quem eu tenho um grande respeito, que é o Karl Rahner, e realmente eu acho que a morte pode ser o grande instante espiritual da decisão do ser humano, quanto a um processo terminal, quer dizer, um momento de triunfo e de glória de uma vida realizada. Nós morremos a cada instante enquanto nós frustramos diante da vida, cada perca, cada frustração tem a significância da morte. Nós não podemos emprestar a idéia da morte só aquele vestígio final de posso do corpo não. A vida sobre eleva a morte a cada instante da nossa vida em que nós reconstruímos, isto que deve ser discutido, com todas as pessoas, que a qualquer momento nós podemos morrer, tanto a criança, adolescente ou o velho.

 

DOUTOR SERGIO PERAZZO – Eu acho que a discussão tem que ser franca, porque a morte não pode ser desvinculada da vida de jeito nenhum. A parte do momento que a gente encara a morte de frente, a gente passa a ser capaz de viver os momentos com outras pessoas mais intensamente e de ser capaz de em encontro com outras pessoas. Há pouco o Doutor Roberto se referia assim, uma das atribuições do médico é dar esperança ao seu paciente, penso que dar esperança quando ela é verdadeira. Eu não acho que é o papel do médico dar uma falsa esperança ao paciente quando não existe. O compromisso do médico para mim em primeiro lugar é o compromisso com a verdade na qual ele acredita, com a realidade do homem.

Quanto você estava levantando a questão Paulo, de como a gente pode levar isso para o velho...eu estou me lembrando de um caso assim, parece muito engraçado, de uma senhora que tinha escondido a morte da sua irmã, pela família toda  por muito tempo, até que um belo dia ela veio conversar com uma pessoa da família e disse: Olha, eu sei que está todo mundo tentando me poupar da noticia da morte da minha irmã, você não decepcione as pessoas e não conte a elas que eu sei.

Eu acho que é uma medida assim, que os velhos não pensem na morte.

 

JORNALISTA VALENTIM LORENZETTI - Eu encaro a morte como um processo natural da vida. A partir do momento que nós nascemos estamos caminhando para a morte e a coisa mais certa que existe. Eu acho que descartar a discussão desse problema é bancar um avestruz, isso tem que ser tratado de forma muito natural. Há quinze dias atrás eu li um jornal de Nova York, New York Post com uma matéria interessantíssima, e uma foto impressionante, o ex senador Jacob Javits com 80 anos em uma cadeira de rodas porque ele teve uma esclerose parcial, e sob a cadeira de rodas um aparelho que manda ar, e joga na garganta dele porque ele não pode respirar por causa da doença, e com colete de aço para manter a cabeça de pé, o senador hoje com 80 anos, ele fazendo uma palestra para 120 médicos de uma universidade, em uma faculdade de medicina, não me lembro qual de Nova York, dizendo sobre o valor da vida, como deve-se lutar para viver, falou por meia hora com a voz bastante, como dizia a matéria, bastante audível e ele conclui o seguinte “ Tanto faz nós terminarmos numa doença grave, como terminarmos a vida naturalmente, importante é viver o momento”.

 

DOUTOR OSVALDO GIANOTTI FILHO - O meu ponto de vista é que nós devemos, o aspecto morte ele é decorrente de como nós encaramos a vida, então acho que a melhor forma de se preparar alguém para a morte é se preparar esse alguém bem para viver, com liberdade, com a possibilidade de instrução, com a possibilidade de discussão, enfim, fazer a pessoa crescer dentro da atividade, alias esse exemplo do senador que foi dado é um exemplo típico disso, quer dizer, a pessoa estando preparada adequadamente para a vida, ela estará preparada para a morte.

 

ROBERTO BRÓLIO – Esses conceitos são muito validos mas dependem da concepção de vida. Nossa civilização ainda é de baseada no prazer, nós queremos viver bem, queremos desfrutar todos os benefícios que a vida nos dá.

 

PAULO MARKUN – O senhor é contra isso?

 

ROBERTO BRÓLIO – Eu não sou contra, eu respeito, eu sou de parecer que a vida tem outro significado, significado útil, você só é importante para você mesmo quando você respeita seu organismo, quando você age a seu favor, e quando você é útil à coletividade, eu acho que isso é muito importante.

 

PAULO MARKUN – Mas será que ser útil à coletividade não pode ser um prazer também?

 

ROBERTO BRÓLIO – Pode ser até.

 

PAULO MARKUN – É o melhor prazer.

 

DOUTOR JACOB PINHEIRO GOLDBERG - Mas é muito relativo ser útil a coletividade não é? Quer dizer, daí ficaríamos com um subjetivo, derrepente um estado, principalmente um estado totalitário, nós vivemos em uma época que é muito fácil o estado totalitário tentar resolver pelo cidadão a nossa vida privada, derrepente o estado totalitário pode resolver e ser útil e aquele não é.

 

DOUTOR OSVALDO GIANOTTI FILHO - Alias já ocorre isso em relação às chamadas doenças mais caras. Infelizmente nós participamos de um simpósio na Câmara Federal promovido pela Comissão de Saúde e o Representante do Setor de Planejamento afirmou isso, está gravado, faz parte desse simpósio que o Brasil sendo um país pobre não tinha condições para tratar de doenças caras. Então é um tipo de decisão que é tomado em nível político, mas que sem duvida nenhuma acaba ferindo o principio até humanitários morais.

 

PADRE HUMBERT LEPARGNEUR - Eu acho que o crente deve ao mesmo tempo valorizar, benificar a vida e a saúde, e relativisar a vida biológica, ame-a absolutização  da vida biológica. O crente, as religiões vêm planificar a vida , a saúde e alegria de viver, mas também relativisar.

 

DOUTOR SERGIO PERAZZO – Eu queria voltar um pouquinho, porque você falou no velho e falou na criança, e eu acho que a gente esqueceu de falar na criança. Acho que a gente tem que considerar a idade da criança porque é diferença a gente lhe dar com uma criança que ainda não atingiu ainda a idade pré-lógica, e uma criança que é capaz de estabelecer relação de causa efeito e pode entender melhor as coisas, porque a criança pequena não tem a possibilidade de entender o que é morte, a criança pequena ela apenas pode entender o que é uma ausência, então a gente tem que lhe dar com a criança de uma forma diferente dependendo da idade dela. Era uma coisa que eu queria acrescentar.

 

PAULO MARKUN – Eu queria colocar, se os senhores concordam, colocar em questão alguns países tem tentado estabelecer em relação à eutanásia, projetos de lei específicos, como no Brasil nós não temos noticia de projeto nesse sentido, para facilitar a discussão eu queria colocar na mesa aqui o projeto que vem dividindo a França alguns anos, é do Senador Henri Cavaillet, foi apresentado ao Parlamento em 1982, de lá até agora não foi votado ainda. Ele define o seguinte, “cada individuo desenganado teria a possibilidade de declarar por escrito se prefere a morte natural ou se deseja acabar com a própria vida e de que modo”, e esse projeto foi amplamente discutido, o objetivo dele era justamente esse, quer dizer, de que as pessoas que não tem nenhuma perspectiva, um paciente com um tipo de câncer por exemplo não tenha modos de ser curado ainda, poderia dar uma declaração por escrito e ser levado a morte com auxilio dos médicos. Eu gostaria de colocar um pouco isso como discussão porque eu queria cercar mais esse tema que está sendo debatido.

 

ROBERTO BRÓLIO – Professor Flaminio Favero fala no um livro de Medicina Legal, ele cita um caso de um médico na França que sacrificou a vida da própria filha cometida de croup, e depois de alguns instantes ele recebeu a noticia diretamente do Professor Rux que havia descoberto o soro contra a doença. Vocês imaginam que nós podemos confiar na ciência, nós podemos esperar que a ciência vem a mudar, ninguém tem o direito de optar pela sua própria vida, porque a vida individual pertence à coletividade.

 

DOUTOR JACOB PINHEIRO GOLDBERG - Desculpe, o senhor cometeu um lapso curioso, o senhor disse “ninguém tem o direito de optar pela sua própria vida”, eu quero que o senhor tenha dito, “ninguém tem o direito de optar pela sua própria morte”, o senhor cometeu um lapso.

 

ROBERTO BRÓLIO - Interromper a vida, no caso.

 

DOUTOR JACOB PINHEIRO GOLDBERG - Mas daí eu não entendi. Não pode optar pela sua própria vida? Ou não pode optar pela sua própria morte?

 

ROBERTO BRÓLIO – Porque você pertence à coletividade, se você comete um ato...

 

DOUTOR JACOB PINHEIRO GOLDBERG – Daí não, está questão de filosofia.

 

ROBERTO BRÓLIO – Segundo o Jurista Anibal Bruno é isto, você não está isolado, você é um ser social.

 

DOUTOR JACOB PINHEIRO GOLDBERG – Eu como advogado durante muitos anos, fui capaz de perceber a força da repreensão que se inicia nos aparelhos estatais representados pelo espírito de direito, nem sempre em muitas latitudes o direito e a moral se afinizam, quer dizer,  não são os juristas que devem tomar a última decisão. E eu não acho que realmente o ser humano seja pertencente à coletividade, se essa realmente fosse a consigna.

 

ROBERTO BRÓLIO - Esse é o conselho jurídico, pode não adquirir, eu respeito.

 

DOUTOR JACOB PINHEIRO GOLDBERG - Eu não aprendi assim com Nelson Hungria, fui aluno de Nelson Hungria e não aprendi dessa maneira, muito pelo contrario, aprendi que o homem tem uma destinação histórica valida por si mesmo, absolutamente independente da noção de ser um elemento coletivo, um homem massa.

 

ROBERTO BRÓLIO – Este é o conceito de Aníbal Bruno.

 

PAULO MARKUN – Poderíamos deixar um pouco de lado sobre conceitos deste ou daquele jurista, e tentar discutir a essência da questão que nos coloca aqui, quer dizer, eu imagino que cada um dos senhores independente do ponto de vista desse ou daquele jurista, desse ou daquele pensador citado tem um ponto de vista a externar, porque senão fica uma discussão um pouco sofisticada demais para um programa de televisão.

 

ROBERTO BRÓLIO - Eu gostaria dizer depois quando o homem pode matar segundo conceito.

 

PAULO MARKUN - Segundo conceito de quem?

 

ROBERTO BRÓLIO – Segundo conceito jurídico. Por exemplo na guerra, você mata, mas o médico investido na sua posição deve tratar com igualdade todos os doentes.

 

DOUTOR JACOB PINHEIRO GOLDBERG – É um conceito jurídico mas imoral, nem na guerra, principalmente na guerra o homem não devera matar, as guerras sim são crimes, e essas são umas das hipocrisias sociais, discute-se com problema da eutanásia num ser em desespero da dor, imerso, na sua absoluta inconsciência, mas os estados acham que podem matar milhões de pessoas nas guerras.

 

PADRE HUMBERT LEPARGNEUR - Primeiro, as crianças em geral aceitam mais facilmente a morte do que os anciões. Segundo, para a maioria alguns dizem a gente morre quando não tem mais esperança. Os médicos e padres sabem que frequentemente um doente clinicamente piora, piora mas com bom moral que quer viver ao lado, clinicamente melhora, mas não quer viver é aquele que clinicamente piora com bom moral mas vai sobreviver, às vezes a coisas realmente são espetáculos.

 

PAULO MARKUN – O senhor acha que isso é um argumento contra a eutanásia?

 

PADRE HUMBERT LEPARGNEUR – Eu acho que existe uma certa liberdade interna que pode recuar a morte, por exemplo, uma pessoa pode recuar sua morte esperando a visita de uma pessoa, esperando um padre, e vem o padre que era aquele que veio dar a extrema unção, ela morre imediatamente após a extrema unção.

 

PAULO MARKUN – Nenhum defensor da eutanásia é contra o argumento que o senhor está colocando, acho que o contrário, pelo que eu entendo do que está sendo discutido, é justamente a situação contraria, quer dizer, quem não quer viver, quem considera sua condição de vida tão insatisfatória do ponto de vista de dor, de situação de desconforto ou de falta de perspectiva absoluta de sobrevivência em relação a esses casos que se defende a eutanásia, não é isso?   

 

PADRE HUMBERT LEPARGNEUR – A um mecanismo interno que faz que essa pessoa vai abreviar a sua vida, eu acho isso natural, acabou a esperança, acabou a vida.

 

PAULO MARKUN – O senhor acha que as pessoas poderiam ter o direito de praticar a eutanásia.

 

PADRE HUMBERT LEPARGNEUR – Não, quer dizer eu matizei muito porque podem abandonar meios extraordinários.

 

PAULO MARKUN – Uma eutanásia branda.

 

PADRE HUMBERT LEPARGNEUR – Exato....negativa, negativa.

 

JORNALISTA VALENTIM LORENZETTI – O que me preocupa muito nessa situação de eutanásia esse aspecto de atribuir a outros grupos de seres humanos a decisão.

 

PAULO MARKUN – É por isso que diz esse projeto na França por exemplo .

 

JORNALISTA VALENTIM LORENZETTI – Nós vamos assumir a responsabilidade de terminar a vida de alguém.

 

DOUTOR OSVALDO GIANOTTI FILHO - Esse projeto ele prevê que a pessoa escolha isso com antecedência, não é isso?

 

PAULO MARKUN – Exato.

 

DOUTOR OSVALDO GIANOTTI FILHO - E ai também talvez seja o erro básico desse projeto, porque ele fecha uma situação que dentro da posição que nós estamos colocando, a pessoa tem a possibilidade inclusive de mudar de opinião durante a própria evolução de uma doença, podem surgir novos objetivos, enfim, isso é uma questão especifica.  Alias em medicina uma das coisas que a gente aprende que cada doente é um doente e que ele deve ser encarado naquele momento, na sua doença, e assim deve-se ser analisado, infelizmente não é que as pessoas têm acesso dentro da assistência médica, mas seria o ideal. E nesse aspecto então é que o caso, cada caso tem que ser julgado individualmente, mas nesse julgar individualmente devem existir alguns parâmetros, é isso que nós estamos defendendo aqui. Então voltando àquela primeira pergunta padre é o problema da responsabilidade, quem assume essa responsabilidade?

 

PAULO MARKUN - Na opinião do senhor qual seria?

 

DOUTOR OSVALDO GIANOTTI FILHO - Eu concordo com o aspecto da divisão dessa responsabilidade principalmente porque na maior parte dos casos, o paciente que seria o maior envolvido na situação ele não vai estar consciente, a falta da consciência do paciente vai levar então a necessidade de que haja uma divisão dessa responsabilidade da discussão talvez até um exemplo do que foi dado daquela moça nos Estados Unidos que acabou indo para a justiça e todos os elementos foram pesados.

 

PAULO MARKUN – No Brasil isso não existe essa possibilidade.

 

DOUTOR OSVALDO GIANOTTI FILHO – Aqui não, aqui cai dentro do homicídio, existe atenuante na verdade aquilo que foi colocado, quer dizer o homicídio piedoso, o outro termo que é utilizado aqui o homicídio privilegiado que seria um atenuado, que seria uma atenuante. Existem fatores que podem atenuar, eu estava conversando com um advogado hoje, isso seria atenuante, não deixa de ser um homicídio, tem um fator atenuante. Só um ponto que eu acho importante colocar, é o problema da dignidade do paciente, dignidade humana e determinado ponto da doença os próprios amigos e parentes sentem, eu acredito que até o próprio paciente, não passei por uma situação dessas, a própria pessoa sinta que perdeu a dignidade, perdeu o controle sobre a sua linha de raciocínio, sobre sua posição, sobre suas possibilidades fisiológicas, comer, enfim nesse ponto é que a situação realmente é uma situação critica.

 

JORNALISTA VALENTIM LORENZETTI – Isso é uma suposição sua.

 

DOUTOR JACOB PINHEIRO GOLDBERG – É uma realidade. É uma antropia da desfragmentarão, da desestruturarão, o paciente simplesmente se desestrutura, deixar morrer.

 

PAULO MARKUN - Estamos começando a clarear uma situação que eu queria...para a gente não sair dessa discussão agora, acrescentar um pouco mais, quer dizer, nós estamos começando a traçar o quadro de um paciente determinado e hipotético que esteja em uma situação limite dessas, em que ele já perdeu a dignidade, em que ele não tem perspectiva de se curar, nesse caso os senhores acham que defender a eutanásia de que devem ser pelo menos retirados os meios artificiais que mantenham esse paciente de sobreviver. Esses meios artificiais incluem remédios.

 

DOUTOR JACOB PINHEIRO GOLDBERG - Eu aliás gostaria de usar uma expressão, não bem de um paciente mas de um cadáver em sepulto de alguém cuja a vida já está terminada, mas a sociedade não tem nem sequer a piedade de permitir que ele morra em paz.

 

DOUTOR SERGIO PERAZZO - Eu queria fazer um comentário a você Paulo o seguinte, porque é você está perguntando dessas coisas pra gente? Porque derrepente assim, eu to vendo assim, a gente está discutindo esse assunto, e derrepente os donos da vida e da morte são os médicos e religiosos. Isso é uma discussão que tem que ser remetida a todas as pessoas. Porque na medida em que a gente está fazendo isso, assim a gente está repetindo os mesmos erros.

 

PAULO MARKUN - Com uma pequena diferença, aqui pelo menos os telespectadores têm o direito de telefonar e votar, dizer sim ou não. Já é um avanço.

 

DOUTOR SERGIO PERAZZO - Talvez a gente deva dar mais atenção a essa votação, ou no mínimo um peso igual a que a gente está discutindo aqui, senão a gente vai começar a discutir também no vazio e começar a acreditar que a gente possa decidir as coisas. Eu acho que uma decisão de todas as pessoas.

 

DOUTOR JACOB PINHEIRO GOLDBERG - Principalmente dos pacientes terminais.

 

PADRE HUMBERT LEPARGNEUR - Nessa linha eu gostaria de acrescentar uma experiência na França que foi muito marcante, Barel e Lalu. Montana para tribos na francesa, um programa sobre eutanásia, e lançaram a idéia no publico, e receberam milhares de cartas, e ao final acabaram não fazendo o programa. Qual é a idéia? Publicaram depois as cartas recebidas, e um livro que saiu em 1962 no estoque, re-publicado em 1965. E a grande idéia que surgiu inesperadamente dessa pesquisa, é que as pessoas moralizantes que eram contra a eutanásia, que eram muito rígidas, contaram pelas cartas da sua vida, dizendo que, eu quero com a nova lizante contra a eutanásia então no tal caso eu fiz a eutanásia. E pessoas que eram a favor da eutanásia diziam  devia fazer a eutanásia e não teve coragem. Quer dizer a teoria e a pratica foram totalmente misturados e a Lalu Barel selecionaram as cartas, publicaram as cartas.

 

PAULO MARKUN - Na verdade padre, o senhor teria que estar sentado na bancada do depende, o talvez, pelo que eu entendo, porque o senhor em certos casos o senhor admite a supressão dos meios artificiais que mantêm esse paciente vivo, em outros não.

 

PADRE HUMBERT LEPARGNEUR - Mas isso não é eutanásia.

 

DOUTOR JACOB PINHEIRO GOLDBERG - O senhor me dá licença, mas isso no Brasil é crime.

 

PADRE HUMBERT LEPARGNEUR - Sim é uma medicina muito utópica, quer dizer que a gente não pode prolongar a vida eternamente. Não! Existem verbas limitadas segundo uma perspectiva medica que diz que essa pessoa não possa voltar à consciência, a pessoa que não volta à consciência, e vou perguntar o prolongamento dessa vida vegetativa vai servir a quem? A quem?

 

DOUTOR JACOB PINHEIRO GOLDBERG - Agora Marco, eu acho que seria importante, tendo em visto o alto poder pedagógico da televisão que nós pudéssemos dar uma colaboração no sentido que conceder imaginar a possibilidade filosófica da morte, não ser este horror traçado e desenhado pela civilização ocidental no qual nós temos que fugir a qualquer preço. Inclusive pagando o preço da dignidade, da humanidade, da decência que talvez a morte possa ser um processo de integração maior antropologicamente concebível.

 

JORNALISTA VALENTIM LORENZETTI - Esse aspecto Doutor Jacob, acho interessante, talvez eu aqui pensando comigo mesmo, falar que a eutanásia não é o medo da gente morrer? Quer dizer, de medo à gente acaba pedindo ser morto.

 

DOUTOR JACOB PINHEIRO GOLDBERG – Ou o contrario.

 

JORNALISTA VALENTIM LORENZETTI - Veja porque se realmente encarássemos a morte com naturalidade com esse seu estudo, talvez pudéssemos aguardar um fim com mais naturalidade. Realmente esse pavor da morte talvez peça a muita gente sujeitar a eutanásia.

 

PAULO MARKUN - Nós colocamos aqui um tema interessante para discutir, que curiosamente, inclusive o placar mudou, embora pouco significativo, porque a votação está sendo equilibrada, nós temos 836 votos a favor da eutanásia e 864 votos contrários. Eu gostaria de colocar esse tema em discussão depois dos comerciais, na ultima parte de Disc Debate.

Para finalizar esse debate é o seguinte de um lado o Valentim Lorenzetti considera que a eutanásia, de certo sentido a expressão do medo, do pavor da morte, quer dizer da maneira de não se encarar a morte com naturalidade. E do outro lado o Jacob Goldberg acha o contrario, que a eutanásia é sim o medo da morte ruim, dá má morte.

 

DOUTOR JACOB PINHEIRO GOLDBERG - Exatamente, inclusive a tanatofobia, quer dizer o medo da morte levado com aspecto de uma morbidez, ele tem causas muito profundas relacionadas com o medo de viver.

A biofilia contra a necrofilia que é a grande tese colocada por Erick Fromm, eu recomendo para o telespectador que deve estar ansioso para ter uma bibliografia a respeito, a leitura do livro do Erick Fromm, a “Anatomia da Destrutividade Humana”, quer dizer um impulso de morte, uma realidade de cada um de nós. Até onde e enquanto nós estamos discutindo aqui, nós estamos fazendo só abstrações teóricas ou nós também nesse instante estamos lutando contra a noção de morte e precisamos trabalhar a potencia psíquica de cada um de nós. Nós não somos onipotentes, mas também não somos impotentes, o ser humano é potente pela sua própria essência.

 

PAULO MARKUN - Valetim, tem alguma coisa a acrescentar em relação?

 

JORNALISTA VALENTIM LORENZETTI - Realmente a importância de se educar o homem para encarar a morte com naturalidade.

 

DOUTOR OSVALDO GIANOTTI FILHO - Educando ele para viver.

 

JORNALISTA VALENTIM LORENZETTI – Educando ele para viver. Acho que estamos falando algo que nos leva a falar de vida, entende? Falar de vida plena, de caminhar para uma vida plena, daí nós chegaremos a uma morte natural.

 

DOUTOR OSVALDO GIANOTTI FILHO - E com saúde.

 

JORNALISTA VALENTIM LORENZETTI - E com saúde. Inclusive é a saúde psicológica.

 

ROBERTO BRÓLIO - Pensando assim a morte deve agir sozinha, sem artifícios, sem ajuda, sem colaboradores.

 

DOUTOR JACOB PINHEIRO GOLDBERG - E sem impedimentos artificiais.

 

ROBERTO BRÓLIO - Bom! Os impedimentos desde que sejam para beneficiar a vida. Eu sou de parecer que devem ser mantidos.

 

PAULO MARKUN - Qualquer impedimento, to senhor acha que se deve fazer de tudo, se for necessário colocar um paciente, apenas para esclarecer um pouco mais a posição, que às vezes a discussão vai pra frente, e acaba voltando. O senhor acha se houver um paciente, tem aqui uma telespectadora de Guarulhos, diz que tem uma prima em coma desde 14 de janeiro de 1984. E se decidirem desligarem os aparelhos que a mantêm viva, mas ela continua, pelo que eu entendi em um hospital, em uma Unidade de Terapia Intensiva, e ela ainda respira, quer dizer, o senhor acha que, desde que haja atitudes a tomar no sentido de manter essa pessoa viva, não interessa discutir se essas atitudes são confortáveis ou desconfortáveis para o paciente e para a família.

 

ROBERTO BRÓLIO - Porque essa vida é útil pra ela, e ai estão os psicólogos que dizem que nós podemos transmitir mensagem ao feto, podemos transmitir mensagem para a criança que ainda não fala, que praticamente não tem condições psíquicas desenvolvidas, e nós podemos transmitir mensagens ao doente em estado vegetativo.

 

PAULO MARKUN - Porque esses doentes não saram então?

 

ROBERTO BRÓLIO - Mas eles podem receber mensagens, eles podem receber estímulos, podem receber educação inclusive para a própria morte.

 

DOUTOR JACOB PINHEIRO GOLDBERG - Mensagem de coragem inclusive, de compreender que a morte não é essa tragédia limitada pelas civilizações ocidental.

 

ROBERTO BRÓLIO - Coragem e esperança pra entender que a vida não depende só de nós.

 

PAULO MARKUN - Até um pedaço da frase os senhores foram juntos, depois foi para posições absolutamente antagônicas.

 

DOUTOR JACOB PINHEIRO GOLDBERG - É quanto a questão da esperança, pra mim esperança é a fé na possibilidade da realização do homem enquanto sujeito da historia da sua própria vida. Quando nós deixamos de ser sujeito da nossa vida, nós morremos, ainda que cadáveres andando.

 

ROBERTO BRÓLIO - Eu respeito o seu ponto de vista, é que o ponto de vista do evangelho, é uma mensagem de esperança, e você como médico, não é?

 

DOUTOR JACOB PINHEIRO GOLDBERG – Matéria de Dogma, eu realmente não posso discutir.

 

ROBERTO BRÓLIO - Não é Dogma.

 

DOUTOR JACOB PINHEIRO GOLDBERG – Se é matéria de evangelho que lhe assiste todo o direito de se filiar a essa noção de mensagem, uma mensagem muito bonita do Rabi da Galiléia, muito bonita, que alias não coincide com minha posição filosófica, nem religiosa.

 

ROBERTO BRÓLIO - Eu compreendo, e eu respeito a sua.

 

DOUTOR JACOB PINHEIRO GOLDBERG – Que bom, o senhor vê como a conquista democrática da civilização de cultura permite que os seres humanos possam se entender, e reciprocamente compreender que são capazes de enfrentar todas as dificuldades da vida e todas as dificuldades da morte. Diga-se de passagem para o judaísmo a posição é a sua, embora eu seja judeu, eu acho que eu fui suficientemente sujeito da historia da minha vida para evoluir independente da minha concepção religiosa.

 

ROBERTO BRÓLIO - Eu acho também Doutor Jacob que nós podemos mudar.

 

DOUTOR JACOB PINHEIRO GOLDBERG - Tanto é que eu mudei, eu era contra a eutanásia e hoje eu sou a favor, na experiência da dor, do sofrimento, da angustia, porque nós não podemos ficar falando como se fosse uma academia de tertúlia literária da morte do outro como se fosse alguma coisa limpa, ascética, vai morrer, não vai morrer, isso é terrível, é desgraçado, a dor é infeliz, ela humilha, ela esmaga o ser humano, naquele quarto miserável sem condição de vontade soberana e autônoma de decidir a sua própria vida, esse homem quer uma mensagem de esperança, uma mensagem de esperança e o direito de morrer em paz.

 

JORNALISTA VALENTIM LORENZETTI - Mas veja, a dor esmaga o ser humano que passa por ela, e esmaga também o ser humano que assiste.

 

DOUTOR JACOB PINHEIRO GOLDBERG - Desde que ele seja sensível.

 

JORNALISTA VALENTIM LORENZETTI – Exato, estamos falando aqui com um grupo de pessoas que tem uma sensibilidade, nesse caso também se deve preparar toda uma coletividade para respeitar a dor do semelhante para que essa dor seja até minimizada com o respeito do próximo. O que existe na nossa sociedade é um desrespeito pela dor do semelhante, então eu acho que ela dói mais. Então não é só aquele que está sendo o paciente, ou sei lá, a vitima da dor , vamos chamar assim, mas é todo um complexo familiar que se sente desconfortável diante da dor do seu familiar ou do seu amigo, isso complica mais as coisas.

 

PAULO MARKUN - Vamos levantar a seguinte questão, nosso tempo está acabando, e nós temos um problema pratico para resolver, eu tenho 1 minuto para cada um dos senhores, definirem uma última intervenção, mas tem que ser 1 minuto cravado porque o tempo está se acabando. Doutor Sergio, por favor.

 

DOUTOR SERGIO PERAZZO - Eu vou falar uma coisa muito rápida porque a gente está falando a questão do alivio da dor, penso que a gente não deve se prender, é um alivio da dor no ponto de vista medico ou medicamentoso, mas o alivio da dor em termo de proximidade humana, penso que as condições que a gente deve dar ao homem que morre, são as condições de proximidades com as quais quem ele quer se aproximar.

 

PAULO MARKUN – Padre Humbert.

 

PADRE HUMBERT LEPARGNEUR - Eu acho que a luta contra dor pra mim não é problema, todos somos contra a dor. Agora o problema respeitar a pessoa e a consciência, nunca uma morte de ser imposta, quer dizer eu respeitaria a vontade da pessoa, mas a consciência é importante. Quando é a consciência, e a consciência não existe mais, e não vai mais voltar, claro que não há mais o que salvar, a maioria das culturas antigas foram a favor da eutanásia. Quem? Levantou o problema o judaísmo e o cristianismo ainda hoje quem luta para a vida, o judaísmo e o cristianismo. Mas mesmo assim sem fazer da vida biológica um absoluto porque o destino da pessoa não termina nessa vida biológica.

 

PAULO MARKUN – Doutor Jacob.

 

 DOUTOR JACOB PINHEIRO GOLDBERG - Eu gostaria de dizer que eu acredito que a vida é um processo, não é uma noção de egotismo, quer dizer eu começo aqui, eu não posso acreditar que eu tenha sido um acaso incidental que num determinado dia deixo de existir no processo da realidade. Quando o Doutor Gianotti falou em transplante, no outros meus olhos continua, no outro minha vida continua, eu me enriqueço através da vida do outro, o outro vive em mim, e eu vivo no outro, na posição do Martin Buber, mas que isso seja feito na prática doloida, sem angustia, sem sentimento de culpa, quantas pessoas estão sofrendo agora porque viram pessoas da sua família morrer diante da sua própria impotência. Com esses eu me solidarizo.

 

PAULO MARKUN – Valentim.

 

JORNALISTA VALENTIM LORENZETTI - Eu só tenho que dar a mensagem que nós usamos para nós no CVV, não para aqueles que nos chamam, porque ai seria uma frase feita “É mais fácil viver quando se tem um amigo”.

 

PAULO MARKUN – Doutor Osvaldo.

 

DOUTOR OSVALDO GIANOTTI FILHO - A nossa posição é de que é fundamental por uma sociedade que quer evoluir, ver a sua realidade, e nesse ver a sua realidade ela deve discutir os seus problemas. E a eutanásia é uma realidade, e é um problema na vida de todos nós assim como o aborto é.

Apenas um ponto que nas culturas antigas aquilo que era chamado de eutanásia na realidade pelo que nós lemos era simplesmente distanásia, porque a eutanásia mesmo como nós defendemos aqui seria a morte boa, a morte em condições razoáveis. Alias, talvez tentando conseguir alguns os últimos votos do nosso lado aqui, defender a eutanásia do Colégio Eleitoral, que possa ter uma boa morte.

 

PAULO MARKUN – Obrigado Doutor Osvaldo. Doutor Roberto.

 

ROBERTO BRÓLIO - Não compreendi bem o que o padre falou, que a eutanásia é defendida pelos cristãos, e pelos judeus?

 

PADRE HUMBERT LEPARGNEUR - Não. São aqueles que são mais eficientes da eutanásia ativa.

 

ROBERTO BRÓLIO - Porque a primeira de citação de contrariedade está na morte do Rei Saul, que ele em estado grave, ferido em uma batalha, ele foi executado por um amalecita, e quando esse amalecita foi falar ao Rei Davi, o Rei Davi condenou a morte. Daí está um exemplo, que o próprio Rei Davi com a sua sabedoria condenou a morte ao amalecita que havia morto o Rei Saul por piedade.

 

 DOUTOR JACOB PINHEIRO GOLDBERG - Eu seria contra o Rei Davi porque eu sou contra a pena de morte.

  

PAULO MARKUN – Doutor Roberto, o senhor tem os seus 30 segundos finais.

 

ROBERTO BRÓLIO - Eu acho que a eutanásia é um direito que os colegas tem de defender, eu particularmente sou contra, baseado nas leis naturais, baseado na própria medicina, na ética medica, desde Hipócrates, que os médicos na época de Hipócrates há 400 A.C, já eram procurados para que fossem medicados com medicamentos mortais. Hipócrates fez questão de por isso no juramento, “a ninguém darei remédio mortal ou conselho que o induza a perdição”, isso está no juramento de Hipócrates, isso foi ratificado pela Associação Medica Mundial, na Assembléia de Genebra, em 1948, que diz, “eu defenderei a vida a qualquer circunstancia”. E a Associação Medica Mundial é contraria a eutanásia a todo custo. De modo que, eu sou de parecer que nós devemos mitigar a dor, porque é divino sedar a dor, como diz a frase latina “Divino est modelare a dore”.

 

PAULO MARKUN - Claramente, próxima uma da outra 1.163 a favor da eutanásia, 1.209 votos contra a eutanásia, durante o programa essa votação se alterou algumas vezes. E é claro que a gente não pode ter pretensão de um programa de pouco tempo de duração, e enumeras deficiências, resolver o problema que Aristóteles, Platão, Plínio, e outros discutiram amplamente sem chegar a um consenso, ou pelo menos um consenso que fosse valido do ponto de visto do direito.

Acho que só o fato de ter reunido essas pessoas aqui, eu agradeço aqui em nome do programa pra discutir essa questão que já é um pequeno esforço no sentido de esclarecer esse debate.

 

 

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(Em A Ógea e A Calhandra)

 

Êta nóis!

Alto dos Passos, Poço Rico, Costa Carvalho, Rua Santos Dumont.

Aquilo que dava no peito e mais tarde descobri que se chama ante-visão, uma adivinhação prévia da saudade. Quem sabe a nostalgia por uma dilatação maluca do tempo-espaço.

Ai, meu Deus, se soubesse que então seria jamais, olharia pras luzinhas e chorava até derreter o futuro e as ilusões, e ficaria, pra sempre ali, parado como estátua erguida em nome da sensação”.

 

 

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7 - Visitando Eugenio no Colégio Montale

 

 

E num sábado de manhã, e só poderia ser num sábado, estou ouvindo uma plêiade ítalo-brasileira, no Morumbi. E, por isto, nem tudo está perdido e, talvez tudo, tenha um significado, ou muitos.

Professores, alunos, pais num território de idiomas que suscita nostalgia e invoca esperança.

Aqui e acolá abismos de etnia, espaço, tempo. E pontes. Psicanalista, devo ouvir, relevar, interpretar e a devolutiva.

As jovens que declamam, as imagens na tela, os versos de angústia e do amor, o desencontro daqueles anos, os anos lúgubres da história da desumanidade.

E o curso, percurso do menino, do moço, do adulto, do velho da Ligúria, essa pátria desossada, do mar estrangeiro cujas ondas perpassam a sensibilidade.

Tomado pela entonação de Silvia e de Carlo, dos coros numa ladainha que me joga no latim do meu colegial. Quousque tandem. As canções do folclore italiano que minha mãe Fanny, poeta judia polonesa ninava para o meu sono caipira em Juiz de Fora. Os sonhos de Norma, mãe de três filhos meus, oriundi de Treviso. La strada nel bosco.

A bandeira negra do anarquismo que tremulava nas trincheiras partisans e o poeta no tribal devotado nas elegias do eu.

A vida que escorre pelos dedos e se detém para a fronteira que ultrapassa o necrológio.

Qualquer prosódia, a imaginação salva a desumana neutralidade da métrica.

Eugenio está presente. Se sente. Montale continua num arrebentamento a cidadania brasileira de uma salmodia do infinito.

2005, Anno Domini e o que motivava esse poeta, na realidade não era a sua biografia, mas o testemunho sobre o Outro e sua dicção.

 

Jacob Pinheiro Goldberg é doutor em psicologia, psicanalista, escritor, autor entre outros livros de “Cultura da Agressividade”, “Magia Wignania” (antologia português-polônes), “Rua Halfeld Ostroviec”.

Professor Convidado – University College London Medical School – Universidade EotvosLiorand (Hungria) – Universytet Jagiellonski e Universytet Warszawski (Polonia) – e Middlesex University (Inglaterra) – Hebrew Uiversity of Jerusalém – École des hautes études en sciences (Paris) – USP – PUC-SP – PUCC – Universidade de Brasília - UNESP – Mackenzie.

 

 

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O PARTEJAR DO OBSTETRA

 

PROFESSOR JORGE - Hoje para iniciar o mês de julho, convidei o Dr. Jacob Pinheiro Goldberg para fazer uma apresentação aqui, principalmente pelo seguinte aspecto, ele é PhD em psicologia analista de comportamento, e uma pessoa principalmente para falar sobre um tema que a principio todo mundo vai achar esquisito o título “O Partejar do Obstetra”, mas é justamente aquele meu intuito de quebrar as rotinas nossas tão quadradinhas da clínica, agora, principalmente não só na clínica obstetra é como nosso circuito nosso universitário e eu acho a pessoa mais indicada para falar sobre isso uma vez que ele é Analista de Comportamento da Assessoria de psicologia, da Revista Trip , autor de livros e trabalhos tanto aqui no Brasil como no exterior, professor convidado da USP, da PUC, da PUC CAMP, da Universidade de Budapeste, Universidade Hebraica de Jerusalém, uma pessoa categorizada para fazer essa apresentação.

 

DR. JACOB PINHEIRO GOLDBERG - Eu perguntava para o Professor Jorge se ele achava mais interessante que na exposição, porem introdução dos trabalhos nossos de hoje se fosse seguido por estrutura linear de apresentação que é a consagrada em termos didáticos ou se a gente poderia fazer uma conjugação de conteúdo e de forma. Os senhores naturalmente sabem que a psicanálise, a psicoterapia, ela faz uma investigação, ou tenta fazer uma investigação no proibido. Ela tenta fazer um mergulho no proibido ou no indevassável, e todas as vezes que eu sou convidado a falar sobre temas          que, de uma ou de outra maneira implicam nesta olhada no inconsciente, eu fico seduzido pela idéia de tentar encontrar uma formula dessa fala do indizível, porque é disso que se trata. Aquilo que pode ser dito porque é fácil de ser compreendido, aquilo que demanda uma especulação intelectual, vocês conhecem melhor do que eu, vocês sabem melhor do que eu, existe uma passagem que eu acho muito interessante do Lacan na qual ele diz que  “Quando o analisando chega para a primeira entrevista, frequentemente ele diz, eu vim aqui para falar com o senhor sobre meu íntimo” e o Lacan diz “não é verdade”, sobre o íntimo ela fala para a amiga dela, ela veio para falar sobre o extimo, aquilo que lhe é externo, e que invadiu sua alma, que invadiu sua psique, aquilo que ela quer expurgar de si.

Na área de atuação do médico, o protagonista é o paciente, deve ser o paciente, agora uma pergunta que se impõe já de início nessa tentativa de abordagem é assim: Como é que se resolve isso, eis que o paciente a de fazer de tudo pra inverter esse processo, ele quer que o herói seja o médico, ele pretende isso até pela sua fragilidade. Vamos trabalhar isso então de uma maneira linear, isso é uma passagem muito bonita do Ingmar Bergman, quando ele começou a fazer os seus primeiros filmes, e quebrar um discurso linear, ocasionou polêmicas e celeumas filmográficas, ele foi acusado de não ser lógico, mas ele diz, a vida não é lógica, a vida é para-lógica, fica além da lógica, e ele tem uma passagem antológica, clássica nesse aspecto, na qual ele diz “a estrutura linear, a quem interessa a estrutura linear?” Aqueles que pretendem circunscrever o saber, que pretendem limitar o conhecimento, que pretendem balizar, se a aspiração é passar, é transcender, é preciso violar.

Nos Estados Unidos, Burroghs, criou uma técnica alguns anos atrás, que hoje cada vez mais, principalmente dado acesso da informática, se introduz como mecanismo de conhecimento criativo, é chamado ‘keep-up’, ele junta e faz a mixagem de peças, ele pega um tratado científico, uma passagem lírica de Garcia Lorca, uma citação de Shakespeare, e uma notícia de jornal, e junta. E aí perguntaram, “mas isso é admissível? Isso não implica em desnaturar os processos da inteligência, do saber?” Ele diz “não, eu reproduzo da forma que eu quiser”. E há modernidade um pouco se nomilha de reprodução. Então na medida em que me foi surgindo os conceitos eu passo pra vocês, e naturalmente depois de algum tempo, sei lá, daqui uns 15 ou 20 minutos, eu convido vocês a fazer esse exercício da “livre associação de idéias” do fluxo e inconstante. Doble Instorns se quiserem dessa maneira, gravidez e parto no imaginário facilmente nós ficamos jogados entre banalização e a sacralização, é um ato como outro qualquer, um ato médico, um ato cirúrgico, um ato da vida, um ato da existência, e eles banalizados, e nós todos podemos imaginar o quanto é que essa banalização aparentemente implica em alívio. Do outro lado a sacralização, “darás a luz em dor”, Eva insidiosa é o arquétipo da nossa cultura, e você se introduz como mensageiro ou emissário do tabu, não é pra causar dor, não era permitir a dor, é para assustar o processo de dor.

Certa vez uma pessoa saiu de coma, procurou Lacan em Paris e tiveram a primeira entrevista, marcaram outra entrevista, e na outra entrevista o analisando chegou um pouquinho atrasado,o Lacan abriu a porta e disse para ele: “Boa tarde” e o analisando respondeu “Até, boa tarde”, e o Lacan encostou a porta, fechou a porta e disse: “até a próxima vez” o sujeito saiu de lá desesperado “mas não é possível, eu sai de  coma para ter essa entrevista, ele falou um minuto comigo e encosta a porta ali, nunca mais eu volto aqui”, e é claro que ele foi obrigado a pensar no caminho porque o Lacan tinha feito isso, e ele entendeu o lapso, ele não queria na realidade aquela entrevista, por alguma razão, ou por todas as razões das resistências que nós temos a essa penetração a esse investigação, esse  mergulho no inconsciente  que é um pouco do que a gente está tentando convidar a cada um de nos aqui a fazer, porque eu fui partejado, falar em parto é falar, em alguma coisa profunda do nosso desenvolvimento, é fato do momento talvez mais dramáticos da nossa realidade, que é a partir do instante que você existiu. E aí eu já me faço uma interrogação, “será?”. Eu acabei de publicar um livro chamado “A Clave da Morte”, e quando eu tava decorrendo os subsídios para elaboração e a feitura deste livro, eu me lembrei de uma historinha que faz parte da teologia judaica, e essa historinha diz assim: “Dois gêmeos estavam no útero da mãe, e os meses começaram a se passar, um mês, dois meses, três meses, estava muito confortável, os dois ali conversando, se sentindo muito bem, amparados, eles se sentiam maravilhosamente bem, no paraíso, quatro meses, cinco meses, quando chegou lá pela altura do oitavo mês, um viro para o outro e falo: “eu não sei, tive a impressão nos últimos tempos, meu irmão, não sei se você sente isso, que o espaço aqui não tá ficando bom, tá ficando cada vez menor para nós dois, tá ficando muito desconfortável aqui dentro, você não sente essa sensação? “e o outro disse: “é eu sinto, mais parece que tem uma abertura ali na frente, alguma coisa, eu acho quando a coisa complica muito, agente sai  por ali né?” E o outro viro e disse “É agora que eu fiquei apavorado, tenho impressão que se a gente sair por ali acabou, você vê esse mundo maravilhoso que agente fica aqui dentro com absolutamente todo suprimento, dai escorrega, ai vai acabar tudo né” o outro falo, “engraçado, não sei, a minha intuição diz o inverso, daí que vai começar, né?”.

É claro que se trata de uma retórica, de uma metáfora da morte, mas também da vida e é nesse encontro que se pergunta: “O parto do médico se faz conjuntamente com um parto da mulher?” todos nós estamos grávidos, permanentemente grávidos todos nós temos sonhos, desejos, ambições, idéias, que precisam virar um conjunto que deveriam vir à luz. Nós sabemos que infelizmente às vezes esses projetos são abortados, muitas vezes são abortados. Aborto provocado, aborto natural. Mas é uma pergunta que eu acho que responde talvez um pouco a vossa demanda. Quando você é procurado, o parto dela de alguma maneira suspende a sua participação, não é? De grande parte, a partir dai você não tem mais o que fazer. Como é isto? Em termos de frustração, ou é a plenitude, o êxtase da realização? Como é que cada um trabalha esse momento? Principalmente porque esse momento, em algum instante foi forjado debaixo do sexo. Outra componente, outra variável para nossas reflexões, não fruto da patologia, da dor, da doença, da senectude, da morte, mais pelo contrário do impulso do desejo. Ali está o resultado do impulso do desejo, e um dos protagonistas, um dos co-autores está ausente, e de alguma maneira você representa ali o mundo. Ela gerando e você porta voz do real, aquele que trás a concretude. Porque é um ritual de passagem, não é? Talvez, na minha opinião, o ritual de passagem é fundamental, é a travessia, é a páscoa, é o primeiro, não é?. Ritual de passagem, cena primitiva básica, o instante que você se sente imbuído, querendo ou não querendo da majestade grávida. Um ensaísta francês, Patterico, me deu uma passagem que eu acho muito interessante. Eu até citei essa passagem em um outro livro meu “Psicologia da Agressividade”, ele diz assim, “Quando alguém vai informar a outrem a morte de um ser querido, ele se toma de uma certa solenidade”, todos nós já vivemos isso não é? Pode ser a pessoa mais simples, parece que de instante ele se toma de uma certa solenidade, ele fica grávido, o Patterico ominta que é o individuo se irrogando um papel de um destino não é? Agora é curioso, não sei se vocês têm experiência, mas a minha impressão é que freqüentemente o médico naquele instante em que informa também se toma de solenidade. Ele deixa de lado por menos que queira naquele instante, naquele minuto, é como se ele também fosse o emissário deste, porque ele sabe que está trabalhando ali, com uma grande incógnita, um grande enigma, da condição humana, pra sempre. Ali pode estar iniciando a saga de um desgraçado, de um bandido, ou a saga de um santo, é quase impossível retirar deste mecanismo, deste processo, alguma coisa de A maior, por mais que, por defesas, a gente pretenda introduzir elementos de humildade que também por outro lado são importantes, ou necessários. Mas a humildade aí não há de ser confundida com a minoridade, coadjuvante, protagonista, parteiro dos próprios sonhos, desejos, ambições do feto da sua gravidez, dos seus decalques, dos seus desejos, limite entre amor, sexo e pecado eu acho que temos aí alguns elementos pra juntos fazermos talvez não uma reflexão intelectualizada que está com certeza vocês podem fazer sozinhos, muito melhor do que com a minha participação, com a minha colaboração, mas aquilo que nenhum de nós pode fazer sozinho, que é a interpretação do outro que me parece que é o grande papel do obstetra nesse processo. É o terceiro que pela primeira vez não é o excluído na relação dualística, mas tem o terceiro incluído, é essa inclusão do terceiro que acho que deve ser um dos elementos básicos, conscientes ou inconscientes, o tempo inteiro no seu trato com o parto.

Eu acho que era isso que eu queria trazer como elemento, como alguns conceitos, repetindo para aqueles que chegaram depois, repetindo, tentando falar sobre o indizível.

Os poetas latinos, os poetas clássicos em geral, mas eu falo dos latinos porque foi à primeira peça que me veio à memória, quando se atreviam a elaborar as suas criações, eles costumavam pedir licença para penetrar na imaginação e na inventiva e isso que em grande parte que deve fazer o investigador no inconsciente.

Se algum de vocês puder falar um pouco sobre o que associou, sobre o que pensou, sobre o que imaginou, e talvez sobre o delírio, o lírio de, delírio, aquilo que é o escamo da nossa alma.

 

ALUNO - É um assunto, acho que o termo delírio, é um assunto interessante porque talvez a gente se sinta assim mesmo, então às vezes nós somos pra elas os deuses e essa é uma critica que alguns médicos têm, então nós temos dois tipos de médicos, aquele que não permite, mas não sei como ele consegue fazer isso, que essa paciente crie essa dependência dele, então o assistente dele que atende um pedacinho, e o outro assistente, mas eu não estou aqui, estou...e aquele que protege, que põe a mão na cabeça, em que é um D´us pra paciente. Quando ela acorda com uma dor ela não pensa no marido, ela pensa no médico, então como você falou, essa pessoa passa a ser a mais importante na vida dela, isso muitas vezes nos incomoda, gravidez não é doente.

O que eu faço que é melhor? Eu deixo ela se sentir que precisa de mim mesmo? Eu devo afastá-la ao máximo? O que é melhor para aquele ser humano? É lógico que para cada ser é uma coisa diferente, mas como o senhor vê isso? Ele não eu, eu já sei desses três problemas básicos.

 

 DR. JACOB PINHEIRO GOLDBERG – Eu achei muito interessante a sua síntese, mesmo porque achei que sua síntese ela se encaminhou pra aquilo que eu tentei abordar mas com receio. Tem aquela passagem com Rimbaud, “Eu perdi minha vida com delicadeza, com prudência, né? Eu estou sempre meio que no limite, nasci em Juiz de Fora, em Minas Gerais, a minha tendência é sempre subir em cima do muro, então eu fico assim um pouco meio receoso, mas a mim agradou muito porque o senhor deu um passo adiante, teve a coragem de um passo adiante, quando falou que a mim, me parece que é um dos aspectos mais complexos de todos, essa psicodinâmica que é a intervenção principalmente quando o obstetra é um homem, essa intervenção sucessiva, quer dizer, ele está ali no lugar do marido, do co-autor, acho muito curioso isso, muito curioso, extremamente curioso. E no campo do meu trabalho, eu o convidaria a pensar junto comigo, com o pessoal, tentando investigar um pouco esse campo complicado da transferência que essa parturiente faz. Lhe perguntaria o seguinte: Essa intervenção do outro, que passa a ser o médico, o obstetra, não é exatamente em cima daquele conceito que eu levantei? Não é exatamente o salvo conduto pro mundo do feto? porque é curioso, veja bem que a posição que o senhor tomou é absolutamente a posição do médico, porque é a posição daquele que vai até a luz, mas e o grande viajante como é que fica? E o príncipe herdeiro? Porque não é pra ele que teoricamente o ritual está estabelecido. Eu tenho certeza que pra vocês, tenho quase certeza, posso estar enganado, quero ouvir vossa opinião, mas tenho quase certeza que pra vocês em grande parte é ela, não é? Porque é com ela que se estabeleceu o amor, é com ela que estabeleceu as relações, mas em uma dinâmica maior, em uma visagem maior, não é esse viajante que está chegando que deve ser o foco das atenções, é uma pergunta que eu faço, mas é o me ver imediato dado a estação na qual o senhor parou, tentando ainda penetrar um pouco melhor e tentar compreender melhor, então está aí aquela pessoa que deposita naquele homem, naquele médico, todo o equipamento e recurso que ela imagina que não tem, mas que nós sabemos que tem, basicamente tem, teoricamente deve ter. E ela convida que você seja uma mescla de super-herói ou xamã, o feiticeiro, a imagem que vai resolver a dor, que vai abreviar, que vai facilitar, e que provavelmente até vai ajudar a forjar um ente tão perfeito quanto ela idealiza, porque a gente sabe que é por ai. E sua pergunta é muito pragmática, como atuar em cima desta projeção de fantasias. E é claro que eu vou lhe responder, tenho certeza que o senhor sabia disso, mas eu não sei qual é a melhor maneira, definitivamente eu não sei, o que eu diria para o senhor é que o senhor vai ser obrigado a transitar entre o céu e o inferno, entre todas as frustrações dela, e todas as necessidades de completude dela. Diria o maldoso psicanalista que qualquer hipótese, você vai errar, diria o bondoso psicanalista com a colaboração da natureza refazimento do tempo e a desnecessidade dela x tempo depois, a cicatriz do processo vai estabilizar, é o que eu poderia dizer ao senhor, provavelmente não lhe satisfiz.

 

ALUNO - O professor fazia uma enquete sempre na classe, e perguntava assim: quem é a pessoa mais importante dentro do hospital? E é lógico que todos os alunos respondiam que era o doente, e ele dizia que não, que o mais importante é sempre o médico, no sentido que tudo que o médico faz, ele faz por ele, quer dizer, se o paciente se cura, o médico se regozija disso, se o paciente vai mal, se você errou, alguma coisa deu errado, o médico vai tentar, quer dizer, embora o resultado tenha sido ruim, se ele conseguir caminhos para justificar ele vai se sentir menos culpado, e de uma forma dá impressão que a atividade médica está sempre imbuída disso, quer dizer quando o parto dá certo você se sente recompensado, se alguma coisa não dá certo você se culpa ou você se frustra, então dá impressão tudo que você faz é por você, eu gostaria de saber por tabela, muita vezes a gente beneficia o cliente, por isso que o senhor fez uma pergunta: com quem nós nos preocupamos mais, com a mãe, com o bebê. Talvez perante esse conceito a gente se preocupa com a gente, quer dizer quanto melhor resolvido, eu vou me sentir melhor. Muitas vezes as coisas não dão certo, não por nossa vontade e a gente sai melhor ou pior de acordo como a gente se lida com isso. Eu gostaria de saber sua opinião.

 

DR. JACOB PINHEIRO GOLDBERG – Eu vou tentar fazer aqui uma abertura no campo psicanalítico. Os senhores todos perceberam o raciocínio lúcido, cristalino que ele executou e deixando consignado aquela concepção de narciso que na verdade não é só do médico, por grande parte é da condição humana, quer dizer, nós vivemos em função de nós, mas daí, foi paradoxal porque sobre o ponto de vista psicanalítico a sua pergunta tinha no seu interior a resposta, que quando o senhor disse: é com ela? É com o bebê? Não, não é com ela, e nem com o bebê diante dessa colocação, é conosco mesmo. Mas então é com o bebê, porque nós somos o bebê. E é possível que em algumas mulheres que têm filhos digam “não, mas eu posso fazer identificação diferente da sua masculina, eu posso fazer uma identificação feminina, eu posso me identificar com ela”, eu acho que é possível, mas pra mim me parece que é superlativo, é com o bebê. Ficou claro a minha tentativa de interpretação não é? Porque nós não fomos bebê? A gente se preocupa, foi esse seu raciocínio, então, a resposta é essa, é no paradoxo que se encontra a eventualidade de uma sugestão.

 

ALUNO – Essa visão, estaria a preocupação, conosco, com o bebê, ou com aquela predisposição ou aceitação própria de onipotência, do próprio médico, como o máximo, em D´us e ele, é claro.

 

DR. JACOB PINHEIRO GOLDBERG – E na contra fase impotente do que o bebê, ele veio pra tudo, ele veio de tudo, ele veio do todo, ele veio pra tudo, e a gente sabe que a influência se caracteriza exatamente por essa oscilação pendular dramática entre a onipotência e a impotência, a criança quanto mais nova, nós estamos falando de idade tenra, e de trabalho difícil de ser explorado, sabe que é muito difícil, mas a gente pode imaginar, mas talvez a gente possa trilhar um pouco mais esse caminho maldoso aqui.

 

ALUNO – Com os bebês nas meias limitações no dia a dia, da impotência de algumas situações, de não poder avançar pelas limitações que a vida, que a sociedade impõe.

 

DR. JACOB PINHEIRO GOLDBERG – E até aquela realidade, eu tenho certeza que muitas vezes vocês se sentem ali, sei lá, no momento que ela tem dor, o seu limite já foi alcançado, você não tem mais o que intervir.

 

ALUNO – Com o outro lado, concomitante, com a onipotência do bebê, como o centro das atenções, como o herdeiro.

 

DR. JACOB PINHEIRO GOLDBERG – Daí eu é que pergunto pra você, principalmente com o ouvido instigante que ele promoveu, talvez por mais jovens, como vocês fazem como essa onipotência e esse impotência?  Como é que vocês trabalham com isso? Com crueldade ou com bondade? Pra voltar um pouco na sua interrogação dramática. Como é que vocês fazem? Se aleiando? Mantendo isenção? Tentando manter frieza profissional? Ou cativados pela possibilidade de uma aproximação, de um lenitivo para aflição para ansiedade? Como vocês fazem? Vocês que são jovens, ou os outros menos jovens. Como é que é isso?

 

ALUNO – Nós somos obstetras e o xamã.

 

DR. JACOB PINHEIRO GOLDBERG – Como é que você se sente?

 

ALUNO – Essa é a grande questão, se nós somos o bebê, nós estamos frente a varias ambigüidades como o senhor mesmo colocou. Nós obstetras, às vezes você se sente como um xamã, muitas vezes nós somos o xamã, mas é isso algo importante? É algo válido isso de ser o xamã? Nós somos o xamã.

 

DR. JACOB PINHEIRO GOLDBERG – Eu sei que de certa maneira, a ciência pra vocês, estou muito sabedor disso, a ciência pra vocês representa um paradigma, é quase que absurdo, vocês tem necessidade de se ligar à isso, então eu fico um pouco em dúvida, se eu respondo aqui de maneira mais neutra, como psicoterapeuta, o me expondo mais, enquanto ser humano, e em termos individuais, dando uma resposta mais minha, quer dizer, responde o psicoterapeuta ou responde o Jacob?

 

ALUNO – Reponde o Jacob.

 

DR. JACOB PINHEIRO GOLDBERG – Mas o xamã, pra mim nós somos todos mestres da feitiçaria, todos nós somos mestres da feitiçaria, quer dizer, todos nós estamos trabalhando com a engenharia de almas, e eu acho quase impossível e me parece que talvez a própria ciência há de se curvar num determinado instante para esse fato de que nós estamos trabalhando aqui.. Existe um teólogo cristão, Teriyaki Chat, por quem eu tenho uma admiração muito grande, admiração essa por parte, me veio da minha esposa cristã, a Norma é uma expert em Teryiaki Chat. Teryiaki Chat tem uma passagem que me impressiona muito na qual ele diz que “na dimensão do infinito só o milagre é cientifico, só o milagre é obvio”, então essa é a reposta que eu posso lhe dar, sabe? Eu acho impossível tratar realmente com intimidade, com afinidade eletiva com o ser humano sem esta sacralização que a magia nos imbui, querendo ou não, é como ele disse, com muita propriedade, com muita coragem, com muita coragem, do povo brasileiro, que eu nunca tinha visto ninguém ter a coragem de dizer da maneira que ele disse. Então, mas aí a gente usa um assistente, e coisa e tal, no fundo é pra se defender mesmo, se defender daquele processo todo, não é?, é assim que eu vejo. E eu acho que essa feitiçaria não desnatura, não desqualifica, desde que feita com a seriedade, obviamente, isso exige, nos obriga e em cumprimento ao próprio mandamento da confiança, eu acho que não desnatura, não desqualifica, muito pelo contrário, eu acho que acaba significando uma valorização muito grande da condição dos dois. Tanto é que quando eu vinha hoje de manha para cá, eu acordei cedo para pensar um pouco a respeito dessa temática e eu fiquei pensando, já que você me deu a licença para falar mais como pessoa, eu fiquei pensando, eu tenho alguns médicos e alguns obstetras que fazem análise comigo. Um dia desses, eu escutei um deles e nós chegamos a uma conclusão que eu pensei em trazer para vocês, ele me dizia que a única fórmula, e isso foi o resultado de um laboratório de um trabalho que a gente tem feito sobre a ansiedade, e ele me dizia que a única maneira que ele acha que seria possível ele aliviar inteiramente a ansiedade e trabalhar um pouco em cima de tudo isso que a gente está conversando, seria acompanhar, na verdade, a gravidez nesse aspecto como se fosse também um parto dele, desde o começo, como um parto dele também. Então, quando você diz “então a gente aproxima o marido e o marido dá a mão”, mas um minuto antes você tinha dito com toda a razão, “mas a última coisa que ela quer ver naquele momento é o marido, a ultima pessoa que ela quer ver naquele momento é o marido”, e é verdade. Porque ali o que ela precisa é do estranho, estranho representado pelo médico, é do mundo, porque aquele bebê vai se representar, aquele feto vai ser bebê e este bebê vai ter que conhecer a alteridade, alteridade obviamente com ‘L’ e não com ‘U’, não é? Existe aí uma tradução que eu acho curiosa, né? Nesse conceito que em português, a gente tenta falar, mas eu não consigo pronunciar que é alteridade. É o outro, o outro é o mundo, é o estranho com quem a gente vai ter que aprender a trabalhar e a conviver porque em parte, não é na medida em que este bebê vai saindo da familiaridade, do tribal, que ele vai se apresentar ao mundo, vai se introduzir no mundo, e vai ser um cidadão. Pois não?

 

ALUNO – Em relação à resposta da dor, o paciente oriental?

 

DR. JACOB PINHEIRO GOLDBERG – Como?

 

ALUNO – O paciente oriental, ela sente muito menos dor, ou pelo menos expressa muito menos isso durante o trabalho de parto e até mesmo no parto, mas até que ponto os fatores raciais e de cultura têm influência, como influem?

 

DR. JACOB PINHEIRO GOLDBERG – Existe um trabalho interessante, o titulo é “Dor e Prazer”, que é um estudo sobre a hipersensibilidade, a dor, o mecanismo sadomasoquista e os fenômenos todos relacionados com o significado da dor, na nossa cultura e em outras culturas, e eu não sei se esse problema seria tão étnico, ou mais cultural porque aí existe uma distinção, que aí a gente precisa tomar cuidado, até onde é. Por exemplo, se você pegar uma criança negra, uma menina negra, que jamais teve infância e você criá-la segundo os parâmetros da nossa cultura, ela vai responder que muda totalmente. Então eu acho que o problema não é tão racial étnico, mas é mais cultural. E a gente sabe que as diversas culturas têm uma leitura diferenciada do discurso da dor.

 

ALUNO – Sobre a resposta do xamã, a sua resposta seria assim, dentro da psicanálise em geral, seria muito diferente da sua?

 

DR. JACOB PINHEIRO GOLDBERG – Teoricamente é. Teoricamente é ético. Eu disse isso numa entrevista há um tempo atrás, aí, que eu nasci ‘outsider’, no útero da minha mãe, sabe? Eu às vezes, fico em duvida se eu nasci em Juiz de Fora ou na Espanha, né? A minha tendência normalmente é a controvérsia. E teoricamente eu estou numa posição até vista com muita reserva, que a psicanálise tem uma certa pretensão na minha opinião de isenção. Na verdade é o pânico, como eles explicam, esse medo, quando você falava do medo, o médico pensava no medo, o psicanalista, que debaixo dessa injunção, desse medo de envolvimento, não é? E vive com esse medo. Freud chegava ao extremo de não dar a mão para o analisando, não cumprimentava dando a mão. E até existe uma passagem interessante de um psicanalista que tinha feito a análise com Freud, eu não me lembro agora o nome dele, mas é um dos sete primeiros psicanalistas formados pelo Freud, mandou uma carta perguntando pra Freud o que ele achava, que ele tinha uma analisando que quando se despedia dele dava um beijinho no rosto e o que é que o mestre, Freud, achava disso. E Freud disse que ele podia corresponder o beijinho no rosto, o problema não é o beijinho no rosto, é o que se pode seguir a isso. Então nós ficamos sempre nesse processo de aproximação e distância. Então voltando à sua pergunta, a psicanálise é a psicoterapia, teoricamente, essa posição de preconizar, o afastamento, o distanciamento, o movimento, é o que se chama de transferência. A posição realmente é diferente, acho que nós estamos ali num objeto sem volta, irreversível. Quando você tem coragem de assumir isso, ou então muda de profissão. Bom, essa é a minha opinião.

 

ALUNO – E quem se propõe a fazer o parto no escuro, aí o neném nasce, põe na água, faz carinho, e com isso ele fazendo com que o momento o parto seja um momento mais tranqüilo, não é? E só um detalhe, tem a fotografia dele fazendo o parto sem luvas. Daí então ele veio para o Brasil, alguns colegas quiseram fazer os partos, a gente teve alguma experiência nisso, porque passado se batia muito na criança, era muito comum, não tinha o neonatologista na sala, a criança tinha que nascer e chorar, se não chorasse , o habito era bater na bunda, apanhava, tem escrito não sei se o senhor sabe, pegava a criança com os pés pra cima e ao tentar bater na nádega dessa criança, batendo mais em cima, ate ruptura de supra-renal com morte fetal decorrente dessa batida. Então vem o parto com carinho. Quem é o mais importante para o Lebaue, ele, o medo passa a ser o artista, ele apaga a luz, ele dá o banho, outros rezam, outros “eu sou o mais importante”, é ele o mais importante? É a mulher? Poe música, outros querem embaixo da água, em cima da água, nesse momento ele foi visto, Lebaue foi visto como charlatão, nessa atitude dele, ele que é o importante? Ou ele esta realmente valorizando o feto? Ou a mãe, ou o pai? 

 

DR. JACOB PINHEIRO GOLDBERG – Estou achando curioso porque me parece que ficou subjacente como que quase o tempo todo começou um pouco nessa discussão, e está terminando nessa discussão. É um senso de auto-crítica de vocês que a mim, me agrada muito, essa tentativa de se questionar o tempo inteiro. Qual é o papel que naquele ‘happening’, porque basicamente é um ‘happening’, é talvez um dos mais importantes acontecimentos, é um grande evento, não é? Um evento que nós não podemos recusar, que tem muito de estética também, um início de arte, tem também, não é? Quer dizer, ali dentro existe uma composição dramática que talvez um médico, e é isso que percebi um pouco na colocação de vocês, talvez se ele se imbuir talvez desse papel mesmo, ele fique muito próximo da autenticidade. Não como uma demonstração ecóica, mas como uma demonstração de auto-centralidade, da sua importância também, porque não, tá bom, pessoal, muito obrigado pela atenção de vocês, até a próxima vez.

 

 

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CONVERSANDO DIREITO

TV UNIBAN

 

APRESENTAÇÃO                 -     DR. LUIZ FLÁVIO BORGES DURSO

CONVIDADO ESPECIAL    -     DR. JACOB PINHEIRO GOLDBERG

 

 

Ola!  Estamos mais uma vez começando nosso programa “Conversando Direito”, programa gravado diretamente daqui dos estúdios do “Nacional Clube” sob patrocínio da “Uniban”.

E hoje recebemos com muita alegria, o eminente Doutor Jacob Pinheiro Goldberg, que além de amigo, é um dos maiores psicanalistas deste país, advogado, e também Vice-Presidente para a América do Sul da Middlesex University de Londres. E o Dr. Jacob como uma das maiores autoridades sobre a saúde mental do homem, vem conversar conosco sobre isto, e a repercussão desta no campo do Direito.

É uma satisfação recebe-lo Dr. Jacob, e eu iniciaria com uma pergunta para que o senhor definisse aos nossos amigos qual é a sua atividade, como funciona a atividade do psicanalista porque geralmente é uma confusão entre o que faz o psicanalista, o psiquiatra, o psicoterapeuta, enfim, o psicanalista o que efetivamente faz, como esse profissional ajuda o homem?

 

DR. JACOB PINHEIRO GOLDBERG – Dr. Durso, o que acontece é o seguinte, a psiquiatria em linhas gerais ela faz o levantamento da condição, a avaliação da condição do paciente e trabalha muito com a área medicamentosa, então o psiquiatra trabalha muito com a área medicamentosa.

O psicoterapeuta é o profissional que trabalha com todas as áreas relativas a conduto do indivíduo, então por exemplo, ele pode usar a linha comportamental, que é uma linha norte-americana de trabalho, é uma técnica, em geral a curto e médio prazo e com objetivos nítidos, por exemplo, o sujeito está com problemas na família, problemas de relacionamento com a esposa, então ele vai fazer uma psicoterapia, psicoterapia no caso direcionada. Então a psicoterapia abrange todas as áreas inclusive a psicanálise. A psicanálise seria uma das linhas, uma das correntes de trabalho, um dos métodos de trabalho da psicoterapia no geral. Agora a psicanálise, ciência ou arte como alguns pretendem, e querem, criada por Freud, por Sigmund Freud, a psicanálise ela trabalha com o inconsciente, quer dizer, aquele que nós desconhecemos de nós mesmos. Quantas vezes você se surpreende com uma atitude ou um comportamento seu. “Mas meu D´us, porque eu disse isso? Porque eu fiz aquilo? A previsão não era essa, minha intenção não era essa, minha vontade não era essa, mas eu me comportei dessa maneira.” Então o objetivo da psicanálise é permitir uma introspecção, uma investigação que o próprio indivíduo faz de si mesmo. Ele fala em voz alta, e o psicanalista deve ajudá-lo ao ouvir o que ele está dizendo, e chamar a atenção dele para o que ele está dizendo. Então pouca intervenção e mais um processo de estímulo, perceba o que é que você está dizendo, perceba qual é a tua intenção mais profunda, que independe do consciente, da soberania da vontade, então esse é o trabalho do psicanalista.

 

DR. LUIZ FLÁVIO BORGES DURSO – Muito interessante. E efetivamente como está a saúde do homem moderno? Porque hoje com alguns fenômenos o consumo exacerbado, a globalização, isso de alguma forma reflete na saúde do homem, enfim, como é que está o andar desta saúde?

 

DR. JACOB PINHEIRO GOLDBERG – De umas décadas pra cá nós vivemos talvez algumas das revoluções mais dramáticas na histórica da civilização, em primeiro lugar a explosão demográfica, o número de pessoas. Hoje às vezes num bairro de São Paulo tem mais habitantes do que numa cidade de porte médio brasileiro algumas décadas atrás, então essa interação obrigatória com que você convive com as pessoas, hoje está provável que a proximidade e a interação têm um efeito imediato no indivíduo, numa cidade como o interior ou mesmo em São Paulo até algumas décadas atrás existia um espaço que não era meramente um espaço físico e externo não, era espaço interno, que você acordava de manhã, não havia poluição sonora tão intensa, não havia expectativa da violência que existe hoje, então começaram a ocorrer fenômenos e eles são universais que a gente pode chamar que são fenômenos das megalópoles, cidades gigantescas, não mais das grandes cidades, não é? Ainda há pouco tempo atrás eu estive em Amsterdã em um congresso aonde se discutia exatamente isso, qual é o impacto de você se encontrar diariamente com centenas de pessoas, porque tem indivíduos que imaginam que isso afinal é corriqueiro, que já nasceram assim Durso, não é? Praticamente, principalmente os mais jovens, eles não são capazes de imaginar sequer que há muitas poucas décadas atrás você encontrava por dia com 20, 30 pessoas, hoje você se defronta com centenas de pessoas.

 

DR. LUIZ FLÁVIO BORGES DURSO – Na verdade é aquela tranqüilidade da vida do interior.

 

DR. JACOB PINHEIRO GOLDBERG – Exatamente, isso deixou de existir. Qual é o fluxo disto, como resposta aos estímulos? Um deles por exemplo é a paranóia, isso é indocente a paranóia, você está andando no meio da rua, não é? Principalmente nas cidades violentas do mundo moderno, você está andando na rua você fica preocupado, o sujeito vem pra cima de você de uma maneira, você interpreta, esse sujeito é hostil, é violento. Não meramente por causa do assalto não, o sujeito que está mal humorado, você entra em um elevador já de manhã cedo, você convive no mesmo andar, com uma diferença às vezes não é nem de metros. Eu um dia desses fui visitar uns amigos no Morumbi, em um apartamento, você sabe Durso o que a gente conversava na sala, a gente ouvia o que o vizinho estava conversando na sala ao lado porque a parede era muito fina. Agora quais são as implicações disso no psiquismo do indivíduo? Invasão de privacidade, perda de contato com sua própria intimidade, quantas vezes o sujeito me procura e diz “Caramba, esse é o único horário na semana que eu penso em mim mesmo, que eu penso na minha mulher, nos mês filhos, no trabalho, na política, na economia, mas eu não penso em mim”.

 

DR. LUIZ FLÁVIO BORGES DURSO – Dr. Jacob indagando-lhe sobre a internet, o fenômeno da internet, ela ajuda o homem? Ela prejudica sua saúde mental? Ela faz o homem crescer enquanto criatura humana ou ela trás conseqüências da nossa saúde mental?

 

DR. JACOB PINHEIRO GOLDBERG – A internet introduziu na realidade de cada um de nós pelo menos dois grandes princípios, duas grandes realidades, a instantaneidade e a simultaneidade, de certa maneira você acabou-se conectando com o mundo, então você é ali um individuo conectado com o mundo, você manipulando o teclado, você entra em contato com a Austrália, com Sidney, e conversa principalmente com alguém que você talvez nem sequer conheça, você tem seus interlocutores, as pessoas que você conhece, que quer entrar em contato, mas também tem seus espaços pra dialogar com quem você nem sequer conhece. Então alguns aspectos que isso provoca, primeiro, uma tendência muito grande pra fantasia, pra fantasia, você através da internet mais ou menos pode imaginar o que quiser, perigo disso, perigo disso, onipotência, e megalomania principalmente para o jovem, o jovem começa a se sentir extraordinariamente poderoso, porque ele se imagina um pouco dono do mundo ali daquele lugar onde ele se encontra, e de certa maneira é uma verdade que houve uma expansão de forças, para usar a expressão de Marshall McLuhan, nós acabamos ficamos muito mais poderosos, os nossos sentidos se ampliaram demais, no momento em que você conversa online e direto, instantâneo e simultâneo com um amigo seu em Londres e outro amigo em Nova York, você cai naquilo que se chama vertigem, e que tem um lado positivo que é o da liberdade, da expansão, mas tem um lado perigoso, um lado que pode se transformar em mórbido e patológico, que é do labirinto. Tanto é que é a labirintite Durso, é uma das doenças do nosso tempo, aliás, eu fico preocupado quando eu percebo quão pouca importância está se dando à essa  doença, a labirintite. Eu até escrevi um estudo foi publicado em Oakland nos Estados Unidos o ano passado a respeito da labirintite. A labirintite, pra você ter uma idéia, existem 2.000 mil causas que teoricamente pode levar um indivíduo a ter uma labirintite. 2.000 causas é quase tudo, então a labirintite é uma das chamadas doenças contemporânea, por quê? Porque o homem se sente dentro de um labirinto, se sente perdido, é uma sensação de perdição como se não houvesse saída, é muita informação, e pouca capacidade de assimilar, de digerir essas informações, principalmente pela internet, então eu acho que particularmente para o jovem é preciso tomar cuidado, é preciso disciplinar, não pode ficar ali fascinado, seduzido por um encontro que perigosamente pode se transformar num encontro com você mesmo.

 

 

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PROGRAMA - DIÁLOGOS IMPERTINENTES

TEMA – ALIENAÇÃO

 

 

MÁRIO SERGIO CORTELLA - Iniciamos agora mais um programa da série “Diálogos Impertinentes”, esta é uma promoção conjunta do Jornal Folha de São Paulo, do SESC – Serviço Social do Comércio, e da Puc de São Paulo.

Nós estamos ao vivo do Teatro Pompéia na capital paulista pela Rede Sesc/Senac de Televisão, pela STV, essa é uma produção da TV PUC. “Diálogos Impertinentes” hoje trata do tema “Alienação”.

Nossos dialogadores, Jacob Pinheiro Goldberg que é psicanalista com doutorado em psicologia, Jacob também é advogado, assistente social, e tem atuações como professor convidado entre outras, University College London, Medical School, também na Middlesex University na Inglaterra, na Universidade de Varsóvia, além de ter atividades eventuais na USP, na PUC de São Paulo, PUC-CAMP, UNB, na Universidade Mackenzie.

Jacob Pinheiro Goldberg é escritor e poeta, autor de vários livros publicados no Brasil, e no exterior, tais como, “A Mágica do Exílio”; e um outro “Cultura da Agressividade”, ambos publicados pela Landy Editora, e também lançou “A Clave da Morte”, pela editora Maltese.

Pra conversar com o Jacob Pinheiro Goldberg sobre “Alienação”, nós convidamos o Marcos Nobre, que é filósofo, ele é professor do Departamento de Filosofia, da Universidade de Campinas, e também pesquisador do Sebrap, ele se dedica aos estudos de autores e temas da Teoria Crítica em especial em Adorno, Horkheimer, Habermans, também Benjamin, entre outros livros o Marcos Nobre, é autor de “Lukács e os Limites da Reificação”, um estudo sobre a história e consciência de classe, e é co-autor do volume de entrevistas “Conversas com Filósofos Brasileiros”, são ambos livros publicados pela Editora 34, além de outras obras também publicou  “A dialética negativa” de Theodor W. Adorno, a antologia do estado falso, pela Iluminuras com apoio da Fapesp.

Para mediar essa conversa, sobre “Alienação”, nós convidamos Oscar Pilagallo, que é colaborador do Jornal Folha de São Paulo, na qual foi editor do Caderno Sinapse, e minha, Mário Sergio Cortella, que sou professor do departamento de teologia e ciências da religião da PUC- SP.

Jacob eu queria começar essa conversa contigo, aproveitando sua formação psicanalítica e lembrar o seguinte, nós conhecemos muito a noção de alienação do nosso país, por intermédio de uma obra que muitos leram do Machado de Assis, que não por acaso foi chamado de O Alienista, mais do que o alienado ele escreveu “O Alienista”, que a gente lembra da história uma pessoa profissional da área que vai internando pessoas dentro da cidade até que só resta ele do lado de fora, e os franceses costumam até hoje chamar de asilos, de alienados, ou aquilo que nós chamamos no Brasil de hospício.

A alienação, ela está ligada, você acha, a uma forma de demência? De estado mental perturbado? Ou ela é uma condução humana natural?

 

DR. JACOB PINHEIRO GOLDBERG - Machado de Assis, na sua genial e de alguma forma talvez isso já esteja no bojo da sua própria genialidade, e até na fronteira biográfica dele, com as questões relacionadas com o desequilíbrio.

Machado de Assis foi capaz de apontar algo que está permanentemente presente na prática da psicanálise, na prática da psiquiatria, da psicoterapia, que é a visagem com esse conceito altamente relativizado do que seja sensatez, lucidez, “normalidade” e demência ou alienação. Talvez uma das coisas mais comuns que a gente percebe, já desde a primeira, do primeiro encontro entre o analisando (eu não gosto da expressão paciente), eu costumo dizer que se alguém tem que ser paciente nessa relação, é o analista, o analisando tem que ser impaciente. Mas uma das primeiras verificações que você observa é exatamente essa auto-indagação, “O que é que eu tenho feito da minha vida? Quem sou eu? Quem é que está presente aqui nesta interlocução? Eu me pretendo outro”, lembrando Rimbaud, “eu sou outro”. E é muito interessante porque, fica quase oscilando entre ansiedade, angústia e dependendo das circunstâncias, prejudicando até a qualidade de vida do indivíduo, esta noção de que ele desempenha um personagem com o qual ele definitivamente não está de acordo. Ele se sente alienado de si mesmo, e é talvez esta busca do si, que se transforma em um enigma, em desafio e numa permanente inquietação para aquelas duas pessoas que estão tentando ali se entender naquilo que acabou para mim inspirando o título de um de meus livros que foi “Monólogo a dois”, que é muito mais que um diálogo, é isso que você percebe que ali se instaura, duas pessoas tentando compreender outras duas que estão ausentes, mas por estarem ausentes são mais presentes do que jamais.       

 

MÁRIO SERGIO CORTELLA – Jacob se assim é, como o Marcos está dizendo, e se não é a condição de um indivíduo alienação, como que é possível a psicanálise, se ela é de natureza individual? Ou seja vou perguntar de outra forma, a alienação tem cura?

 

DR. JACOB PINHEIRO GOLDBERG – Eu imaginei que você, ou o Oscar, ou o próprio Marcos de alguma maneira iam colocar, quer dizer, seria irrefutável a colocação desta dúvida, dessa pergunta, e eu muito me questionei a respeito, e fiquei pensando se deveria responder com toda franqueza ou com quase toda franqueza, e continuo ainda num meio-termo, oscilando, mas acho que vou tentar responder com toda franqueza.

Eu acho que a alienação é a condição essencial da condição humana, eu acho que “nós nascemos alienados porque nós somos expelidos, nós nunca estamos em nós”, e eu acho que exatamente é a coragem existencial dessa busca que é uma busca aparentemente sem sentido porque ela já se inicia com a destinação do não encontro, na verdade nós sabemos que não vamos nos encontrar, e eu me lembro, talvez você possa me ajudar a fazer a afirmação com absoluta dignidade, mais nítida dos últimos tempos da vida dele quando ele diz que precisa se libertar das mentiras. Eu acho que de alguma maneira nós vamos superpondo na nossa história heranças, acréscimos, de tal maneira que se alienar é se libertar. E quando você fazia a pergunta para o Marcos eu me lembrei de um episódio histórico em um Congresso da União de Brasileiros de Escritores em que Guimarães Rosa foi chamado de alienado, e ele disse que assumia com orgulho essa condição e de certa forma eu também concordo com o Marcos que é as palavras, os conceitos eles são altamente mutantes, vão mudando de sentindo, vão enfraquecendo, mas me parece que alienação acabou também se transformando numa identificação política e ideológica, mas pra mim seu ponto de vista da psicanálise quando você pergunta se tem cura? Eu acho que fica muito perto desta assunção da nossa individualidade, da nossa singularidade absoluta e por isso mesmo é alienatória, ela não pode fazer parte, ela não deve fazer parte, nós temos que ser “fora”, nós temos que ser “outsider”, nesse sentido que sinaliza a liberdade, a libertação , é a diferença, “eu não quero ser aquilo que me foi atribuído, eu quero ser aquilo” lembrando Sato, “o que importa não é o que a vida fez com a gente, mas aquilo o que a gente com que a vida fez pra nós”.

 

MÁRIO SERGIO CORTELLA – Quando você fala que a alienação é inerente a condição humana, significa o que? Que nós nos estranharmos, pra pegar o sentido original de “alhos” em latim a noção de estranho, nós nos estranharmos o tempo todo,  e não nos encontrarmos, ela é uma condição positiva pelo o que você falou?

 

DR. JACOB PINHEIRO GOLDBERG – Eu acho que sim, como se fosse um jogo permanente de busca, de procura, mas a regra fundamental é kafquiana, o pacto é “eu sei que não vou me encontrar”, porque a virtualidade, um encontro final na minha opinião é o termino de toda tensão, portanto é a morte, a gente se encontrou, morreu, acabou, terminou, ele se fez, realizou. Alias está expressão eu detesto, “realizado”, o indivíduo que chega diz assim, “eu sou um homem realizado”, eu fico desesperado.

 

MÁRIO SERGIO CORTELLA – Marcos Reagan, Reagan falava um pouco dessa palavra de realização no sentido de tornar real, e falava de alienação. Se eu pego no ar essa palavra que foi usada pelo Jacob, diz assim, é inerente “está na nossa condição”, ele até não gosta da expressão “realização”, quer dizer, um homem realizado, é um homem progressivo em termos de projeto.

 

 

DR. JACOB PINHEIRO GOLDBERG – Eu estava pensando aqui, e teve um momento que eu fiquei em dúvida se não seria possível a gente imaginar não que nós não estivermos divergindo mas nós estivéssemos simplesmente estivéssemos caminhando por estradas diferentes, uma das idéias que me veio, mas infelizmente ou felizmente para a discussão eu acho que nós estamos divergindo mesmo.

Os árabes, eles tem uma colocação interessante no seu ponto de vista filosófico que diz mais o menos o seguinte “a condição humana, a vida, não é a mão que joga a flecha, é a flecha que foi jogada”. Num Congresso de Filosofia realizado em Paris, quem conta isso foi Arthur Koestier, um filósofo marxista tava falando a respeito da perfeição que seria numa sociedade do futuro organizado segundo uma ótica marxista, uma concepção marxista, em que tudo correria de uma maneira harmônica, enfim, e aí uma das pessoas que estava assistindo perguntou, “mas o sujeito que morre atropelado por um acidente de trânsito?”, e o filósofo disse “mas jamais aconteceria um acidente de transito como uma sociedade marxista”.

 

MARCOS NOBRE – Pra mim, esse é um marxista de araque.

 

MÁRIO SERGIO CORTELLA – Marxista alienado.

 

MARCOS NOBRE – Uma marxista de araque. (risos)

 

DR. JACOB PINHEIRO GOLDBERG – Mas qual deles era o marxista de araque, o que estava ouvindo a discussão ou que respondia? (risos)

 

MARCOS NOBRE – O que estava ouvindo a discussão tava simplesmente querendo ver o outro naufragar fazendo uma pergunta dessa, com essa ele não consegue sair.

 

DR. JACOB PINHEIRO GOLDBERG – Pensando aqui enquanto você falava em naufrágio eu me lembrei do poema do Rimbaud que é belíssimo, Lê Bateau Ivre “O Barco Bêbado”, e de certa maneira eu me identifico muito com essa imagem, eu acho que de alguma sorte cada um de nós é um barco a deriva nessa vida.

 

MÁRIO SERGIO CORTELLA – Entretanto qual seria o lugar da alienação nessa deriva? Ela é o movimento de acalmar um espírito que se não fosse alienado não fosse seria atormentado por deambular ou derivar por aí? Ou seja a alienação é uma benção?

 

DR. JACOB PINHEIRO GOLDBERG – Navegar não é preciso, viver é preciso.

 

MÁRIO SERGIO CORTELLA – Quando Marcos usou a expressão de novo que Marx traz, que é o “estranhamento”, a gente de vez em quando fala assim “qual é, tá me estranhando?”. Você acha assim, “eu to me estranhando” a gente acorda “eu não estou me reconhecendo” é o nosso reconhecimento, é uma coisa que Marx trata falando de Reagan, é a reflexão. ”Está me estranhando” significa o que?

 

DR. JACOB PINHEIRO GOLDBERG – Eu acho que quando você pergunta para o outro “está me estranhando”, na verdade é uma indagação especular, você está perguntando a si mesmo, porque é muito freqüente essa sensação, ontem eu não estava dentro de mim mesmo, “eu saí de mim mesmo”, e é muito interessante porque quando você ouve isso com uma certa possibilidade você tem condição de fazer uma re-leitura de que no anverso ele está dizendo o oposto, de que quando ele saiu de si mesmo é que ele foi ele mesmo. Então às vezes o que nós temos de melhor é aquilo o que é menos pertinente, aquilo que nos é mais estranho, ou seja o que nos é mais próximo, é o que nos é mais distante.

 

MÁRIO SERGIO CORTELLA – Não fica muito paradoxal o tempo todo?

 

DR. JACOB PINHEIRO GOLDBERG – Fica, a vida é paradoxal.

 

MÁRIO SERGIO CORTELLA – Nós ficamos tranqüilos com a vida paradoxal?

 

DR. JACOB PINHEIRO GOLDBERG – Não, nós ficamos absolutamente intranqüilos.

  

MÁRIO SERGIO CORTELLA – Você é atormentado pelo que? Você imaginário como individuo, não só você Jacob, mas você na historia partilhando esse momento da vida no séc. XXI, na datação cristã ocidental, o que nos atormenta hoje?

 

 

DR. JACOB PINHEIRO GOLDBERG – Engraçado, eu pensei que você iria fazer a pergunta mais debaixo da perspectiva individual, e eu já estava com a resposta pronta na língua, daí você foi para o viés, agora eu fico em dúvida, mas eu fico meio encantado com a possibilidade de dar a resposta ainda debaixo da noção do tormento individual. Eu acho que a minha alienação, se você me permite eu ia por esse caminho de resposta que se chega muito mais perto de mim inclusive, inclusive por causa da poesia a qual você aludiu, eu tomei conhecimento da minha alienação através do outro, eu nasci no interior de Minas, em Juiz de Fora, estudei no Instituto Granbery que era um colégio evangélico, eu sou filho de família de judeus, não obstante ao Pinheiro que muita gente confunde, e isso deu uma serie de margens de confusões esdrúxulas e desinteressantes mais enfim, fui estudar em um colégio evangélico e a primeira informação interna e pra usar, eu achei maravilhosa a sua inserção das colocações do Reagan a respeito da fatalidade do dilaceramento da condição humana, foi quando me chamaram de “Dumbo”, eu tinha orelhas de abano, eu nasci com orelhas de abano, e aí eu fui até em casa e me olhei no espelho e percebi que sem dúvida nenhuma por mais que eu fizesse, naquilo eu era diferente, então, daí a origem do tormento. Então muito menos que razões econômicas, sociais, mesmo políticas ideológicas não obstante dessa época estava acontecendo na Europa o genocídio e familiares dos meus pais sendo assassinados pelos nazistas, mas o crime mais próximo, tormento mais perto era o “Dumbo”.

 

 

MÁRIO SERGIO CORTELLA – Já era na época o “Dumbo” do desenho de Walt Disney?

 

DR. JACOB PINHEIRO GOLDBERG – É uma belíssima pergunta, eu não saberia dizer pra você. Bom, como eu disse para você, o meu pacto com a alienação nasceu quase obrigatório porque a rejeição, a recusa dessa alienação seria quase que impossível, você não consegue se confrontar com um grupo de crianças, hoje tem essa idéia do crime, “bullying”, não é? As crianças são muito cruéis, então é muito difícil você, uma criança sozinha enfrentando um grupo disposto a destruir tua personalidade, então eu encontrei esse outro caminho, que é o caminho da sublimação, bom não dá pra brigar com todos, então eu escrevo poesias. 

 

MÁRIO SERGIO CORTELLA – Jacob, o Marcos diz assim a mídia ou outros meios de comunicação, veda as discussões dos problemas reais ou a real discussão dos problemas. Você seria capaz de estabelecer com clareza um princípio para fixar o que é a realidade? Pra eu poder dizer a real discussão. 

 

 

DR. JACOB PINHEIRO GOLDBERG – E também, a questão que o Marcos coloca, e nesse aspecto eu acho que a crítica que ele formula é muito procedente da importância da hierarquia dos assuntos e também a questão das divergências do dissenso. Eu me lembro que alguns anos atrás a Marta Suplicy me convidou, e eu participei da construção, do começo da construção do Grupo TV que tinha exatamente essa intenção de fazer uma analise crítica da televisão e alterar um pouco os jogos de pressão também sobre a vítima, porque me parece que isso também é fundamental. Quando você fala, quando você diz “quanto maior o número de vozes e se possível de sonantes participarem das discussões” eu acho que por aí que vai a resposta da sua pergunta. A mim, me parece e ai eu lembro o conceito de Goethe, “tudo que eu mando me concedem”, acho que tudo que é humano é importante, eu não conheço ninguém no mundo desimportante, e eu me lembro de um ex-presidente da república que produziu uma frase (eu já disse isso de varias vezes em programas de televisão), que foi uma das frases mais brutais que a ditadura no Brasil foi capaz de imprimir que ele dizia “ninguém era insubstituível”, eu acho totalmente o contrário eu acho que ninguém é substituível, e eu inclusive na ocasião pensava na senhora mãe dele, se alguém seria capaz de substituir a mãe dele, então a mim, me parece que a mídia, nesse aspecto eu vejo uma revolução na internet, nessa nova linguagem, eu acho que ela é revolucionária nesse aspecto. Tem um livro muito interessante do Norbert Wiener chamado “Golem &¨Cia.”, um livro extraordinário, no qual ele fala dessa função revolucionária social da internet porque ela dá voz pra aqueles que não tinha voz. 

 

 

MÁRIO SERGIO CORTELLA – Aparece uma questão pra você Jacob de uma estudante que diz o seguinte: Até que ponto nos podemos culpar a televisão e a internet pelo processo de alienação da juventude? Será que muitos desses jovens não procuram conscientemente se alienar dos problemas políticos e sociais e assim criar um mundo mais palatável através desses e-mails? Ela mandou um e-mail pra falar nisso (risos).

 

DR. JACOB PINHEIRO GOLDBERG – Eu gosto dessa colocação que ela fez, me agrada essa colocação. Eu a vejo como uma oposição estética (não sei como eu falo isso) mas eu acho política chato.

 

MARCOS NOBRE – Todo mundo tem um defeito (risos).

 

DR. JACOB PINHEIRO GOLDBERG – A mim, me agrada que esse cenário, que o jovem acaba formulando através da internet principalmente, e esse correio, que é um correio interessante, espicaçante, desafiador que é esse e-mail, o blog, o site, eu acho que é uma grande promessa, me parece que está descortinando, que é ao mesmo tempo contraditório, é paradoxal, porque no começo quando apareceu surgiram aqueles que alegavam que seria mais uma forma de alienação porque afastaria as pessoas uma das outras, que as pessoas ficaram em casa, não iriam se encontrar, era a nostalgia da pracinha, que o sujeito lá pronunciando e imaginando que o único meio de um ser humano se encontrar com o outro, é ficar flertando debaixo da arvore lá no interior, em Juiz de Fora, mas havia outras maneiras como essa, que agora aparece. Você se comunica com alguém da Austrália e acaba inclusive se apaixonando. E as pessoas chegam, é interessante, no consultório a pessoa diz assim “o senhor acha que eu sou um alienado?”, “o senhor acha que estou fugido?, porque eu estou apaixonado por uma pessoa que eu nunca vi”, mas a paixão quase que só se justifica quando a gente é cego.

 

MÁRIO SERGIO CORTELLA – Jacob, estão telefonando e perguntando: Se alienação crista, religiosa, ou alienação do ponto de vista da fé. 

 

DR. JACOB PINHEIRO GOLDBERG – Dizer que a religião é óbvio do povo, é um clichê que passou pra história com uma força de impacto muito grande. Se eu puder fazer distinção entre a idéia de religião enquanto estrutura social e a manipulação do desespero da condição humana através da fé, nesse aspecto eu acho que a religião é um instrumental para essa exploração que o Marcos de uma maneira tão nobre, tão generosa e quase se resvalando no quixotesco, mas se lança com toda sua energia, nesse aspecto a religião é sim, sem dúvida nenhuma uma força para a alienação no pior dos sentidos, quer dizer o uso do desespero, da carência, do desamparo da condição humana que eu acho inerente à própria condição humana para que essa exploração seja levada ao seu extremo. Agora quanto à espiritualidade daí eu já vejo exatamente no inverso, eu vejo, e é interessante porque isso me dá oportunidade no ensejo talvez de definir melhor essa minha posição, porque no aspecto espiritual e talvez por aí, eu até ouse imaginar que chego perto de Reagan, eu acredito que só na espiritualidade que essa alienação se realiza, é nesse grande outro, que alguns prefiram chamar de D´us, é que eu acho que existe a verdadeira remissão, a verdadeira possibilidade da superação final desse dilaceramento de cada um de nós. É claro que corro o risco da pieguice dizendo isso, mas não tenho como fugir desse risco. É essa espiritualidade que eu acho que é o grande território da plenitude e da paz, da possibilidade de eu esquecer definitivamente desse “mim mesmo” e mergulhar nesse “outro” e daí, no “grande outro”. 

 

OSCAR PILAGALLO – Uma pergunta para o Jacob, feito aqui pelo auditório: Onde há reconhecimento, não há alienação, sendo assim qual é o papel da psicanálise se alienação é da condição humana.

 

DR. JACOB PINHEIRO GOLDBERG – A idéia de que cada um de nós busca e procura a aprovação do conhecimento (se é que e entendi bem a pergunta), que é uma das minhas colocações que são feitas a respeito dessa investigação contra a personalidade, quer dizer o individuo estaria na sua trajetória pessoal em busca do reconhecimento, do aplauso, do amor do outro, se é que eu entendi a pergunta, essa é uma colocação que se faz, não é a minha. Eu não acredito que um indivíduo que se investiga, que é introvertido, mergulha dentro de si mesmo pra compreender seu papel na vida, eu não acredito que ele procure o reconhecimento como uma etapa final desse processo, eu acho que faz parte do processo, esse reconhecimento, “eu sou importante, eu mereço, e eu preciso ser reconhecido pelos meus pais, pelas pessoas que também são importantes para mim”, mas eu não vejo isso como uma etapa final, se é que existe etapa final, mas eu diria que uma etapa importante na minha opinião ela vai num sentido mais quase búdico que seria do alto reconhecimento, quer dizer, eu me reconheço como irreconhecível, eu sou mais do que eu possa conhecer de mim mesmo, e é isso que me dá esperança, e que dá fé, e que dá possibilidade, enfim, que dá prospectiva, que dá promessa. E eu gostaria de dizer Marcos, que eu começo a me sentir desconfortável aqui numa posição, quando você faz as suas divagações a respeito da crítica à sociedade capitalista, em geral, e brasileira em particular, eu quero dizer pra você que eu fico aqui meio com receio quando você disse “Ah! O Jacob é existencial”, dizer que eu avaliso por inteiro essas posições e que nesse aspecto sem dúvida nenhuma pelo menos nós somos companheiros de viagens. 

 

 

MÁRIO SERGIO CORTELLA – Quase o Jacob falou, eu não sou um alienado. (risos)

 

OSCAR PILAGALLO – Pergunta de auditório: O sexo tem poder de alienar o ser humano? A paixão aliena?

 

DR. JACOB PINHEIRO GOLDBERG – Eu acho que no aspecto da alienação entendida e ai é claro, eu acho que fica evidente, fica óbvio, eu concordo com o Marcos de que alienação tem que ser vista sob os dois aspectos dialeticamente negativa e positiva, existe uma alienação que é sofrida, que é patológica, que é mórbida, que ela só faz sofrer, e que nos remete a sua primeira pergunta que é questão da demência sob o ponto de vista de saúde mental.

 

MÁRIO SERGIO CORTELLA – Perguntam se a saída pra loucura não seria a alienação?

 

DR. JACOB PINHEIRO GOLDBERG – Talvez de alguma maneira o entendimento com a alienação, a compreensão com o diálogo com a alienação pode ser a saída não só para a loucura individual mas para a loucura social que pode ser representada pelo sistema da exploração de um ser humano por outro ser humano, quer dizer, nesse aspecto acho que é preciso o passional, eu acho que sem paixão não existe possibilidade, e nesse aspecto eu gostaria de fazer uma deferência especial, algo que você veja, perpassou no programa pelo menos duas vezes que é a figura extraordinária do Raul Seixas, talvez ninguém mais do que ele foi considerado alienado e eu acho, não sei se alguém mais do que ele assim de momento que me lembre, só me toca tanto o Guimarães Rosa, mas sem dúvida, o poeta da dor e da esperança, e também da dor e do riso do cancioneiro brasileiro, da alma brasileira foi esse alienado Raul Seixas.

 

MÁRIO SERGIO CORTELLA – Metamorfose ambulante.

 

 

  

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Entrevistas

JACOB PINHEIRO: MY FAIR LULA

Por Alex Solnik Setembro 27, 2008 Comente

Baseando-se no que viu, leu e ouviu durante a recente campanha presidencial, o analista de comportamento Jacob Pinheiro Goldberg*, afirma que o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva “tem personalidade messiânica e camaleônica, o que é preocupante, porque toda personalidade camaleônica é problemática”.

Por Alex Solnik

Ele compara a sua transformação durante a campanha presidencial à de Elisa na comédia “My Fair Lady”, de Barnard Shaw, na qual a moça, por obra de mr. Doolittle se transforma de camponesa em mulher da alta sociedade. A Duda Mendonça, o mr. Doolittle de Lula, Goldberg chama de Rasputin. O psicólogo define Ciro Gomes, um dos aliados de Lula, como “mistagogo, um mix de místico e demagogo, assim como o ex-presidente Fernando Collor”. Garotinho, outro aliado do novo presidente da República “é uma personalidade frágil, confusa, que ninguém leva a sério”. “Para quem gosta de monta