ENTREVISTAS E MATÉRIAS

 

A MORTE DE ULYSSES GUIMARÃES

MORA – O MAR – AMOR

 

O jornal O GLOBO, do Rio de Janeiro, publicou no dia 17 de outubro de 1992, comentários em que Jacob Pinheiro Goldberg falava sobre a morte de Ulysses Guimarães, adiantando:

 

“O trauma nacional provocado pelo desaparecimento de Ulysses Guimarães foi tão intenso que nem mesmo o possível encontro do corpo poderá derrubar o mito que já começou a nascer. A demora na localização do cadáver determinou o crescimento irreversível de um sentimento nacional de perda. A sensação de orfandade já está cristalizada”.

 

“O desaparecimento de um líder como Ulysses premia a vocação sebastianista do povo brasileiro. Com o desaparecimento do corpo de Ulysses, o povo encontra o seu rei Sebastião, a figura adorada que um dia foi ao mar, nunca mais voltou, mas cujo retorno continua sendo esperado”.

 

No mesmo dia, a convite da Rádio CBN, de São Paulo, concedeu uma entrevista para o jornalista Adilson Freddo:

 

 

Transcrição da entrevista (sem revisão):

 

Adilson Freddo – “A reencarnação não passa de um mito? E a ressurreição, será que ela é possível? Cemitérios devem ser lugar de pranto ou de celebração? Você chora ou fica feliz quando alguém parte? O medo da morte indesejada é justificado? O pós-morte é melhor ou pior do que a vida? Será que o luto é uma insensatez? E a dicotomia corpo e alma é uma realidade? Existe a morte ou ela não passa de uma ilusão da vida? São perguntas, naturalmente, que você faz no seu dia-a-dia. As vezes quando pára à noite, esta deitando na cama, pensando na vida e analisando os fatos do momento... essa trágica norte do deputado Ulysses Guimarães e a sua esposa, e o casal Severo Gomes. Enfim, essas perguntas você faz no seu dia-a-dia.

E, a partir de agora vamos conversar com o Dr. Jacob Pinheiro Goldberg, que é Ph.D. em Psicologia e Psicoterapia pela Universidade Mackenzie e professor-convidado da Universidade da Hungria. Eu pincei essas frases do livro “A Clave da Morte”, que é do Prof. Dr. Jacob Pinheiro Goldberg e também de Oscar D’Ambrósio. Ele está conosco, é amigo pessoal do deputado Ulysses Guimarães e vai falar sobre a análise psicológica do deputado Ulysses Guimarães. Dr. Jacob, bom dia!

 

Dr. Jacob Pinheiro Goldberg – Bom dia.

 

Adilson Freddo – Bom, o que nós podemos dizer nesse momento sobre... Vamos começar pelo livro, antes da gente entrar na questão da sua amizade pessoal com o deputado Ulysses Guimarães, infelizmente falecido. “A clave da morte”... como surgiu a idéia de fazer esse livro?

 

Dr. Jacob Pinheiro Goldberg -  A idéia de fazer esse livro surgiu após a morte da minha mãe, a poeta Fanny Goldberg. Eu nasci lá em Juiz de Fora, Minas Gerais, e a minha mãe era uma imigrante polonesa judia. Foi morar lá em Juiz de Fora e durante muitos anos ela era uma mulher dedicada só aos afazeres da casa, só aos afazeres do lar. E, dois, três anos antes de ela morrer, ela achou que devia escrever poesia. E com muita simplicidade, com ingenuidade, aquela simplicidade das mulheres da geração dela... ela começou a escrever poesia. E um dia, uma noite, aliás, ela estava ficando cega, antes de morrer. E ela escrevia de madrugada com lupa. Ela pegava a lupa e fazia os garranchos e ia escrevendo. Falando a respeito da cozinha, do dia-a-dia da casa dela. E os poemas dela sobre o coloquial, uma espécie de Cora Coralina judia. Eu cheguei para ela e falei – “Mãe, mas porque a senhora resolveu escrever poesia?” Ela já estava com setenta e poucos anos, e ela disse: “Olha, meu filho, é porque eu quero continuar. Eu sei que eu vou morrer, que eu estou doente, e eu queria continuar. E eu acho que se eu escrever poesia, de uma certa maneira, quando alguém estiver lendo ou falando os meus poemas, eu vou estar continuando a viver”.

Quando ela morreu foi um choque muito grande para mim. Eu acho que para o ouvinte também... quando ele perdeu a mãe dele e o dia que ele perder a mãe dele... porque ninguém gosta de conversar sobre a morte. Mas é preciso falar sobre a morte... Eu acho que a morte devia ser uma matéria obrigatória nas escolas desde o curso primário. As pessoas dizem: “Mas, que tema sombrio, tema desagradável. Ora, mas isso é um absurdo. Isso é um contra-senso”. Tendo em vista que a morte é a única realidade absolutamente universal que todos nós vamos ter que enfrentar um dia. Será que não é cruel você esconder isso dos seus entes queridos, dos seus entes amados? Você prepara teu filho pra tudo. Coloca seu filho para fazer curso de computador, para tocar violão, mas não prepara para essa hora que é tão difícil, que é a hora do desconhecido, mergulhar no abismo do desconhecido. Mas isso é covardia. Não ter a coragem de dizer um pouco do que você sabe ou o pouco que você não sabe. As vezes preparado...

 

Adilson Freddo – Talvez até como forma de preservar a própria vida, não é?

 

Dr. Jacob Pinheiro Goldberg – Exatamente. E valorizar a própria vida. Porque se você imagina que vai viver mil anos eternamente... As pessoas em geral negam a própria morte. E ficam pensando na morte do vizinho, principalmente na morte do inimigo. Quer dizer, fica presumido que o outro morre, mas que ele é eterno. Aí você não valoriza a vida.

 

Adilson Freddo – O que você imagina... por exemplo, qual é a pergunta que mais a pessoa faz sobre a morte, consigo mesmo ou nas conversas que o senhor tem?

 

Dr. Jacob Pinheiro Goldberg – Olha, em geral...

 

Adilson Freddo – A pergunta maior?... Para onde é que nós vamos?

 

Dr. Jacob Pinheiro Goldberg – Para onde é que nós vamos. Eu acho que a pergunta maior é essa mesmo: se vamos para algum lugar. Se vamos. E a melhor resposta que eu tenho encontrado para isso, ele é baseada num mito da sabedoria antiga. A pergunta é assim: “De onde é que você veio? ... De onde você veio? ...  De onde é que você veio? ...” Porque nós viemos de onde? Nós viemos de uma troca de olhares, nós viemos de um sorriso, nós viemos de uma caricia. Ou seja, nós viemos do nada, da abstração. Um homem e uma mulher um dia se desejaram. E nós viemos do desejo. Alguém pode dizer: Não, não é verdade, nós não viemos do desejo. Nós viemos do sêmen, nós viemos do útero. Não, não, não,não. Essa foi a segunda ou terceira etapa. Na primeira etapa nos viemos de uma intenção, e é realmente esta intenção, é este nada que pode nos dar alguma informação sobre depois da morte. Porque se existe alguma similitude lógica, algum raciocínio lúcido, só pode ser esse. Nós vamos para onde nós viemos. Agora, você repara que ninguém tem medo de onde veio. Eu nunca vi ninguém chegar e dizer “eu to apavorado, eu não sei de onde vim”. E porque então tem medo de para onde é que vai?... Por uma questão antropológica.

 

Adilson Freddo – Daqui a pouco nós vamos conversar mais com o Prof. Dr. Jacob, falando exatamente sobre a amizade pessoal com o deputado Ulysses Guimarães e também uma análise sobre o deputado. Agora nós temos mais informações sobre o encontro de um corpo em Parati, Rio de Janeiro. Faltam dois corpos ainda. Um deles já foi encontrado.

 

(...)

 

Adilson Freddo – A gente fora do ar estava conversando um assunto interessante, eu acredito que você amigo que está nos ouvindo também gostaria, por exemplo, de após perder um ente querido, um pai, uma mãe, um irmão até um amigo, naturalmente tem vontade de sonhar com esse amigo. Você talvez não consiga sonhar com esse amigo, com esse parente, enfim, com essa pessoa que você tanto queria e que partiu desse mundo. E a gente estava falando sobre o sonho provocado. Eu gostaria que o Dr. Jacob passasse a nossa conversa para o ar, para o amigo da CBN sobre o sonho provocado, doutor.

 

Dr. Jacob Pinheiro Goldberg – Existe um livro que foi publicado, até foi best-seller dois, três anos atrás, “Dicionário de Khazar”. E conta de um povo que viveu no fim da Idade Média, ali na altura da Iugoslávia. Esse povo tinha um mito muito interessante, ou tinha um exercício muito interessante. Eles achavam que certas pessoas detinham o segredo do sono. Então eles eram capazes de estimular de tal maneira o sonho que eles penetravam inclusive no sonho alheio. Então, certas pessoas que já haviam morrido continuavam sobrevivendo no território dos sonhos das outras pessoas. Um projeto que você ouvinte pode fazer hoje à noite. Se você tem vontade de conversar com alguém que está distante ou que já morreu... quem sabe você consegue promover, projetar, delinear, induzindo um sonho, convidando um sonho, convidando o próprio sonho. Por que esta noção que existe uma barreira impenetrável entre a vigília e o sono é mais um dos compartimentos estanques de nossa filosofia. A realidade é muito maior do que tudo isso, mas muito maior do que tudo isto. Você, à noite, olha para o seu lado e vê a tua mulher, o teu filho, vê uma pessoa dormindo. Entre você e esta pessoa não existe distancia física nenhuma. Você está meio metro da outra pessoa, está a quinze centímetros. Você coloca a mão encima da outra pessoa. Mas entre vocês dois existe um mundo absolutamente não-comunicável, não-intercambiável. Ele esta no mundo dele, você está no seu mundo. E será que isso não permite a gente pensar na metáfora da morte? Será que a morte não tem algo a existir... Relacionado com essa estranha viagem que é o sonho? Esse estranho delírio, essa estranha dimensão?

 

Adilson Freddo – Dr. Jacob, o sr. Acredita que o deputado Ulysses Guimarães agora infelizmente falecido, naturalmente, tende a tornar-se um mito nacional?

 

Dr. Jacob Pinheiro Goldberg – É, eu tive inclusive a oportunidade de conceber uma pequena entrevista que foi publicada hoje no jornal O GLOBO do Rio, na qual eu falava exatamente sobre isto. Existe uma nostalgia muito grande pela idéia do mito ou do retorno. As pessoas sofrem muito com perda dos entes queridos e alimentam uma noção de retorno. É a síndrome de Fênix, a ave que é capaz de fazer sua ressurreição das próprias cinzas. E eu acho que Ulysses Guimarães tem tudo para se transformar nesta grande fábula, neste grande mito de sonho brasileiro.  Eu fico pensando o seguinte: você sabe, quando Getúlio Vargas foi deposto, ele foi para São Borja e depois ele voltou. Quando Jânio Quadros renunciou, ele tentou fazer a grande viagem da volta. Essa viagem mitológica da volta é muito forte. Mas ela é mais forte ainda quando acontece o que esta acontecendo. E é extraordinário, como o individuo de certa maneira  no inconsciente traça o seu próprio destino. Quantas relações existia entre a vida de Ulysses Guimarães e a fabula do mar, a idéia do mar. E  não é  por acaso, e não é um mero jogo de palavras...

 

Adilson Freddo -  Aliás, ele dizia que gostaria de três coisas na vida. As principais, naturalmente: a política, a sua esposa Mora e o mar.

 

Dr. Jacob Pinheiro Goldberg – E você repara, é muito interessante, entre a palavra Mora e a palavra mar, na sonoridade existe um casamento curioso. Aí o ouvinte pode imaginar assim: “Não, mas não é forçar muito a interpretação... Não é forçar a interpretação. Esse mundo esta cheio de signos e de mitos estranhos. Não foi Ulysses Guimarães que citou na sua campanha eleitoral que viver não era preciso, que navegar era preciso? Acontece que no helicóptero não havia instrumentos de navegação aérea precisos. De que forma então se estabelecer isto. E alguém podia dizer: “Não, mas espera um pouquinho. Você está falando aí de premonição?” Não, eu não acho que é tão simples. Eu não acho que se trata de premonição. Eu acho que se trata de uma escolha. Quantas vezes ele fez apologia da coragem, apologia do risco. Ulysses Guimarães era um aventureiro, e o aventureiro não morre na cama e talvez não durma na cama. Mas, sem dúvida nenhuma o aventureiro... qual é o grande desafio do aventureiro? Qual o grande fascínio do aventureiro?

 

Adilson Freddo – Estar sempre correndo perigo.

 

Dr. Jacob Pinheiro Goldberg – Exatamente.

 

(Pausa/Entrevista com o soldado Marcos de Souza, do Corpo de Bombeiros de Rio de Janeiro, sobre o corpo de mulher encontrado em Parati).

 

Adilson Freddo - ... E agora resta apenas encontrar o corpo do deputado Ulysses Guimarães. Falando sobre o Ulysses, como era a sua amizade com o Ulysses Guimarães , quando começou?   

 

Dr. Jacob Pinheiro Goldberg – Eu conheci, tive contato pela primeira vez com Ulysses Guimarães durante a campanha à Presidência da Republica do marechal Henrique Teixeira Lott. A campanha, na qual Lott foi candidato contra Jânio Quadros. Eu fui convidado naquela ocasião, pelo então general Stoll Nogueira, que era do grupo da frente nacionalista de São Paulo, e o deputado Ulysses Guimarães era presidente do PSD, o Partido Social Democrata, o antigo PSD do Juscelino Kubitshek. Eu tinha vindo de Minas Gerais e fui convidado para coordenar a campanha do marechal Lott em São Paulo. Daí surgiu uma relação de muita amizade, que perdurou por todos esses anos, uma relação intima da qual eu me orgulho muito profundamente porque eu acho que o Dr. Ulysses Guimarães, ele tinha o seu carisma porque antes, acima de tudo, ele era um carismático. Tem pessoas que presumem, ou concebem ou imaginam que Ulysses Guimarães foi o grande frasista da política brasileira e teria estruturado alguma das frases antológicas da política brasileira. Mas eu não acho que é meramente uma capacidade de construir frases, não. Eu acho que é uma capacidade de captar das gentes o espírito do tempo. Era isso que Ulysses tinha. E nas nossas conversas, já desde aquela época... Eu naquela ocasião fui candidato a deputado estadual pelo PSD em São Paulo e fico muito feliz e honrado de saber que fui derrotado. Foi uma das inúmeras e das várias derrotas que recolhi e colecionei na minha vida. E ela foi suficiente para me afastar da política partidária. Mas, dentro desse exercício... porque existe uma política que é partidária e uma outra que não é partidária. E foi essa que eu abracei até hoje, que é uma preocupação com a mentalidade social do povo. E Ulysses Guimarães tinha por demais essa tradição, essa vontade fanática até, obsessiva até, amorosa... Ele era um apaixonado pelas causas sociais. Ele tinha uma paixão irrefreável, ele tinha uma consciência de dever que o político brasileira em geral não tem. É raríssimo num político... Então eu acho que a política brasileira realmente vai viver um processo de orfandade e o Ulysses, sem dúvida nenhuma... Você vê, essa própria estranha destinação da dificuldade de encontrar o corpo. Na Bretanha existe um costume. Quando um marinheiro morre no mar e não se encontra o corpo dele, ele não é enterrado... Não sei se você sabe, eu gostaria de conversar com você um pouco sobre essa estranhíssima história. Um jornalista estava fazendo as memórias, desculpe, uma biografia do Ulysses Guimarães. Ele falou com o Ulysses e propôs um titulo. E o Ulysses propôs mudar o titulo. Você sabe qual é o titulo que o Ulysses Guimarães sugeriu para a biografia? Moises. Moises... E aí eu fiquei pensando: por que Moisés? Ora, a morte de Moisés na Bíblia, ela é relatada como uma morte estranha, não se sabe onde Moisés foi enterrado.... Não se sabe como Moisés foi enterrado. Você não acha extraordinário? Isso parece ficção, não é?

 

Adilson Freddo – Parece uma relação muito próxima.

 

Dr. Jacob Pinheiro Goldberg – Uma relação muito próxima. E esta relação mágica, está relação próxima, entre a figura de Ulysses Guimarães e do profeta Moisés é que ele levou a termo... Quando o Dr. Tancredo Neves morreu, eu tive a oportunidade de dar uma entrevista ali no Instituto do Coração e deu um Globo Repórter... foi para a televisão. E eu terminei a entrevista dizendo: “Nós somos todos Tancredos”. E naquela ocasião, eu conversando com o Dr. Ulysses, perguntei para ele, perguntei no ar, perguntei pelo rádio, perguntei através de entrevistas em jornais: “Mas,  Dr. Ulysses, o povo na rua exigia o Sr. na Presidência ...” Você deve star lembrado daquela multidão descendo, desesperada, a avenida Rebouças, gritando “Um, dois, três, quatro, cinco mil, queremos Ulysses presidente do Brasil”.

 

Adilson Freddo – E ele abdicou.

 

Dr. Jacob Pinheiro Goldberg – E ele abdicou.

 

Adilson Freddo – Por que?

 

Dr. Jacob Pinheiro Goldberg – Você quer uma resposta da mente ou do coração?

 

Adilson Freddo – As duas.

 

Dr. Jacob Pinheiro Goldberg – As duas. A da mente é porque no fundo ele era um homem despojado. Ele queria o poder, mas não tinha ambição pelo poder. A do coração é que ele gostaria de ser, como eu acho que a partir de agora ele passa a ser, o presidente honorário do Brasil. E é muito mais ser presidente honorário do Brasil do que ser presidente burocrata do Brasil.

 

Adilson Freddo – E essa dificuldade de encontrar o corpo do deputado, ele poderia estar ligado a algum perfil psicológico no entender do doutor?

 

Dr. Jacob Pinheiro Goldberg – Eu acho que sim. O que eu vou dizer agora aqui é uma heresia. É uma heresia. Mas eu nasci lá em Juiz de fora... Você conhece aquele verso do Carlos Drummond de Andrade? O Carlos Drummond de Andrade disse que quando ele nasceu o anjo disse para ele: “Vai, vai, Carlos, ser coche na vida. Vai ser esquerda, vai na contra-mão, vai ser torto”. Eu acho que isso aqui é uma desgraça de cada um dos mineiros. Nós nascemos um pouco para ficar na contra-mão. Então, mais uma vez eu vou cometer uma heresia aqui no ar. Eu acho que no fundo ninguém quer encontrar o corpo de Ulysses Guimarães. Porque no fundo ninguém se conforma com a morte de Ulysses. E o encontro com o corpo de Ulysses seria a concretude dessa morte. E nós todos no fundo do coração gostaríamos de continuar com a esperança de que em algum lugar, o que importa é a memória e não o corpo.

 

Adilson Freddo – Uma relação interessante. Bom, Dr. Jacob Pinheiro Goldberg, a pergunta é da Miriam de Oliveira, do Itaim Paulista. A pergunta é essa: “Como encontrar Ulysses através do mundo dos sonhos ou dos mortos, como o Sr. já disse em outra pergunta?”

 

Dr. Jacob Pinheiro Goldberg – É, a pergunta da ouvinte é uma pergunta muito interessante, muito sedutora, muito sugestiva. Quando morre uma pessoa querida, não existe mais condições de nós revivermos os momentos preciosos. Principalmente aquilo que a gente não disse, aquilo que a gente não viveu. E isso é terrível, porque sempre existe essa falta. Você sempre se lembra de alguma coisa que você poderia ter dito, alguma coisa que você poderia ter feito. Sempre faltou um esclarecimento, uma palavra de amor. E a única resposta que eu posso dar para o ouvinte é que a gente precisa aprender a internalizar porque não há mais como externalizar. Coloca dentro de você mesmo Ulysses Guimarães, deixe ele habitar tua alma. Isto é transcendente, porque não depende mais de uma dimensão corpórea. Não depende mais de alguma coisa física. Porque quando alguém está vivo você, para conversar com essa pessoa, você tem que telefonar para a pessoa e às vezes a pessoa não está, ou o telefone está ocupado. Nunca mais vai haver um telefone ocupado numa ligação entre você e o Ulysses. A hora que você quiser, ele estará presente dentro de você, através da memória. Tem um livro muito interessante do Marcel Proust. “Em busca do tempo perdido”, a La recherche du temps perdu. Mergulha na memória dele, lembra dos olhos azuis dele,  lembra daquele jeitão dele, meio que corajoso, uma coisa assim meio de D. Quixote e de debochado. Lembra dele enfrentando os cachorros da ditadura, sem medo. Ele era isto, ele era um cavaleiro. Na Idade Média se falava em chevalier sans peur et sans reporche – o cavaleiro sem medo e sem mancha. Quando alguém disse que ele era muito velho para ser Presidente  da Republica, ele disse: “Velho, mas não antigo”. Lembra de tudo isto, e este filme na tua memória vai ser a revisitação.

 

Adilson Freddo – Bom , o Dr. Jacob é da cidade de Juiz de Fora, cidade de onde vem e é o novo Presidente da República, Itamar Franco. O Sr. teve um contato muito próximo também com Itamar, estava dizendo aqui fora do ar. Estudou com ele, inclusive. Estudavam juntos.

 

Dr. Jacob Pinheiro Goldberg – É, o Dr. Itamar Franco estudou no Instituto Grambery, aonde eu fiz o primário, o ginásio e o colegial. E o Instituto Grambery era um colégio... colégio aonde estudou Itamar Franco, onde eu estudei. Aliás, ontem à noite nós tivemos uma comemoração de ex-gramberyenses ali na pizzaria Livorno. Nos reunimos. Periodicamente o pessoal do Grambery se reúne. Porque existe um patético chamado “espírito gramberyense”.  E o que é o “espírito gramberyense” ? Eu vou resumir para você numa pequena história. Posso contar uma pequena história, que eu acho que é a história que deve ter iluminado a carreira do Itamar Franco, como iluminou a vida de todos nós... Havia um missionário protestante norte-americano chamado Walter Harvey Moore. Este homem saiu lá dos Estados Unidos e veio para Juiz de Fora e criou o Instituto Grambery. E num determinado dia Juiz de Fora foi vitima de uma enchente terrível. E essa enchente atingiu a zona baixa da cidade. E as prostitutas da cidade, as mulheres que moravam na zona de Juiz de Fora, essas mulheres ficaram desamparadas e desesperadas. E naquela época havia muito preconceito em relação às prostitutas. E elas ficaram perdidas. E esse missionário nos convocou. Convocou a todos nós gramberyenses e disse: “Vocês vão comigo à zona”. E este homem ajudou a tirar essas mulheres daquelas casas que tinham sido atingidas pela chuva, e levou para o colégio, e abrigou essas mulheres no colégio. Este era o espírito gramberyense, o espírito de solidariedade, de amor, de vocação e de sacrifício. Eu espero que este espírito do colégio, no qual nós estudamos, Itamar Franco, ilumine você para que você realmente possa exercitar este estranho carisma e magia que nosso velho professor, o nosso velho mestre, Walter Harvey Moore.

 

Adilson Freddo – Temos a pergunta do repórter Haissen Abac. Pois não, Haissen.

 

Haissen Abac – Na verdade eu teria dias perguntas para fazer ao Dr. Jacob. A primeira é a seguinte: o Sr. Conviveu muito perto com o deputado Ulysses Guimarães. Eu queria saber o seguinte: durante a época da ditadura, muitas pessoas tiveram de sair do país, se exilar fora do país, e o Dr. Ulysses, ao contrário, não só ficou aqui no Brasil como conseguiu se manter uma postura de combate à ditadura e sem no entanto acabar cedendo às pressões da ditadura. Eu queria que o Sr. Analisasse esse período de Ulysses sob o ponto de vista psicológico. Como foi para ele esse período de combate à ditadura e como ele conseguiu fazer isso numa condição tão adversa, a primeira coisa que eu queria que o Sr. Analisasse seria essa. E a segunda: o papel da dona Mora na vida dele. Era uma pessoa muito discreta, mas que parece que teve um papel de muita influencia, influencia até muito positiva na vida dele. Essas são as minhas perguntas ao Dr. Jacob.

 

Dr. Jacob Pinheiro Goldberg – Haissen, eu gostaria de dizer o seguinte: em primeiro lugar o papel do Ulysses Guimarães no terrível e no cruel período da ditadura militar quando tantas pessoas morreram debaixo de violência, de tortura e outros tiveram que se exilar, ou foram até, de certa maneira, até expulsos, porque na realidade era isso que acontecia. Eu explico da seguinte maneira: eu acho que existem certos homens que estão acima do destino e acima da história. Que eles são maiores do que o destino e maiores que a história. E existem outros homens que são pigmeus. São os homens que se aproveitam do destino e se aproveitam da História. Ulysses Guimarães, ele era maior do que a ditadura, era ele muito maior que a ditadura. Quando ele exercitou a condição dele de anti-candidato, aquilo teve um significado extraordinário . Por que se você perguntar hoje para uns desses “cara-pintadas”, ou para qualquer pessoa do povo brasileiro se ele lembra de um daqueles presidentes da ditadura, eles todos esquecidos. Eles estão só nos arquivos dos compêndios escolares, mais ninguém mais faz questão de lembrar-se deles, pelo contrario. Agora, Ulysses Guimarães, dele nós estamos falando agora aqui. Nós estamos conversando sobre Ulysses, nós estamos procurando e buscando Ulysses. Então Ulysses não está morto. Ulysses está presente. E é exatamente esta capacidade de presença que fez com que ele não se ausentasse no período da ditadura. Ele tinha tamanha estatura, tamanha presença magnética que nem os esbirros da ditadura teriam coragem de prendê-lo, ninguém teria coragem de colocar a mão nele. Se nem os cachorros da ditadura tiveram coragem de mordê-lo...

 

Adilson Freddo – Obrigado pela presença, Prof. Dr. Jacob Pinheiro Goldberg. E... vamos aguardar agora o final da semana. Infelizmente o Dr. Ulysses se foi. O Sr., particularmente, acredita que vai ser encontrado o corpo do Dr. Ulysses ou não?

 

Dr. Jacob Pinheiro Goldberg – Olha, eu diria para você  o seguinte...

 

Adilson Freddo – Sob o ponto de vista psicológico...

 

Dr. Jacob Pinheiro Goldberg – Exatamente. O que eu diria para você é o seguinte: que neste momento o que vale é a procura, o que vale é a busca e o que eu sugeriria para você ouvinte e para aqueles homens que estão no mar, procurando o corpo de Ulysses, é que encontrando ou não este corpo, que cada um de nós continue procurando o sonho de Ulysses. Vamos juntos continuar a partilhar, procurando a consecução, a consumação do sonho dele. E qual era basicamente o sonho dele? Que a fantasia não tem limite. Eu acho que a grande lição da vida de Ulysses Guimarães foi de que a fantasia não tem limite. E qual é a fantasia que no fundo, eu, você, todos nós, inclusive Itamar, precisam fazer neste momento? Que este país tem um grande destino a cumprir. Que os pigmeus não podem impedir o cumprimento deste destino. E que é preciso que os políticos aprendam esta lição. E tenham o tamanho e a grandeza desta nação.

 

Adilson Freddo – Conversamos com o Prof. Dr. Jacob Pinheiro Goldberg, Ph.D. em Psicologia e Psicoterapia pela Universidade Mackenzie e professor-convidado da Universidade de Budapeste, Hungria. Falamos sobre Ulysses Guimarães, falamos também sobre a morte, e as suas dúvidas.

 

 

IMPORTÂNCIA DA FEIÚRA

 

Revista Jovem Pan - Gostaria que o senhor fizesse uma análise da importância da beleza física para o jovem neste final de milênio.

Prof. Jacob Pinheiro Goldberg - Eu acho que a beleza física, na verdade, não tem nenhuma importância para o jovem. Muito pelo contrário, isso é uma agressão e uma imposição de padrões de beleza externos, principalmente o americano. Então o que acontece é que um povo com traços étnicos absolutamente diferentes dos padrões americanos - a altura, a pele, a cor dos olhos - sofre com essa influencia. Nós temos que acabar com esse mito, esse padrão de beleza, que têm causado muito sofrimento para o jovem brasileiro. Por isso ele se submete a processos de musculação exagerada, esportes perigosos ou uma alimentação discutível, tudo isso como se fosse uma espécie de religião. Não existe na natureza ou na condição humana essa simetria imposta sobretudo pelo cinema americano, muitas vezes às custas de cirurgias plásticas ou implantes, que tentam mascarar e camuflar a realidade. As pessoas não são iguais, parecidas ou semelhantes.

 

Revista Jovem  Pan - Muita gente pode confundir essas diferenças com a feiúra.

Prof.Goldberg - O que a feiúra anuncia pro jovem? É a possibilidade de ele se realizar como ser humano sem precisar montar um modelo falso e artificial, abrindo mão das peculiaridades que são a marca da personalidade e da beleza física de cada um. Essa padronização da beleza é perversa. Ela joga as pessoas que têm a coragem de assumir as suas peculiaridades numa posição de marginalidade estética. Esse conceito de beleza é relativizado pela inteligência, os sentimentos, a solidariedade, que são os grandes objetivos que alimentam o jovem. Isso gera a esperança, a noção de transformação do mundo e dele mesmo. O que nós estamos vendo é uma geração que se presta à cultura da bobagem. O que é tentar ser bonito? É tentar a sedução do outro através da aparência. E também há quem queria ser bonito apenas para se olhar no espelho.

 

Revista Jovem Pan - Esse seria o caso das garotas e garotos que lutam para se tornar modelos ou atrizes de TV, essa moçada que quer se dar bem apenas através da beleza?

Prof. Goldberg - Hoje em dia, as modelos e atrizes de TV - é claro que existem algumas exceções- estão quase na mesma posição das escravas vendidas em feiras do Oriente. Ambas servem ao desejo lascivo de uma cultura machista. Não se trata de uma exposição com o objetivo de mostrar moda, beleza ou talento. É o tempo todo o encantamento através do desejo alheio. Isso é o que há de mais pobre na condição humana.

 

Revista Jovem Pan - O que o senhor acha da realização que o jovem geralmente experimenta depois de sofrer uma mudança física radical, como uma cirurgia plástica?

Prof. Goldberg - Todas as vezes que indivíduos inseguros conseguem a aprovação alheia,  eles se sentem mais protegidos. Essa realização, ou essa euforia, é uma descarga da noção de medo e alienação que a nossa sociedade inspira nas pessoas consideradas feias. Um indivíduo obeso, por exemplo, se considera marginalizado e até mesmo ameaçado. Ele não arruma emprego, ele é discriminado na escola e nos relacionamentos sentimentais. Essa realização que vem depois de uma plástica é artificial. Ela é uma resposta ao estímulo da aprovação alheia.

 

Revista Jovem Pan - Qual é o conselho que o senhor daria a um jovem determinado a fazer uma cirurgia plástica?

Prof. Goldberg - Existem certas cirurgias plásticas que são recomendáveis. Primeiro porque não são agressivas, e depois porque correspondem a um desejo interno de harmonia que é admissível. A questão toda é de gradação, de bom senso. Isso é fundamental para o jovem. Mas fazer uma cirurgia plástica implica numa mudança de aparência que tem reflexos internos. Isso precisa ser bem orientado do ponto de vista psicológico. Eu aconselho  o acompanhamento antes, durante e depois da cirurgia.

 

 

Revista Jovem Pan - Já que mudar apenas a casca não basta, qual o caminho para encontrar o equilíbrio e a felicidade?

Prof. Goldberg - Eu acho que nós precisamos desmontar esse modelo pasteurizado de beleza e entender que, na verdade, o objetivo da condição humana é a ïnteireza”, e não a beleza. Essa “inteireza” é o encontro do indivíduo com ele mesmo segundo a sua natureza e o seu próprio corpo, não um corpo que precisa ser modelado, refeito. Fazer ginástica com o objetivo de se sentir bem em termos de saúde é maravilhoso. Mas transformar a ginástica numa espécie de religião é uma violência. O excesso de expectativa quando um sujeito faz três ou quatro horas de ginástica por dia pode levar á frustração, isso não vai fazê-lo mais feliz. Inclusive, nós precisamos acabar com essa ditadura da beleza, senão daqui a pouco vamos passar a sacrificar as crianças que nascerem feias e a cobrar em dobro os impostos dos obesos.

Revista Jovem Pan - E o que podemos dizer sobre as pessoas que receberam um tremendo presente genético e não precisam fazer nenhum esforço para ficarem bonitas ou em forma?

Prof. Goldberg - Tanto a beleza quanto a feiúra são ofertas da natureza e da genética para cada pessoa. E cada um reage diante disso de uma maneira diferente. Então existem pessoas bonitas fisicamente que enfrentam dificuldades na hora de relacionar com as outras pessoas por causa disso, assim como os feios.

 

Revista Jovem Pan - E a beleza que já se foi?. Como encarar a passagem inevitável do tempo?

Prof. Goldberg - Essa é uma questão de crescimento espiritual. Para aquelas pessoas  que estão presas a esse conceito de beleza, é uma tragédia. Já o indivíduo que compreende que o fundamental na vida é emprestar um sentido à nossa existência, e que isso não tem nada a ver com beleza ou feiúra, o passar do tempo é um acréscimo, uma acumulação de experiência.

 

Revista Jovem Pan - E o charme? A gente já nasce com ele ou isso se aprende?

Prof. Goldberg - O charme é fruto do desenvolvimento da personalidade. A gente nasce com pouca coisa definida. Quando nascemos, somos um território inédito que precisa ser cultivado. E isso se faz com o amor e a cultura.

 

Revista Jovem Pan - O que o senhor acha desses fenômenos nacionais que se destacam apenas pela beleza física e que muitas vezes fazem sucesso sem dizer sequer uma palavra?. Como o jovem deve absorver as influências desses ídolos?

Prof. Goldberg - Infelizmente, ele absorve essa influência de uma forma mecânica e

acrítica. Hoje o jovem está sendo roubado do direito da rebeldia da reflexão e do questionamento, que sempre caracterizou esta fase da vida. Os jovens estão sendo transformados em multidões de tietes e consumidores. O jovem não pode ser como um pingüim, não pode se resumir a bandos como as torcidas de futebol.

 

Revista Jovem Pan - Chegar a essa conclusão é como fazer uma autocrítica ao nosso trabalho na revista Jovem Pan, que lida com esses  ídolos da moçada e vende muito nas bancas de todo o Brasil ...

Prof. Goldberg - Eu acho muito importante vocês fazerem isso. O fato é que só a repetição das mesmices leva á exaustão. É preciso haver esse diálogo, essa reciclagem. Vamos começar a discutir. 

 

                                                                                      Revista Jovem Pan  Ano 3

 

 

 

O psicólogo, advogado e assistente social Jacob Pinheiro Goldberg fala sobre comportamento social no Brasil e no mundo. Com mais de 200 trabalhos publicados, ele acredita que uma nova postura dos jovens, das crianças e a ascensão das mulheres são fundamentais para uma melhor convivência social.

 

Dignitas – Como o sr. Analisa o comportamento social no Brasil face aos últimos acontecimentos, como por exemplo, a morte de Ayrton Senna?

Goldberg – Em primeiro lugar, eu devo dar testemunho da relação pessoal e profissional que tive com Ayrton Senna na condição de consultor pedagógico do “Senninha”, uma chance e uma oportunidade de conhecer uma personalidade que se destacava pela coragem e pela inteireza. Acho que o carisma do Senna, ao contrario do que muitos alegaram, não foi fabricado. Outros ídolos do esporte já morreram no Brasil e não causaram a mesma comoção social. Eu acho que houve uma afinidade eletiva entre os grandes desejos e aspirações da sociedade brasileira e o Ayrton Senna. Hoje somos um país carente de autênticos valores, principalmente através das sucessivas crises morais no campo da política. Então, a perda de credibilidade que a opinião publica passou a ter pelos homens de destaque, se compensou através do sacrifício de alguém que colocava sua própria vida em risco permanentemente, num jogo com a morte. Me parece que o mito Ayrton Senna é extremamente enraizado na sua própria história, não é uma criação da mídia, como alguns pretenderam. A mídia só refletiu a dor e a angustia da perda que o país sofreu. Num livro que publiquei, chamado “A Clave da Morte”, eu discuto muito o expurgo que a sociedade ocidental contemporânea fez da morte. As pessoas vivem como se ninguém morresse, e quando a morte ocorre é tratada como se fosse um episodio incômodo e surpreendente, quando na verdade não existe surpresa nenhuma no fato de que alguém morra, esta é uma realidade inevitável. Hipocritamente, as pessoas tentam imaginar que a morte não existe e quando alguém morre alguém como Ayrton Senna é como se isso nos visitasse e nos informasse “morre sim”. Muitas pessoas choraram não só pelo Senna como também pelos seus entes queridos mortos.

 

Dignitas – Podemos afirmar, então, que para a sociedade brasileira o Senna era a imagem da pessoa que “deu certo”? Era um referencial de vitória, fama, fortuna, sucesso? 

Goldberg – Acho que podemos considerar o Senna a imagem de um ser humano exuberante, alguém que viveu com intensidade a sua vida e sua morte.

 

Dignitas – Estamos às vésperas de mais um acontecimento importante para os brasileiros, que é a Copa do Mundo, nos EUA. Estranhamente, nessa época, estamos vivenciando uma certa “idolatria” por outro atleta com características diferentes do Senna, que é o caso do Romário. Como ambos capitalizaram simpatia da opinião pública com posturas tão divergentes?

Goldberg – Eu fiz uma palestra recentemente sobre “Paixão e Futebol” e, posteriormente, a “Gazeta Esportiva” publicou dois estudos que fiz sobre a seleção brasileira. O primeiro, publicado há um ano, faz algumas criticas ao técnico Parreira. O outro, mais recente, é um perfil dos jogadores, inclusive do Romário. Existe, de comum, a autenticidade, que é certamente um catalizador de simpatia da opinião publica. Não importa muito os traços de caráter singulares de cada um. O fato é que ambos, cada qual à sua maneira, são indivíduos temperamentais, explosivos, enfim, estão consoantes com seus sentimentos mais profundos. Isso sempre impressiona uma opinião pública esgotada por tanta hipocrisia.

 

Dignitas – Mesmo com a chegada da Copa, que sempre foi motivo de alegria para os brasileiros, e às vésperas das eleições, na qual elegeremos praticamente todo o quadro político nacional, nota-se um apatia e uma descrença muito grandes da população com ambos os fatos. Por que isso ocorre? Estamos caminhando para onde?

Goldberg – O Brasil, historicamente, tem vivido traumas de perdas muito profundas. Getúlio Vargas se suicidou, frustrando a opinião publica. Jânio Quadros renunciou à Presidência da Republica, decepcionando alguns milhões de eleitores. O presidente Tancredo Neves sobe a rampa do Palácio do Planalto morto. Ulysses Guimarães desaparece num trágico acidente. Agora, a morte de Ayrton Senna, depois do impeachment de um presidente eleito que renovou as esperanças de milhões de pessoas e foi impedido por corrupção. Então, estamos vindo de sucessivas frustrações que vão recalcando as esperanças e criando um clima de ceticismo. O país está cético. Também não podemos esquecer a ingenuidade que existia em torno do esporte, do futebol em particular, está  acabando.

 

Dignitas – O senhor diz isso baseado em que? Nos altos salários dos jogadores?

Goldberg – Não só isso. Por exemplo, o primeiro ministro da Itália, o fascista Berlusconi, precisava da aprovação do Senado para sua indicação. Havia possibilidades de rejeição. Num discurso, Berlusconi tomou a palavra e disse aos senadores: “Vocês não podem esquecer que sou dono do Milan”. Nesse momento, foi aplaudido pelos senadores e sua indicação foi aprovada. Hoje existe um intercambio intenso entre corrupção, política e futebol. É lógico que o povo percebe isso e tem suspeitas. O fato de cada jogador da seleção brasileira ganhar a Copa, receber US$ 100 mil é um contra-senso. Um operário teria que trabalhar mil meses para receber o que cada jogador ganhará. Isso não inspira entusiasmo. O futebol de glória, de legenda, de heroísmo, está corroído.                

 

Dignitas – O voleibol está ocupando esse espaço no coração dos brasileiros, ou ainda é precoce essa afirmação?

Goldberg – É precoce. Mas o fato é que o futebol profissional, com todo esse processo, perderá espaço na espontaneidade. As torcidas, que estão se transformando em verdadeiros bandos selvagens, contribuem para isso. A marginalidade está invadindo as arquibancadas.

 

Dignitas – Qual a diferença entre mito e ídolo?

Goldberg – O ídolo é o chamado herói, é admirado, respeitado, querido. É alguém que tem uma realidade muito intensa no sonho coletivo das multidões. Ele corresponde ao atavismo e ao arquétipo do cidadão comum. O mito é uma criação, é uma elaboração que tem algo de transcendente. O mito perde o contato direto com a concretude e transforma-se na fantasia, na abstração. Portanto, ele habita mais o imaginário e o simbólico.

 

Dignitas – Kurt Cobain, o ex-vocalista do Nirvana que se suicidou recentemente, esta sendo considerado um mito para a juventude. É correto esse conceito?

Goldberg – Nós vivemos numa época de rebaixamento de horizontalidade. Tem sido transmitido para a juventude que fé, esperança, decência, humildade, enfim, sentimentos positivos, são piegas e ultrapassados. Isso não é verdade. Eu, que trabalho com o comportamento dos jovens, percebo que, na realidade, o jovem tem a busca que sempre existiu na condição humana, de consonância consigo mesmo, de realização própria, de plenitude. Isso passa muito pela linha da integridade. Só que integridade tem sido considerada como desgastada, isso é fruto de todas as crises sociais contemporâneas, inclusive das guerras e conflitos. Então, um individuo como Kurt Cobain, que é obviamente um doente – alguém que se suicida é sempre um doente – ser transformado em mito e, na verdade, uma exploração brutal que a “imprensa marrom”             e uma parte da mídia usam para tocar a sensibilidade, principalmente dos jovens.

 

Dignitas – Hoje, assistimos ao surgimento de tribos urbanas que não passam por uma organização previa, como acontecia há 20, 30 anos. Tudo acontece de maneira fluídica e é caracterizado por posturas e visuais extremamente depressivos que se contrapõem à época de Woodstock, que representou a ruptura de valores, a liberdade de expressão. O tempo entre os fatos é muito curto. Na sua análise, o que mudou?

Goldberg – Quem trabalha muito bem isso é o autor de “Massa e Poder”, Elias Canetti. Ele diz que as massas têm uma tendência de perda de identidade, são frágeis e ao mesmo tempo perigosas. Perigosas pelo número de pessoas  e frágeis pela falta de estrutura de caráter. Elas são desmoralizadas e desmoralizantes e vivem de ondas, os indivíduos são vazios. Qualquer onda é capaz de comovê-los, seduzí-los e fasciná-los. Em um dos meus livros, chamado “Psicologia da Agressividade”, faço uma citação de uma referencia a esse envileciemento, esse empobrecimento dos paradigmas. Qualquer cretino hoje pára numa esquina e grita que é o anunciante de uma nova seita e daqui a pouco terá milhares de seguidores, ou monta um conjunto dizendo ser o representante de satã e será endeusado. Vivemos uma espécie de “guerra de civilização”, os grandes choques culturais da metrópole. A Grande São Paulo, esse enorme acampamento vertical, tem mais gente que todo o Mundo Antigo. Nas grandes cidades, as pessoas não têm inter-relacionamentos e mergulham na solidão mais profunda, quase que na antropofagia.

 

Dignitas – Qual a influencia da industria cultural e da mídia, principalmente da tevê, no comportamento social contemporâneo?

Goldberg – A televisão no Brasil transformou-se numa escola de crimes e de ignorância. É raríssimo assistirmos a um programa que tenha qualquer densidade informativa profunda, além do que não existe o menor respeito pela sensibilidade do telespector, da criança ao adulto. O mesmo locutor que anuncia uma catástrofe, com o mesmo ar de neutralidade, anuncia uma festa. Isso vai dessensibilizando o telespectador.

 

Dignitas – A polemica é o grande trunfo de marketing da atualidade?

Goldberg – O que acontece é o seguinte: os ícones foram derrubados. A iconoclastia é uma realidade da nossa época, e isso tem vantagens e desvantagens. A vantagem é que ninguém mais concorda com o papel passivo de “babaca”; essa idéia de admirar alguém gratuitamente, felizmente, terminou. Qualquer individuo que quiser hoje se destacar terá que se submeter a um juízo crítico. A desvantagem é que isso se transformou mais ou menos num vicio de retórica, todo mundo xinga todo mundo porque isso traz audiência. As pessoas se permeabilizam, não instauram um verdadeiro diálogo.

 

Dignitas – E o que isso gera?

Goldberg – Isso gera uma crise permanente de valores. Porém, não obstante tudo isso, é preciso notar que Caim matou Abel, e não havia explosão demográfica naquela época. O ciúme e a inveja, que são sentimentos que habitam a alma do homem, foram capazes de levar a esse terrível fato. Faz parte da contingência humana ter que aprender a conviver com esses sentimentos difíceis, porém existem aspectos muito positivos na contemporaneidade. Hoje existe mais um senso democrático, existe uma ascensão das mulheres que eu acredito que seja um dos movimentos capazes de mudar toda essa paisagem.

 

Dignitas – A revolução feminista não está enfraquecida?

Goldberg – Eu acredito que ela ainda nem começou. Na primeira etapa ela tem sido uma revolução com o objetivo de equiparar o direito da mulher aos direitos do homem. Mas o grande contributo feminino nem sequer começou. Ele vai mudar e aliviar, através da sensibilidade, da ternura, dos valores uterinos, a grosseria do machismo que fracassou. O machismo fracassou como civilização e como cultura, ele levou a uma situação de impasse. A periculosidade se instaurou por inteiro em todo o mundo através do mau uso do poder fálico. Chegou a hora de ceder espaço para a mulher.

 

Dignitas – Além das mulheres, existe algum outro fator que possa abrir novas alternativas para uma melhor convivência social?

Goldberg – Acho que devemos levar em conta as crianças. Essa é uma revolução que ainda não se inaugurou. Elas são tratadas como se fossem adultos mirins, debilóides. Isso não é verdadeiro. A criança tem um papel destacado e precisa ser ouvida, respeitada. Hoje ela é humilhada e desprezada pela falta de força física, assim como a mulher. Os jovens também precisam tomar posições deferentes, ao invés de fazer imitação barata e vulgar da boçalidade da gerontocracia. A press  ão de todas as minorias que têm algumas coisas importantes para dizer numa sociedade plural e democrática é fundamental para uma nova convivência social.

 

Revista Dignitas Salutis – n. 16 Abril / Maio / Junho 1994

 

 

GOLDBERG QUER A DECODIFICAÇÃO DA CULTURA

 

A televisão possui um grande poder de penetração e poderia ser utilizada como instrumento educativo ou de divulgação cultural, mas serve quase exclusivamente, à exploração econômica. As TVs Educativas representam um dos poucos espaços abertos a propostas culturais, apesar das restrições elas não “pegaram”, como muitas vacinas e leis. A falta de penetração nas camadas mais populares seria causada pela dificuldade deste publico em absorver o “discurso cultural denso” e pela “incapacidade dos produtores de decodificar a informação ao nível popular”.

A falta de retorno de opinião publica (feed-back) é uma das características dos meios de comunicação de massa brasileiros, e seria apenas uma das facetas de uma sociedade autoritária e conservadora. Da mesma forma que a linguagem da televisão nacional, os políticos apresentaram neste “ano eleitoral”, repetições de um discurso esclerosado e caduco.

Em Juiz de Fora existe “um excesso de posições conservadoras – no pior sentido. A maior parte daqueles ligados aos estabelecimentos do poder político e acadêmico local estão encastelados em suas áreas de pequenos poderes”. As afirmações são do psicólogo, advogado, assistente social e pedagogo, Jacob Pinheiro Goldberg, que recebeu o titulo de Cidadão Benemérito, em 28 de março, na Câmara.

 

A televisão educativa é um dos poucos espaços abertos a propostas culturais no cenário da TV brasileira, no entanto, ela não “pegou”. O que está ocorrendo?

Existem problemas que precisam ser analisados, observados e verificados corajosamente de frente na questão da psicologia e da comunicação. Se na comunicação não respeitarmos a psicologia de cada povo e das gentes na sua época, corre-se o perigo de acelerar extremamente os meios sem obter uma resposta (feed-back). Um exemplo que pode traduzir bem este conceito é o problema das televisões educativas. A proposta, obviamente, é do mais alto valor, procurando estabelecer uma programação voltada para a arte, cultura, educação, lazer, a formação e instrução. Porém, as melhores TVs educativas do Brasil lutam com muita dificuldade em termos de audiência.

As lições que podemos extrair desta fenomenologia são, em primeiro lugar, a falta de um preparo emocional do publico no sentido de absorção das imagens, das reflexões do discurso cultural denso; segundo, talvez os produtores não estejam sendo capazes de decodificar a informação ao nível popular. Mas é preciso solucionar a questão, tomando-se o cuidado de evitar a desqualificação da mensagem ou, por outro lado, uma elitização condenável. O objetivo terá que ser a interação de um anseio com uma necessidade.

A juventude resultante da explosão quantitativa universitária dos últimos anos é deficitária no que diz respeito à sua informação cultural, devido à crise especifica da universidade brasileira e, também, à crise geral do ensino contemporâneo. Não se pode dissociar as duas realidades, no entanto, as pessoas estão exigindo do ensino no Brasil, algo que no mundo todo está sendo posto em choque: o problema do ensino em si.

O fato é que a cultura moderna ainda não conseguiu observar a introdução do rádio, quanto mais a televisão, um passo para o futuro. As potencialidades dos dois instrumentos não foram sequer batizadas, quanto mais utilizadas. Para se ter uma idéia, somente a cerca de 2 ou 3 anos – e acho que fui um dos pioneiros teóricos de toda esta tendência – as rádios começaram a atentar para a necessidade de se fazer um jornalismo que retrate fielmente os acontecimentos enquanto eles estão ocorrendo.

Faz pouquíssimo tempo, o rádio fornecia uma informação atrasada, veiculada depois do evento ocorrido, o que é um absurdo, pois sua grande vitalidade está na capacidade de acompanhar a vida da cidade simultaneamente. A simultaneidade é a característica marcante da rádio moderna, o que, obviamente, não é válido para o jornal; ou seja, cada meio deverá preencher um espaço próprio bem determinado. Mas isto não é plenamente possível, nem com o rádio, por desconhecimento e incapacidade de absorver por inteiro, e muito menos no que se refere à televisão, cuja linguagem ainda engatinha, no seu processo de desenvolvimento.

Mas todo este elenco de profissionais que se forma nas universidades representa o grande capital brasileiro, porque é um elenco extremamente idealista, entusiasta e, principalmente, sequiosos de novas experiências. A criação, no Museu de Arte de São Paulo, Assis Chateaubriand, do chamado Laboratório de Literatura, representou uma grande iniciativa que, hoje, se repete por todo País. Existem dezenas de laboratórios acompanhando a nossa iniciativa de criar uma espécie de usina de geração de idéias em torno da literatura. Isto também precisa ser repetido em termos de rádio, televisão, jornal e outros setores.

 

O que caracteriza a linguagem televisiva, hoje, no País?

Apesar de enormes recursos de movimentação e maleabilidade, até hoje se observa locutores falando de maneira pasteurizada, fixos em suas cadeiras, e engravatados, lendo a noticia com uma voz insossa. Um locutor que a noticia a morte de mil crianças numa hecatombe, dando a mesma ênfase – ou falta de ênfase – que daria a uma festa social. É preciso ter coragem de fazer uma adequação da Linguagem na sua forma à essência, a matéria no seu conteúdo. Existem riscos, porém bem menores num processo lógico, ordenado, no qual, inclusive, o telespectador deixe de ser tão passivo, porque precisamos entender que existe um interrelacionamento, uma interação entre o espectador e o trabalho televisionado. Se quem está do lado de cá do vídeo informa de maneira pobre, pouco densa, em baixa freqüência, o telespectador tende a responder em baixa freqüência.

Fiz uma experiência: de frente para a câmera, olhando para o telespectador, de repente no meio de um programa disse: agora você presta atenção porque vai acontecer alguma coisa diferente e fiquei de costas. Continuei falando, no ar, mas de costas. Depois me voltei e perguntei: o que é que você sentiu? Se não sentiu nada, então você está arquivado, morto e não está informado. Mas se sentiu alguma coisa, se questiona, percebe, se sensibilize. O que é que aconteceu? Por que fiquei de costas? A televisão recebeu algumas cartas e telefonemas, mas em numero bem menor do que penso deveria ter sido a resposta. O telespectador está muito acomodado.

 

Como o senhor vê o problema da censura aos meios de comunicação?

Estamos diante de duas grandes injunções, de um lado o Estado ansioso das prerrogativas do poder e que está sempre, permanentemente com a ameaça de censura; de outro, a sociedade com a preocupação de saber até onde é bem informada, as noticias que recebem merecem um trato respeitoso para sua sensibilidade de julgamento? Ou seja, nós, telespectadores estamos sendo respeitados em nosso direito final de julgar de acordo com o jogo de interesses. A psicologia acrescenta um ponto de vista importante ao debate: qualquer tentativa de censura dos meios de informação aumenta a síndrome persicutória das massas e da opinião publica. Quando o homem comum começa a suspeitar que as informações não são veiculadas na sua inteireza para o seu julgamento, ele fica com muito medo, medo de ser manipulado. Este medo pode levar a uma paranóia que por sua vez, desencadeie nele uma violência. O cidadão sente-se perdido: o que estou pensando, julgando, falando, é realmente fruto do meu psiquismo ou da vontade alheia, para servir a outros interesses. Para que haja um psiquismo coletivo de sanidade é preciso existir liberdade. De forma complementar, é necessário haver uma discussão permanente da qual participem todos os grupos ligados aos problemas da comunicação incluindo artistas, jornalistas e a própria opinião pública, através das universidades, sindicatos das associações, de cada clube em geral ou das organizações de bairro, enfim, de todos os seguimentos, de todos extratos da população. O que existe muito pouco no País, é o retorno de opinião pública.

O rádio começa a fazer alguma experiência neste sentido, mas é preciso ser muito mais audacioso. Os jornais, por exemplo, precisam quebrar aquele convencionalismo de “carta do leitor”, deve existir, realmente, um espaço reservado para manifestações da opinião do leitor. Em resumo, a sociedade moderna precisa ter a humildade de reconhecer uma confissão de “mea culpa” de que é autoritária e conservadora. Os regimes ou governos autoritários não conseguem subsistir quando a sociedade é democrática, pois ela faz a catarse, repelindo como um corpo estranho qualquer regime totalitário que pretenda impor-se. Este aspecto não tem sido suficientemente elaborado e digerido pela sociedade moderna.

Nós, a partir das relações pessoais, somos o germe deste processo totalitário que se transforma numa espécie e superego de nossas próprias deficiências. Então, depois ficamos a reclamar do monstro que criamos. O regime totalitário moderno é um Frankestein da alma, das incompreensões, intolerâncias e preconceitos do homem moderno que na sua fragilidade, no seu obscurantismo, não tem coragem nem condições de compreender o outro diferente dele mesmo. Somos compreensivos e liberais com aqueles que pensam e são como nós, que sentem como nós, não basta que alguém sinta diferentemente que imediatamente reagimos mal.

Precisamos aprender a conviver num sistema pluriopcional, fala-se muito em pluripartidarismo, mas este é apenas um dos aspectos uma gama multifacetária da plurirealidade com a qual a sociedade brasileira tem que aprender a conviver. O problema não é só de conviver com vários segmentos partidários, antes, com vários clubes de comportamento. O importante, é acabar com a noção de que uma sociedade ou comunidade pode se transformar num “clube do Bolinha” fechado.

 

O que se nota no atual quadro político, são as repetições de um discurso esclerosado e caduco. O que significa o fato?

Percebe a importância do mundo político de acompanhar o desenvolvimento acelerado da ciência, da tecnologia, de uma nova inteligência para um País que rápida e celeremente corre em direção do seu futuro. No dia seguinte ao debate entre Franco Montoro e Reinaldo Barros, fui convidado pelo Ferreira Neto a fazer uma análise psicológica do comportamento dos dois, disse que estes candidatos a candidato estão usando uma linguagem velha, de pelo menos 20 anos, velha não só em sua expressão verbal, também na sua expressão corporal: todo aquele ar doutoral, de convencionalismo, está extremamente ultrapassado.

São Paulo é o estado organicamente mais articulado da federação em termos sócio-econômicos e culturais, acredito que os candidatos a governá-lo – se tivermos o engajamento, o comprometimento com o futuro para admitir – deveria ser Caetano Veloso e Gilberto Gil. Eles mais que qualquer político, emitem através do seu próprio corpo, uma determinada imagem e mensagem realmente revolucionárias em termos de cultura. Os políticos estão “tatebitate” no seu jogo de interesses mútuos. Isto me lembra muito aquela música “dois pra lá, dois pra cá”: é um bailado no qual os fantoches se sucedem, mudando a roupa mas mantendo a essência. Altera-se a forma pra tudo continuar na mesma.

Isto é extremamente pouco inteligente, porque mesmo aqueles que estão preocupados em manter a sociedade em uma redoma fechada, deveriam ter o jogo de cintura necessário para facilitar o acesso e a fluência da novas camadas de pensamento, mas você diz bem quando coloca que eles não estão sequer preocupados em incorporar uma nova linguagem. Esta é a manifestação mais preocupante de todo processo. Vejo isto tanto na situação como na chamada oposição, é toda uma excrescência de um processo mais profundo de modernização.

O grande problema da sociedade brasileira nos próximos anos não ficará restrito à área partidária; daí, minha aversão ao reducionismo da discussão das siglas partidárias que me desinteressa profundamente da mesma forma como desinteressa a toda sociedade brasileira. O grande susto que as eleições vão proporcionar será o voto em branco e a abstenção, este é o desafio que se impõe. Tenho visto uma camada da oposição tomar nítida posição contra o direito de não votar. Quando se falou que um dos elementos deste pacote que proliferam por aí seria a liberdade do voto, a oposição fica apavorada, pois sabe que boa parte do eleitorado não votaria, inclusive o eleitorado que discorda do “establishment”. Isto é um absurdo, um contracenso e na verdade prova a falência, também da oposição que não esta correspondendo àquela necessidade de mudar. Se estivesse consciente disto, teria uma posição inversa: que bom que seja assim, que bom que só vote quem queira votar; porque esta é uma característica do verdadeiro regime democrático, senão, vamos voltar àqueles regimes totalitários onde votam 99,9% da população. Só não votam os mortos no dia do pleito, mas às vezes, mesmo estes votam por procuração.

A grande contribuição que a psicologia pode oferecer a esta pragmática moderna, a estas necessidades de contração mais profunda das verdadeiras forças subjacentes que agilizam e movimentam a sociedade brasileira hoje, é permitir o repensar do discurso cientifico, deixar de lado o “achismo”, uma das fortalezas de tabus da falsa intelectualidade nacional e procurando traduzir, segundo seus parâmetros interiores, o que milhões de pessoas pretendem, sentem e têm vontade. Se soubermos capitalizar estes anseios de modificação, então sim.

 

Por 30 anos o senhor esteve longe de Juiz de Fora, que lhe parece hoje a cidade?

Um aspecto característico de minha geração que não mudou durante este tempo de estratificação, a estereotipia e o excesso de posições conservadoras – no pior sentido – de uma parte da comunidade. Nesta viagem a Juiz de Fora, pude notar um fenômeno muito curioso: com raríssimas exceções, as pessoas mais ligadas aos estabelecimentos não só do poder político, mas também do poder acadêmico, encontram-se absolutamente marginalizadas de propostas novas, de possibilidades de novos discursos.

Eles estão encastelados nas suas áreas de pequeninos poderes porque, infelizmente, nós construímos a sociedade numa espécie de Torre de Babel, montada em cima de pequenas vaidades, pequenas veleidades, pequenos arbítrios, onde ninguém cede nada, nem mesmo por inteligência para subsistir. Ou seja, nem sequer com tática ou estratégia para poder continuar, se faz concessão. O Brasil, hoje, se tipifica por um País onde ninguém renuncia a nada, nem àquilo que não presta.

Filho de imigrantes judeus, vindo de uma pequena cidade polonesa na época da grande perseguição nazista, a minha infância se passou em Juiz de Fora, numa época terrível da sociedade brasileira que corria o risco da inspiração facista. Era um dos grandes momentos dramáticos em que a nação correu este risco. Então, que pude perceber que o ser humano tem duas grandes saídas para o seu desafio na condição de gente: ou sai através da paranóia involutiva, ou através das asas do vôo da imaginação. Ou nós nos afirmamos como pessoa, ou nos traímos como individuo. Aqueles que são capazes de serem conseqüentes, se transformam e transformam o mundo, os que traem esta conseqüência, traem não apenas a si próprios, mas a toda espécie.

Um aspecto muito importante em tudo isto que esta sendo discutido é a necessidade de individualizar, de fazer o trato da comunicação numa instância individual. Não podemos continuar com esta preocupação de transformar o homem num animal político coletivo. Temos que ter coragem, de uma vez por todas, para reverter este processo acelerado que se estabeleceu principalmente a partir de 1930; uma tentativa desindividualizar o homem, de coletivizar a alma do ser humano. Eu não sou um numero, sou um ser humano com sonhos, ideais, aspirações e vontades. Me recuso a ser membro de um partido, sindicato ou organização, qualquer que seja, enquanto alma. Como ser social atuante, obviamente, tenho uma atuação social, então posso trabalhar no meu sindicato, funcionar como profissional, ter uma imagem para os outros, mas faço questão de resguardar as condições básicas de minha condição humana mais profunda. Ou faço isto, ou me traio como gente, como individuo.

A televisão, o rádio e o jornal estão trabalhando em categorias coletivas, é muito difícil, por exemplo, ver alguém usar a expressão “eu” na comunicação hoje. Há muitos anos não vejo alguém chegar na televisão e dizer eu acho, eu penso, eu sinto. Começaram agora a realizar algumas entrevistas, mas que acabam se transformando em questionários de “Clube do Elogio Mutuo”, outra barbárie da sociedade brasileira. E são vários como o Clube do Elogio Mutuo da oligarquia cujos membros trocam as aparências mais jamais trocam, em profundidade, as condições. A árvore genealógica do poder brasileiro é impressionante. O compradismo tipifica, no jogo do poder destes acertos de interesses mútuos, aquela terrível realidade de que no Brasil ou se nasce filho de rico ou se transforma em genro rico, porque senão fica extremamente difícil e doloroso o acesso a condições mínimas de manifestação, de realização humana, profissional e pessoal. Está é a realidade, você examina o nome de um grande poeta brasileiro e verifica que o sogro dele é um grande banqueiro. Então se coloca a pergunta: é realmente um grande poeta ou um nome industrializado por agencias de publicidade e propaganda com interesses nas contas do sogro? Isto tem sido um processo constante, é só observar os sobrenomes da literatura nacional.

Por mais que se diga que existe um bom, a literatura brasileira não se equipara nem de longe à hispano-americana exatamente porque continua em pequenos conventriculos. Às vezes, tem-se a impressão que houve uma abertura e finalmente um ou outro jovem conseguia penetrar no reino da cultura da comunicação.

 

A língua portuguesa, hoje é um veiculo eficaz de expressão das idéias e sentimentos do povo brasileiro?

Nossa língua é uma camisa de força contra o pensamento. Como é possível escrever e falar de maneira ordenada numa língua tão complexa, confusa e pouco moderna como a nossa? O americano – que foi capaz de fazer um “streep-tease” na língua inglesa – às vezes sintetiza numa interjeição o que precisamos de uma pagina inteira para explicar. A língua brasileira não existe, há que ser formulada. Ainda estamos ligados aos parâmetros de Camões, em estereótipos que pouco querem dizer, mas fazem um esforço danado pra dizer.

A prova disto é que o jovem não quer falar. Inclusive se alinha e defende através do mutismo. Percebo através da minha profissão de psicoterapeuta, as pessoas de mais idade reclamando que o jovem não dialoga, realmente os jovens estão falando muito menos, e dizendo muito mais, com o olhar, as mãos, o próprio corpo. O bailado da expressão corporal do jovem brasileiro é muito mais profundo do que os poucos e vazios discursos, antologias, sonetos, tercetos, bissextos, da literatura brasileira que pouco têm a dizer.

Para se te uma visão do que será a língua brasileira no futuro, basta ouvir o que o jovem esta falando, e, principalmente, o que ele esta pensando e sentindo. Se formos capazes de permitir a reestruturação da língua em cima desta vontade do jovem, será bem mais fácil. Não se trata de um endeusamento, obscurantismo ou violência.

Existe um elemento que precisa ser aduzido em cima do relato de todas as experiências humanas que temos vivenciado: a questão lúdica, o brinquedo, a alegria. Eles e o divertimento real mais profundo, estiveram ausentes de nossa tropicália maior. Esta necessidade de redução do lúdico na civilização brasileira a 3 dias do carnaval, acabou significando um empobrecimento, o envilecimento. Fala-se do “homem-cordial”, deveríamos repensar o “homem-triste”. Uma civilização muito pouco voltada para o prazer, para a noção de Eros contra Tanatos. É preciso revitalizar este processo de amor à vida contra o amor à morte. A introdução do lúdico como elemento essencial na vida da sociedade brasileira.

 

Texto de José Paulo Custódio

Diário Mercantil – 11/05/82

 

 

Por estar sob constante pressão, durante uma partida de tênis; as reações dos jogadores são as mais diversas. Qual a origem dessas reações ? No caso da criança, que ainda está com sua personalidade em formação, podem surgir problemas irreversíveis. Veja entrevista com o psicólogo Jacob Pinheiro Goldberg, especializado nas pesquisas do comportamento.

 

COMPORTAMENTO, O QUE HÁ POR TRÁS DO TENISTA

 

John McEnroe quebra a raquete, discute com os juízes, joga a bola contra o público e é multado em alguns milhares de dólares. Ao mesmo tempo, nas inúmeras quadras espalhadas pelo mundo, acontecimentos semelhantes são registrados sem, é claro, a evidência e repercussão das atitudes de McEnroe, o atual primeiro colocado do ranking da ATP. No entanto, as reações dos jogadores, famosos ou não, convergem para um denominador comum: o comportamento na quadra, sempre em cheque, analisado pelos valores sociais que separaram o certo do errado, de acordo com regras pré-estabelecidas pela própria sociedade. Raiva, desespero, lágrimas, são sentimentos comuns nas partidas mais acirradas, principalmente entre as crianças, nos torneios infanto-juvenis, pressionadas o tempo todo por um clima de competição. Será que isso realmente é normal? Como será a personalidade da criança que, desde muito cedo, é induzida a competir quando, na verdade, deveria brincar? Para responder a essas e outras perguntas, com o intuito de delinear com maior clareza a gama de fatores que influenciam o comportamento dos jogadores nas quadras, Tênis Ilustrado entrevistou o psicólogo Jacob Pinheiro Goldberg, dono de um currículo invejável: advogado, assistente social, professor de psicologia da religião do Departamento de História da Ciência, da Universidade de São Paulo; professor convidado de diversas universidades brasileiras dirige, ainda, pesquisas do comportamento há vários anos. Escreveu cem livros publicados no Brasil e no Exterior.

 

Tênis Ilustrado - No Brasil, há muita polêmica sobre a idade ideal para a criança começar a jogar tênis. O senhor poderia nos dizer se há uma idade recomendável?

 

Goldberg - Existe uma faixa cinzenta que fica entre o brinquedo e o esporte. Assim, quando a família permite que a criança evolua tranqüilamente, de forma sadia, é mais ou menos natural e quase indistinguível a idade exata onde começa o esporte e onde termina o jogo, porque os dois são elementos lúdicos de prazer da criança. Nós poderíamos falar numa faixa de idade que, na minha opinião, situa-se na pré-adolescência. Mas que fique bem claro nessa idade a criança pode ter acesso ao esporte e não ser induzida a praticá-lo, como se faz aqui no Brasil.

 

Tênis Ilustrado - O que acontece a uma criança que é induzida a praticar esporte precocemente?

 

Goldberg - Esta é uma tendência moderna, principalmente nas grandes cidades, tendo em vista a solução urbanística do apartamento e a falta de locais apropriados de lazer. Isso pode trazer, mas não é um brinquedo descompromissado como deve ser o brinquedo infantil, que faz com que a criança corra, pule, unicamente preocupada com sua satisfação, com sua alegria, ao contrário do esporte, onde existe um objetivo que precisa ser alcançado de acordo com regras estabelecidas. Em resumo, a criança aprende a guerrear, competir e não a brincar. Agora imaginem como se está preparando toda uma geração da qual está sendo subtraída a possibilidade de brincar e introduzida com muita velocidade, sem respeito à idade, a questão da competição.

 

Tênis Ilustrado - Então, qual o papel dos pais. Devem incentivar a criança ou esperar que a atividade esportiva surja espontaneamente?

 

Goldberg - Como em todo processo educacional de aprendizado, devem permitir que ela saiba quem eles realmente são. Por isso, eu acho um contra-senso o pai que não gosta e não pratica esporte, pretender manipular a criança para que ela o faça. Os resultados, a médio e longo prazo, certamente serão desastrosos. Daí a importância muito grande dos pais respeitarem os impulsos da criança, sem pré-determinações ideológicas do tipo: “meu filhinho não sabe se defender, por isso ele tem de aprender a lutar judô”. Mas as coisas não são tão simples; às vezes acontece o inverso. Se a criança não sabe se defender, tem que aprender a atacar e, nesse caso, o esporte indicado seria o caratê. Por outro lado, é muito importante que os pais, num processo de informação, mostrem aos filhos o benefício do esporte em termos de saúde, deixando a livre escolha da criança a modalidade esportiva que ela deseja praticar, sem força-la a realizar antigos sonhos da geração anterior.

 

Tênis Ilustrado - Como os pais podem saber se o filho tem ou não tendência para o tênis? É um esporte difícil e se dermos uma raquete na mão da criança ela não saberá usá-la e terá que ser dirigida para esse esporte.

 

Goldberg - O tênis é um esporte cerebral e sofisticado. Nós  temos que partir desse pressuposto porque há certas realidades humanas e sociais que devem ser respeitadas, senão nós vamos enfiar os pés pelas mãos. Isso não significa que a criança seja aristocrata em relação ao futebol, por exemplo. Cada esporte é uma modalidade diferente; o futebol é mais democrático e o tênis, aristocrático. Em linhas gerais, a criança que vai gostar do tênis com naturalidade é a criança meticulosa, intelectual, cuidadosa consigo mesma. Já a criança despojada demais, dificilmente terá inclinação natural pelo tênis, nem tampouco pelo xadrez. Ela se voltará para o esporte coletivo. Os pais, que têm um filho praticando tênis, devem observar os elementos naturais da personalidade dessa criança, como ela se relaciona com tempo e o espaço, a maneira que bate na bola, como se desloca na quadra e como trabalha com a raquete. Dá para perceber (para um atento observador) as dificuldades na psicomotricidade, pois a criança com problemas psicomotores terá muito mais problemas para aprender tênis do que futebol.

 

Tênis Ilustrado - Alguns pais chegam a usar o esporte como terapia. Se o filho tem dificuldades psicomotoras, fazem com que ele jogue tênis...

 

Goldberg - Isso é uma barbaridade porque pode até ter efeito inverso, uma sobrecarga na criança. Imagine alguém com dificuldade psicomotora jogando tênis! Seria o mesmo que pedir a ela para segurar a raquete com três dedos amarrados. É um verdadeiro suplício e, às vezes, ela faz isso para corresponder às expectativas da família.

 

Tênis Ilustrado - Nesse caso, a criança pode forçar uma derrota como uma maneira de descarregar a pressão sobre ela, já que os pais sempre cobram a vitória?

 

Goldberg - A cobrança por parte dos pais é muito freqüente, muito mais comum e insidiosa do que a gente imagina, porque é inconsciente e nem sempre os pais vão notar que estão cobrando. Ás vezes eles são vítimas dessa cilada por se acharem tolerantes, educadores, mas que, inconscientemente estão com um nível de cobrança insuportável e isso é muito difícil para a criança. Ser cobrado diretamente é mais fácil para se defender. Agora quando a cobrança é feita debaixo de uma capa de carinho, ternura, liberalidade... Eu vi muitas vezes isso: os pais praticamente arrastam os filhos para certos gêneros de esporte, imaginando compensá-los (tem isso também) de todas as faltas de atenções.

 

Tênis Ilustrado - E o problema da projeção? Em alguns torneios infanto-juvenis, os pais discutem e até brigam fora das quadras, como se eles é que estivessem jogando. Quais seriam os elementos de distorção na personalidade, já que os pais, indiretamente, chegam a exigir a vitória dos filhos?

 

Goldberg - No futuro, a insatisfação será uma constante na vida dessa pessoa. Por mais vitórias que tenha, por mais sucesso amoroso ou profissional, estará sempre insatisfeita, porque  se está projetando nela o mecanismo “demais muito cedo”. Eu já vi um gesto no tênis que também é muito usado no futebol: o sujeito esmurra a própria mão ou agride a si mesmo quando perde um lance, uma jogada. É quase uma expressão de autodesagrado. A autopunição é típica de uma pessoa que será insatisfeita. É claro que não posso generalizar, mas acho que essa pessoa vai aprender a somatizar e será sempre candidata natural a sofrer acidentes.

 

Tênis Ilustrado - A autopunição no tênis é muito evidente. Ela é fruto da sobrecarga dos pais ou pode também ocorrer durante a disputa do jogo, quando a pessoa está sob pressão o tempo todo e, por exemplo, erra uma bola fácil?

 

Goldberg - Você está se referindo à autopunição pelo fracasso. Devemos considerar que há também autopunição pelo sucesso. Isso ocorre quando o sujeito faz uma jogada bonita e é muito aplaudido. Fica muito nítido que ele tem dificuldade em aceitar aquilo. Dois minutos depois ele comete um erro flagrante e recebe vaias. Esse processo de aprovação-punição. É uma realidade muito constante no comportamento humano, pois vivemos num mundo que faz tudo para que você seja aprovado. Só que no momento em que você é aprovado, fica sob a acusação de que está explorando. É uma contradição quase impossível de ser resolvida em termos de esporte, por exemplo. Se o sujeito erra, ele se pune, porque havia uma expectativa de que fosse bem sucedido. Ironicamente quando se transforma num grande campeão no jogo individual como o tênis, o preço de stress é muito alto e representa uma autopunição a não ser que seja muito bem estruturado, com a personalidade sem nenhuma fissura.

 

Tênis Ilustrado - Será por isso que alguns jogadores se vingam na torcida, jogam a bola  contra ela, xingam?

 

Goldberg - A torcida, basicamente, é a família; é a sociedade dele. Quando ele vê a torcida, está procurando o aplauso e, ao mesmo tempo, tem medo da crítica. Esse processo já começa na infância, pois a família é um mundo social. Quando a torcida vaia é a censura, seu super-ego está sendo atingido. Ás vezes é tão difícil digerir isso que o mínimo que ele pode fazer é reagir para não implodir. Se ele não reage, corre o risco de ter um enfarto, um derrame cerebral.

 

Tênis Ilustrado - Por ser um esporte individual, que exige muito da pessoa em termos de precisão e concentração, podemos dizer que todo tenista é egocêntrico?

 

Goldberg - Não podemos dizer isso pelo seguinte: se o tenista convive bem com sua realidade pode acontecer o contrário, ele acaba jogando todos os seus núcleos narcísicos no esporte e, com isso, permite que no resto de sua vida esteja melhor inserido no contexto social. Tanto nos esportes individuais, como o tênis e nos coletivos, como o futebol, pode se perceber que há jogadores egocêntricos e também os que tendem a ser companheiros. A diferença básica que existe entre tênis e o futebol, por exemplo, é que no primeiro há a necessidade da meticulosidade porque pode ser dividida entre todos os integrantes da equipe.

 

Tênis Ilustrado - A tenista Martina Navratilova já era uma jogadora colocada entre as melhores do mundo. No entanto, há pouco mais de um ano, ela se submete a uma equipe de treinamento que a está tornando uma superjogadora. Como pode ser analisado este tipo de comportamento?

 

Goldberg - A maioria dos seres humanos vive na condição de subsistência. Por razões econômicas, sociais, culturais, psicológicas, com dificuldades de toda ordem, vivemos mal. Algumas pessoas (mas as que se dedicam com tenacidade aos esportes) tendem a ultrapassar essa fase de subsistência. Vivem a vida com a maior intensidade possível e são, em geral, as estrelas de todas as atividades humanas. Têm ritmo de vida muito intenso e pagam um preço muito alto por isso. A satisfação é impossível de ser preenchida totalmente e o ser humano está a todo o tempo trabalhando com o conceito de potência, onipotência e impotência.

 

Tênis Ilustrado - Qual a relação desses conceitos com o esporte?

 

Goldberg - Veja bem: por quê a maioria das pessoas gosta de praticar esporte? Porque o esporte é quase uma extensão máxima das possibilidades físicas de uma pessoa. Andar é nosso conduto normal e, correr, o máximo, porque você já se estendeu o máximo que pôde. Então, nesta extensão, você já está experimentando a potência, enquanto ser. Você leva a potência ao máximo, mas chega um determinado instante que, a partir daí você não pode mais. Se quiser passar daí, estará entrando num comportamento neurótico. É a chamada onipotência, característica de muito jogador. Não é difícil encontrar esses jogadores que dão a impressão de serem semideuses e que parecem querer fazer aquilo que não está de acordo com a condição humana. Do lado oposto, há pessoas que fazem o contrário. Caem e se batem na quadra, entrando no processo da impotência. Todos os que acompanham a biografia dos grandes jogadores percebem que esses três conceitos são muito freqüentes em suas vidas. Mas, não podemos esquecer o lado neurótico da sociedade de consumo, que transforma a própria vida num sorvedor que você tem que consumir. Aí, a pessoa faz isso pela morbidez e vai deixar de viver protegida pela “capa” de viver intensamente. Vai pagar esse preço.

 

Tênis Ilustrado - Martina poderia ser classificada como neurótica?

 

Goldberg - Acho difícil fazer um diagnóstico dessa natureza. Cada um de nós tem uma forma de usar a própria vida da maneira que bem entende, inclusive em termos de esporte. Se não considerarmos isso, daqui a pouco vamos achar que as pessoas que dedicam muitas horas para a arte são desequilibradas. Achar que os valores médios é que são ideais é perigoso e uma tendência da sociedade autoritária. Agora, quem quer ser um super-atleta tem que abdicar de uma série de prazeres da vida para canalizá-los em prol de um único objetivo. Isso me faz lembrar do enxadrista norte-americano Bob Fisher, que passava 16 horas por dia fechado, sem falar com ninguém. É uma tendência de egocentrismo, o sujeito que se basta a si mesmo e fixa uma meta que é alienatória. Ele se aliena de tudo e coloca todos os interesses para um único aspecto de sua vida. Nesse caso deixou de ser esportista para se coisificar, ao invés de se humanizar: E a intenção do esporte é justamente outra; aproximar o homem do homem.

 

Tênis Ilustrado – Outubro 83

 

 

QUEM MANDA NA TV EM CASA?

Brigas, negociações e até mesmo rachas na família são freqüentes por causa do domínio do controle remoto, aparelho capaz de levar o telespectador para todas as aventuras que a telinha proporciona, fazendo-o sentir-se ‘o poderoso do pedaço’

CAROL KNOPLOCH

 

Quem não gosta de ter o controle remoto nas mãos? Para mudar de canal quando bem entender ou só para não dividir o comando da televisão com ninguém? “É ter a sensação de onipotência e onipresença. Estar em Foz do Iguaçu e, de repente, ‘transportar-se’ para o Cairo”, afirma o psicólogo Jacob Pinheiro Goldberg. “A satisfação de ter o controle remoto na mão é semelhante à de um adolescente que pega o carro pela primeira vez e dirige para onde quer.” De acordo com Goldberg, os “viciados” nesse aparelhinho, na verdade, não têm controle.

O fotógrafo Osvaldo F. não deixa o controle cair na mão da mulher: leva-o para onde vai, cozinha, banheiro, sacada. “Em casa, quem manda na televisão sou eu. Ela não tem chance.” Principalmente aos domingos, quando adora “zapear” à procura de jogos de futebol. “De manhã tem o Paulista, depois o Campeonato Italiano e o Espanhol. Lá pelas 16 horas vejo o Rio-São Paulo e, no final do dia, volto para o Italiano.” Garante lembrar-se de todos os resultados e não confundir os torneios.

Às vezes, Osvaldo dá “uma chance” para a mulher – que prefere ler a ficar na frente da televisão. Juntos, gostam de assistir a filmes. “Novela, nem pensar. Também não vejo Big Brother, Casa dos Artistas, essas coisas... Você acha que sou egoísta?”

Walter Ferreira Dias também é o “dono” do controle. Todas as noites, repete o ritual: esparrama-se na “poltrona do papai” que ganhou dos filhos no último aniversário, de 70 anos. Coloca o controle remoto no bolso da camisa ou escondido dentro dela – “para ninguém se apoderar” – e comanda a tevê que fica na sala. Muitas vezes, se esquece de onde pôs o controle e, ao levantar-se, lá vai o aparelho para o chão. “Todos sabem que eu gosto de ficar com ele. Como sou bravo, ninguém pega”, brinca Walter, dono de uma loja de artigos religiosos e presentes no bairro da Liberdade, na capital.

Explica que a família não briga porque, em sua casa, há cinco televisões, três com canais por assinatura, e apenas cinco pessoas. Também não é daqueles que assistem a somente um tipo de programa. Tem gosto variado: na sua telinha passam filmes de ação e policiais, a novela O Clone e telejornais. “Nos intervalos assisto ao Programa do Ratinho, Cidade Alerta e esporte. Não vejo propaganda.”

Controle, geladeira e jornal – Miriam Linden não tem de dividir nem o controle, nem a geladeira nem o jornal.... nada, com ninguém. Desde a separação, uma das boas sensações da bibliotecária é “ter o controle remoto nas mãos” em um espaço que, agora, é só seu. Mesmo conhecendo a programação de determinado horário e depois de ter escolhido o que vai ver, tem a mania de passar por todos os canais para conferir se o que escolheu é mesmo a melhor opção. Achava chato quando via alguém fazendo isso, mas adotou o hábito depois que passou a ser a única dona do aparelho. “Se tivesse de levantar toda hora para mudar de canal, não faria. Ainda bem que existe o controle.”

Cleide Castro de Abreu, auxiliar de cabeleireira, que está desempregada, tem de acompanhar os capítulos da novela predileta, O Clone, nas revistas e jornais. “Meu marido é o do tipo chefão. Como paga a maioria das contas, deixo ele ficar com o controle remoto.” Cleide tem apenas uma televisão na quitinete em que mora com João e a filha, Lays, de 5 anos. “Ele gosta do Ratinho, que passa no mesmo horário da novela. Quando não tem aquelas brigas feias, posso ver um pouquinho da história da Jade e do Lucas.” Aos sábados, é a filha quem toma conta do controle, para assistir aos desenhos animados.

Sérgio Negrão, diretor de Esportes do BCN, recorda-se com humor de um dos artifícios que usava para evitar disputas pelo controle remoto com a ex-mulher. No quarto do casal, colocou duas tevês iguais, lado a lado, em um móvel na frente da cama. “Cada um assistia ao que queria, com fone no ouvido e o controle na mão.” Hoje, em uma casa bem menor, só tem uma tevê no quarto, “pilotada” por Ricarda, sua atual mulher, jogadora de vôlei do BCN. “Acho engraçado e a gente não briga. Ela muda tão rápido de canal que não vê o que passa.” No novo apartamento, em Osasco, o casal tem três aparelhos, oito controles remotos (inclui até de um vídeoquê) e mais de 150 canais (assina a DirecTV e a Net). “Confundo os controles toda hora.”

Profissão – O crítico de cinema Rubens Ewald Filho é um craque no controle remoto que não vê tevê – do meio da sala, administra duas televisões, simultaneamente, para ver dois filmes ao mesmo tempo, escutando o áudio de um e lendo a legenda do outro. Tem nove controles remotos em casa (dois de operadores por assinatura, dois de videocassetes, outros dois de DVDs, um do telão e outro do som). “Imagina o que eu gasto de pilha.”

Rubens, que já tentou, em vão, concentrar todos os controles em um só, assiste a mil filmes por ano (não necessariamente títulos diferentes). “Vejo filmes repetidos ou de outras épocas, porque gosto de reavaliar minhas sensações.” Quer chegar à marca de 20 mil filmes – até hoje, já assistiu a cerca de 19.800 –, quando pensa em preparar uma festa, em um cinema, é claro, e entrar para o Guiness Book (Livro dos Recordes).

Marinêz Azzi, responsável pela estatística do time de vôlei do BCN, mostra que tem paciência ao manusear o controle remoto, um instrumento de trabalho. Este ano, já gravou mais de cem jogos e as fitas, usadas para analisar o desempenho e as táticas dos adversários, têm de ser editadas.

Atrás da câmera, não desgruda do controle – aperta o pause quando a bola cai e o play quando o jogo recomeça, milhares de vezes. O pior são as edições, feitas com dois vídeos e dois controles, para selecionar e gravar as imagens. “Fico louquinha apertanto os botões”, comenta Marinêz, que demora, em média, três horas para fazer uma edição simples – já chegou a ficar mais de dez. “Por isso, quando estou em casa, não quero saber de controles e de televisão.”

O Estado de S. Paulo – 10/03/02

 

EXIBICIONISMO TEM PÚBLICO CATIVO

 

Para ser voyeur, basta ter curiosidade, a forte aliada dos shows realistas e das revistas da moda

Carol Knoploch
Agência Estado

São Paulo - Bisbilhotam pelo olho mágico da porta ao ouvir burburinhos no corredor. Vigiam o vizinho pela janela, com ou sem binóculo. Não desviam a atenção de cenas picantes, ousadas, inesperadas, envolvendo pessoas na rua, estacionamento, trabalho, em qualquer lugar. A mania de observar tem variáveis. Começa num simples detalhe a ser notado e pode chegar à patologia. "Todo mundo, sem exceção, é um pouco voyeur", garante o psicólogo Jacob Pinheiro Goldberg.
Não é preciso ter parafernália de voyeur para comportar-se como tal. Basta ser curioso. E esse fato tem sido o principal aliado dos reality shows, sucesso na televisão do mundo inteiro que, há alguns meses, chegou ao Brasil. Primeiro com a "Casa dos Artistas", que tinha um buraco da fechadura como símbolo - recorde de audiência na história do SBT. E agora, com o "Big Brother Brasil", da Rede Globo. O programa teve início avassalador. De acordo com o Ibope, na estréia, alcançou 49 pontos de média de audiência (cada ponto representa 44 mil domicílios na Grande São Paulo). No dia seguinte, registrou 53 pontos de média e, na quinta-feira, 51 pontos na primeira parte (das 21h34 às 21h40), e 32 pontos de média após o jogo de futebol do Brasil contra a Bolívia (das 23h54 até 0h06). A atração traz slogans como "para quem gosta de olhar", "entre e olhe à vontade", e "nada vai escapar dos seus olhos".
O voyeurismo é tema clássico do cinema - o próprio espectador é um pouco voyeur. Inspirou filmes como "Janela Indiscreta", de Alfred Hitchcock, e "Invasão de Privacidade", de Phillip Noyce. O psicólogo Goldberg acha convidativa a sala escura, sem ruídos, e a tela grande. Ajuda o público a se desligar dos problemas diários enquanto observa a vida alheia, mesmo de um personagem. "Isso é tão voyeur quanto acompanhar as fofocas de um ídolo na revista 'Caras' ou ter um binóculo para ver a vizinha trocar de roupa", explica.
Jefferson Santos, de 30 anos, comprou a primeira luneta aos 12, com a mesada e a venda de um relógio com joguinho. "Passei para uma luneta de seis fases, com tripé, e hoje uso uma filmadora que aproxima 700 vezes a imagem. Mas não filmo! Só olho", garante o administrador. Comenta que "desde que se conhece por gente" espiava, pelo buraco da fechadura, as empregadas tomando banho. "Nem entendia por que gostava. Só a partir dos 12 anos passei a ter malícia", afirma. Até os 23 anos, ficava mais de três horas por dia com o olho grudado na luneta à procura de momentos interessantes. Acha que mais de 90% dos voyeurs querem ver cenas de sexo.
Do oitavo andar de um prédio no Jardim Marajoara, onde morou por 12 anos, conheceu uma voyeur - um dia as lentes se cruzaram - e acompanhou a vida de um vizinho. "Ele tinha várias namoradas, mas depois que se casou e teve um filho, deixou de procurar a mulher", lembra. Para saber as histórias de um prédio que era impossível observar (o dele mesmo), contava com a ajuda da amiga "curiosa".

INGENUIDADE

O voyeur não se interessa apenas por cenas de sexo. Uma menina de 14 anos que, envergonhada, pediu para não ser identificada, passa as tardes de olho nos vizinhos. Sabe que o "cara do sétimo andar" deixa o cachorro preso na varanda quando sai. E que a vizinha da frente, uma menininha, sempre coloca uma cadeira de plástico em frente da TV, quando começa "O Clone". "Ela dança igual as meninas da novela. Outro dia, fui conferir, liguei a televisão, e ela estava imitando, com as mãos, as meninas muçulmanas", conta. A mãe fica preocupada. "Ela não gosta de sair de casa, mas pediu um binóculo", revela.
Flávio Franco, de 30 anos, é voyeur assumido. Gosta de ver, de longe, a reação das namoradas, ao serem surpreendidas com presentes. Já "invadiu" o apartamento de uma delas, com uma luneta, para conferir como receberia uma serenata encomendada. "Ela chorou de emoção", recorda. Dono de uma drogaria na zona Leste, gosta de "bisbilhotar" a vida dos clientes. "Sei quem trai, quem tem amantes, quem não 'funciona' mais...", enumera. O ponto, o mesmo há 12 anos, e a profissão ajudam a descobrir a intimidade dos freqüentadores. Acha engraçado quando as pessoas tentam enganá-lo. "Quem compra Viagra diz que é para um amigo", debocha.
Para Goldberg, algumas profissões são movidas pela "curiosidade de voyeur", mas não a do dono de farmácia - cita o investigador de polícia, detetive, jornalista, fotógrafo, profissionais de hotelaria (que sabem, por exemplo, que o hóspede do 513 pediu frango com batata), e o próprio psicólogo. "Mas esse Flávio é mesmo um voyeur. Gosta de ver e saber da vida dos outros", define. Goldberg explica que o costume de olhar o outro torna-se patologia quando o indivíduo perde a identidade e passa a viver a história de quem observa. "Doente é aquela pessoa que deixa de almoçar para ver o outro almoçando, ou põe em risco o trabalho para não perder um lance da vida do vizinho", explica.

EXIBIDA

Se há os que gostam de olhar é porque também não faltam os que apreciam se mostrar. A modelo Patrícia Limonge, de 26 anos, ficou conhecida, em abril do ano passado, no jogo do Palmeiras contra o argentino Sport Boys, pela Libertadores da América. Rebolou, de calcinha, na janela do apartamento, para delírio dos ocupantes das arquibancadas do Parque Antártica. As amigas ajudaram no show, apagando e acendendo as luzes. "Comemorei o gol", comenta. Hoje ela faz o quadro "Teste de Fidelidade" no "Você na Tevê", da Rede TV. Patrícia, que antes disso estava desempregada, diz gostar de aparecer "por causa da profissão". "Faz bem para o ego, mas é importante estar em evidência para ter trabalho", esclarece.
O modelo e ator Taiguara Nazareth, de 25 anos, saiu da "Casa dos Artistas" com a esperança de obter notoriedade e emprego. Mas até agora só conseguiu "bicos", como a presença em bailes. Para voltar à telinha traçou nova estratégia. Vai desfilar em todas as 14 escolas de samba de São Paulo - "quem sabe assim, né?" - e pretende gravar um CD de black music. "Vou bancar do bolso e quem sabe fecho com uma gravadora", confia.
De fato, o exibicionismo tem público cativo, como o do salão de beleza, onde "Caras" é leitura freqüente. "É uma revista muito procurada. Está sempre nas mãos das clientes - até a capa cai, de tanto que é folheada", comenta Maria Livramento de Oliveira, de 62 anos, da equipe do Vita Cabeleireiros. "A cliente quer saber sobre a vida dos artistas", acrescenta a manicure Marlene Silva Fonseca, de 26 anos. "É fofoca! E a gente também lê para ter assunto com as clientes", ressalta a também manicure Cristina Carneiro dos Reis, de 33 anos. "As campeãs em aparição são Xuxa e Sasha", conclui Cleuza de Souza Cardoso, de 40 anos.

Joinville - Terça-feira, 5 de Fevereiro de 2002 -Santa Catarina – Brasil

 

 

A RELIGIÃO DA BELEZA

 

O encontro da felicidade passa pela aceitação de si e pela capacidade de compreensão de que tudo é passageiro", avisa a monja zen-budista Coen Murayama, que passa a colaborar com a Tpm a partir desta edição. Um corpo cada dia mais bonito, sozinho, não faz verão. "A perseguição da beleza é como uma religião: busca a solução da angústia humana", explica Jacob Pinheiro Goldberg, PhD em psicologia. A saída, no entanto, certamente é outra.
Não é o caso de se fazer, aqui, a apologia do desleixo, da feiura e do corpo malcuidado. O que se questiona é o processo que leva mais e mais mulheres a tomarem suas "embalagens" como a razão única de estarem vivas sobre a Terra. Um processo (econômico, diga-se) que se inicia no pós-guerra com a celebração dos ícones da juventude em detrimento de todos os outros; que é em seguida impulsionado pelo dinheiro das indústrias de comésticos, moda e mídia; e que acaba legitimado pelos homens, observadores implacáveis das nossas bundas e dos nossos peitos.
Quando se discute a obsessão pela beleza, não há como desconsiderar certo grau de subjetividade que acompanha a relação da psicologia das pessoas com o assunto. A criança com orelha de abano provavelmente vai se aceitar melhor se puder fazer uma cirurgia. Argumento semelhante é usado por cirurgiões plásticos quando implantam silicone numa garota de 20 anos - saudável, mas cuja "indicação" aponta para seios pequenos demais. É uma questão pessoal, tudo bem, mas acreditar que uma prótese resolva todas as questões existenciais é no mínimo simplista. "Mais tarde, você vai precisar prestar contas a você mesma por querer ser alguém que não é", reflete a cearense Emília Correia Lima, de 67 anos - com a propriedade de quem foi Miss Brasil no longínquo ano de 1955.

 

TPM – TRIP PARA MULHER

 

 

PSICÓLOGOS TÊM OPINIÕES DISTINTAS SOBRE O MEDO

Para Goldberg, os atletas, por sua força física, ficam fragilizados diante do perigo.

CAROL KNOPLOCH

 

O psicólogo Jacob Pinheiro Goldberg utilizou uma frase do escritor Guimarães Rosa para explicar o que é remédio para o "estado de contaminação e pregnância paranóica", que, segundo ele, toma conta do planeta por causa do terrorismo. "Comigo as coisas não têm hoje, anteontem ou amanhã. É sempre." Explica que as pessoas precisam "tocar" a vida, sem medo de viajar, etc. "Os atletas, em especial, sentem-se super-homens por causa da força física, mas ao menor sinal de perigo, transformam-se em infantis e neurotizados. Já vi boxeador com medo de poodle."

Para a psicóloga Regina Brandão, a situação política atual é de "desamparo.”

"É o medo de morrer. Todos sentimos isso porque temos o instinto de sobrevivência”.Na sua avaliação existem o medo bobo e o inteligente. "Ter medo de barata, por exemplo, é bobo. Mas de uma guerra é o medo inteligente.

Quem não têm?"

Ficou impressionada com a situação das meninas da seleção brasileira de ginástica rítmica desportiva, que foram ao Mundial, em Madri. Os pais tiveram de assinar documento responsabilizando-se por eventuais problemas.

EUA, México, Tailândia, Japão, Cuba, Azerbaijão e Uzbequistão desistiram do torneio, que tem 43 equipes e 160 ginastas. "É complicado lidar com o medo, ainda mais com 16 anos", disse Regina.

Elias, pai da ginasta Iracema Alves, achou exagerado impedir a viagem mais importante de sua carreira. "Ela não poderá ir ao próximo Mundial por causa da idade. Está sendo a glória para nós."

 

O Estado de S. Paulo – 19/11/01

 

 

A SOCIEDADE MASCULINA JÁ ERA

 

O futuro da humanidade é feminino. A afirmação é de Jacob Pinheiro Goldberg, PhD em psicologia, que acredita, entre outras coisas, que a sociedade masculina está fadada ao fracasso.Ele está lançando o livro Eva Será Deus, que fala de como a mulher é recriminada desde a Bíblia. "O que é dito é que a mulher é feita da costela de Adão. E que o homem é feito à imagem de Deus. Se a mulher é retirada da costela de Adão, isso já mostra que ela é coadjuvante", explica Goldberg, que discorda dessa visão. "A possibilidade maior é que Deus seja mulher, mulher gera, tem útero, isso é mais lógico."
Ele se considera "hiperfeminista" e afirma que a sociedade está em crise, entre outros motivos, porque o poder sempre foi exercido pelos homens.
Ele vai mais longe e diz que uma revolução feminina vai acontecer. "O homem tem muito medo da mulher, mas eles estão entregando os pontos." Essa revolução, segundo ele, não vai ser exatamente pacífica. "Nenhuma mudança é feita sem disputa por poder." Em outras palavras, sim, Jacob diz que em algum momento talvez os homens precisem ser submissos às mulheres. O movimento feminista, segundo ele, acabou sendo cooptado "pela direita e pelos próprios homens". "As pessoas passaram a achar que feminismo é palavrão e o movimento ficou acomodado. Mas a civilização masculina está falida, então, é só uma questão de tempo." "Eu ouço muitas mulheres que se dizem feministas falando que não fazem um movimento contra os homens, mas junto aos homens. Junto coisa nenhuma, não tem de ser junto, tem de ser contra.
Depois de anos de submissão, as mulheres têm de ser contra mesmo. Não tem de fazer clubinho com os homens.
Nenhum movimento social pode ser feito dessa forma. Não existe revolução sem trauma."O psicanalista se espanta ao ver as mulheres sendo chamadas de cachorras nos bailes funks. "Isso é um absurdo, é assustador e perigoso, pode implicar uma onda de machismo." Para ele, "um tapinha não dói" é um sintoma sadomasoquista. "Isso é patológico, mas ser tratado como hino do Brasil é um absurdo. Essa música devia ser proibida. E eu acho que isso não seria repressão." Por outro lado, Goldberg vê muitos homens chamando as mulheres de deusas e princesas. "Os muito ricos se referem às suas mulheres dessa forma, como se elas fossem intocáveis. Isso tudo é um absurdo. As mulheres não precisam ser cachorras nem deusas. Elas podem ser seres humanos e ponto."

 

TPM – Trip para Mulher

 

 

PRESIDENTE DO PALMEIRAS LIBERA VERBA PARA CONTRATAÇÃO DE PSICÓLOGO

da Agência Folha

Com a má fase do Palmeiras e a divisão entre os jogadores do Parque Antártica, o treinador Levir Culpi apelou à psicologia para tentar recuperar o time.
Apesar de declarar que o problema da equipe palmeirense seja de falta de entrosamento, o presidente do clube, Mustafá Contursi, liberou verba para que psicólogos ministrem palestras aos jogadores.
Ontem, na véspera de enfrentar a Ponte Preta, os atletas do elenco palmeirense já tiveram o primeiro contato com um profissional.
O psicólogo Jacob Pinheiro Goldberg falou aos jogadores durante quase quatro horas no hotel em que a delegação do time do Parque Antarctica estava hospedada em Campinas.
A terapia em grupo deve se repetir até o fim do ano, com diferentes profissionais.

 

FolhaOnLine – 18/09/02

 

 

CULPI DIZ QUE PROBLEMA DO PALMEIRAS É TÁTICO, TÉCNICO E PSICOLÓGICO

do enviado especial da Folha a Campinas

Após a sua terceira derrota em quatro jogos no comando do Palmeiras, o técnico Levir Culpi afirmou que o problema do time é "tático, técnico e psicológico".
Hoje, o treinador atribuiu também a derrota a um erro do árbitro Edílson Pereira de Carvalho, que anotou um pênalti de Marcos em Adrianinho quando a partida estava empatada por 0 a 0.
"Esse lance acabou mudando o jogo e nos desestabilizamos emocionalmente", afirmou Culpi.
Na véspera do jogo, os palmeirenses tiveram uma palestra com o psicólogo Jacob Pinheiro Goldberg. "Não é uma palestra que mudará nossa situação. Daqui para a frente teremos uma série de palestras", disse Culpi, que pediu a contratação de um psicólogo ao presidente Mustafá Contursi. O dirigente não aceitou, mas concordou com as palestras.

 

FolhaOnLine – 19/09/02

 

 

DIRETORIA PALMEIRENSE CULPA DECLARAÇÕES DE SEUS JOGADORES PELA MÁ FASE

 

EDUARDO ARRUDA
da Folha de S.Paulo

Em vez dos gols perdidos, das atuações pífias, dos atritos entre os jogadores e do esquema tático indefinido, a diretoria do Palmeiras elegeu as declarações de seus jogadores como a responsável direta pela crise no clube, que é o último colocado no Brasileiro-2002.
Por isso, hoje, emitiu um comunicado proibindo seus atletas de darem declarações fora dos locais determinados pela assessoria de imprensa do clube.
"A diretoria agiu corretamente (ao proibir as entrevistas). A maioria dos problemas do Palmeiras ocorre nas entrevistas após os jogos. Desde que cheguei ao Palmeiras, eu tenho que ficar sempre apagando incêndio por causa disso", afirmou o técnico palmeirense, Levir Culpi.
Segundo ele, se sua equipe, que não vence há oito partidas na competição, seguir com a rotina de derrotas, os atletas podem até não falar nem nos vestiários. "Isso é possível, sim."
A série de declarações polêmicas começou com o goleiro Marcos após o empate com o Gama no Parque Antarctica.
Na ocasião, o goleiro, ainda no gramado do estádio palmeirense, fez críticas aos companheiros.
Depois, após a derrota para o Bahia, em casa, foi a vez de o zagueiro Alexandre, dentro do campo, reclamar dos jogadores mais novos da equipe.
Os comentários do zagueiro expuseram o ´racha" no grupo entre os atletas mais experientes -Marcos, Alexandre e César- e os mais novos -Nenê, Rubens Cardoso e Dodô.
Ontem, após a sexta derrota palmeirense no Nacional-2002, por 2 a 0, para a Ponte Preta, novamente o goleiro Marcos, que havia prometido não dar mais declarações polêmicas, afirmou que pediria para sair do time.
"O jogador de cabeça quente sempre acaba falando o que não deve", afirmou Levir Culpi.
A proibição irá durar enquanto o clube estiver nas últimas posições do Nacional.
Antes do veto aos jogadores, o presidente do Palmeiras, Mustafá Contursi, já havia proibido o diretor de futebol, Sebastião Lapola, de dar entrevistas.
Hoje, em reunião do Conselho Arbitral da Federação Paulista de Futebol, Contursi, o único que se pronuncia oficialmente pelo clube, se negou a dar declarações sobre a má fase palmeirense.
Convencido por alguns diretores do clube, Contursi passou a acompanhar a delegação em alguns jogos do Palmeiras fora de São Paulo.
Os atletas palmeirenses gostaram da decisão da diretoria em controlar as entrevistas dos atletas. "Já estou cheio dessa situação. Agora chega de papo-furado e vamos jogar bola", disse.
"Nossa cabeça está um pouco ruim, mas não estamos jogando bem. A luta é para não cair, não adianta sermos hipócritas. A realidade é essa", completou.
Para o psicólogo Jacob Pinheiro Goldberg, que deu uma palestra aos palmeirenses na véspera da partida contra a Ponte Preta, o veto da diretoria vai ´interromper um canal de comunicação entre o time e o torcedor".
"Eu entendo e compreendo a atitude da diretoria, mas acho que talvez fosse encontrada outra solução para o problema."

 

FolhaOnLine – 19/19/02

 

 

O PALMEIRAS NO DIVÃ

Psicólogo que conversou com o grupo diz que síndrome do sucesso atormenta os atletas

EDUARDO MALUF

 

O Palmeiras está na 23.ª hora e tem só mais uma para fugir da situação em que se encontra no Brasileiro e se livrar de um trágico rebaixamento. Quem pensa assim é Jacob Pinheiro Goldberg, badalado psicólogo, ou analista de comportamento, como se define. Jacob conversou quatro horas com o grupo, terça-feira, e chegou à conclusão sobre o que atormenta os jogadores: a síndrome do sucesso.

"O time se vê no risco de morrer de fome diante de um banquete", exemplificou. De acordo com Goldberg, os palmeirenses vêem que têm tudo para fazer boa campanha, para buscar a glória, mas não conseguem. "É a mesma coisa que a história da vaca leiteira. Ela enche o balde, a pessoa se vê diante dele, e de repente a vaca dá um coice e derruba tudo."

Jacob acredita que o trabalho de um grupo operacional, com a presença de psicólogos, assistentes sociais e pessoas ligadas à área de recursos humanos, pode ser uma das soluções para tirar o time do buraco. O presidente do clube, Mustafá Contursi, não vai contratar um profissional, mas aceitou a idéia, sugerida pelo técnico Levir Culpi, de promover palestras periódicas.

"Mas também não adianta exigir milagre."

Embora tenha percebido problemas, Goldberg disse que poucas vezes viu um elenco tão interessado e "permeável" como o do Palmeiras. "Mas é claro que em todos os grupos há um ou outro que não mostra interesse." O goleiro Marcos, por exemplo, disse que não viu tanta utilidade na palestra. A maioria aprovou.

Os problemas emocionais são cada vez mais visíveis, conforme vem observando Levir. Marcos, por exemplo, pediu para deixar o time, anteontem, fato incomum e que mostra o descontrole do jogador. Ontem, deixou a Academia de Futebol sem conversar com a imprensa. Alexandre anda falando demais.

Criticou alguns companheiros. E Lopes segue a greve de silêncio.

"A essa altura, o Figueirense é um fantasma tremendamente grande para o Palmeiras", disse o psicólogo Samuel Andrade, referindo-se à partida de amanhã. A diretoria do Palmeiras ficou indignada com as declarações de alguns jogadores nos intervalos e após os jogos. Por isso, em comunicado oficial, avisou que todos estão proibidos de falar para emissoras de rádio ou televisão no gramado. Mesma medida adotada por Eurico Miranda no Vasco, que vive crise parecida.

 

O Estado de São Paulo – 20/09/02.

 

PSICÓLOGO ENXERGA ESTRESSE COLETIVO E MEDO DE PERDER

Jacob Goldberg identificou vários problemas no elenco

Para driblar a crise e retomar o caminho das vitórias, a diretoria do Palmeiras se curvou a um pedido do técnico Levir Culpi e recorreu a um psicólogo para tentar dar novo ânimo ao grupo. O escolhido foi Jacob Pinheiro Goldberg, que tenta usar sua experiência no esporte para ajudar a equipe. Num único encontro, na semana passada, ele identificou algumas dificuldades que têm minado o elenco: alto nível de estresse, dificuldade de concentração no trabalho e medo de perder.  O encontro durou cinco horas. Goldberg fez palestra para todo o grupo e também para alguns jogadores individualmente. Descobriu que o ambiente e a relação do time com a torcida são dois aspectos que têm pesado desfavoravelmente. Como sua linha não é motivacional, Goldberg explicou que tentou revigorar o grupo estabelecendo um paralelo com a história vitoriosa do Palmeiras. “O jogador não pode ficar com medo de perder”, comentou. Além disso, sua preocupação foi unir os atletas no objetivo comum de tirar o clube do buraco. Alguns não estavam conseguindo separar a vida particular da vida profissional. “Havia jogador com problemas familiares”, lembrou.

Goldberg sugeriu a formação de uma junta para acabar com o trauma dos atletas. Além de um psicólogo, teria um assistente social e um profissional da área de Relação Humanas.

 

Diário de São Paulo – 25/09/02

 

 

ADORÁVEL SELVA DE BRINQUEDOS

 

Como escolher o produto mais adequado a cada faixa etária  das crianças, de zero a 12 anos

 

CLAUDIA GRANADEIRO

 

Nas prateleiras das lojas de brinquedo do Brasil há cerca de 4.200 tipos de produto à disposição dos consumidores, quase metade dos 10.000 itens disponíveis em todo o mundo, segundo estimativas das indústrias do setor. Não é de estranhar, portanto, que os pais tenham dúvida na hora de escolher um presente para o filho. Ou de saber se devem atender a um pedido insistente para que comprem uma novidade, daquelas que eles talvez ainda nem tenham ouvido falar, mas já viraram mania entre a garotada na escola. Inspirada em experiências internacionais e com o apoio de psicólogos e pediatras, a Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos (Abrinq) tem um guia destinado às empresas associadas cujo teor contém recomendações úteis também às famílias.


De acordo com a cartilha, em primeiro lugar, os pais devem certificar-se de que o brinquedo seja adequado à idade, para que o envolvimento na brincadeira possa ser proveitoso e prazeroso. Embora a idéia pareça óbvia, mesmo para os pediatras e pedagogos pode haver dificuldade em casar a melhor opção de brinquedo com fases diferentes do desenvolvimento físico e psicológico, particularmente diante de uma indústria detentora de um marketing agressivo e muita presença na televisão. Em linhas gerais, os especialistas identificam cinco faixas etárias, correspondentes a níveis progressivos na capacidade locomotora, no movimento dos membros e no avanço da escolarização (confira no quadro). A indicação da faixa etária, entretanto, é uma referência importante, mas não exclusiva. É necessário levar em conta os traços pessoais de cada um e as preferências que costumam demonstrar, segundo o presidente da Abrinq, Synésio Batista da Costa.

Os aspectos de segurança são importantes em todas as idades, mas a atenção deve ser redobrada até os 6 anos. É preciso tirar e desfazer todas as embalagens de um brinquedo antes de o dar a uma criança pequena, tomar cuidado com peças de menor tamanho, evitar cordas e tiras. "Infelizmente, o brinquedo oferece um risco real", afirma o toxicologista Anthony Wong, do Instituto da Criança de São Paulo. Não são raros os casos de acidentes que acabam num hospital e até em mesa de cirurgia. De acordo com Wong, os pais costumam ceder aos apelos do visual na hora de adquirir o produto, sem observar os fatores de segurança. Uma regra de ouro é verificar, no momento da compra, a existência do selo Inmetro, um certificado do Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial que confirma que o produto passou por testes de laboratório.

 

Com o aprendizado da leitura e escrita, a criança pula para um estágio de desenvolvimento avançado, dos 6 aos 9 anos, quando passa a ser encarada como mais responsável por suas atitudes e começa a mostrar sua individualidade e personalidade. Para os pais, contudo, essa fase pode ser sinônimo de dor de cabeça quanto aos brinquedos. No sexo masculino, o interesse é grande por revólveres, espadas, metralhadoras, um arsenal reluzente e barulhento que se associa às lutas marciais e aos jogos de combate. Como pano de fundo, há sempre a polêmica que opõe os partidários da proibição de armas de brinquedo e os que não têm restrições a elas. Autor do livro Psicologia da Agressividade, o psicólogo Jacob Pinheiro Goldberg aconselha os pais a não tomar posições extremadas. Segundo ele, passar um conceito de pacifismo radical pode despreparar a criança para a competição e o trato com a violência no mundo real. "Permita a arma de brinquedo sem estimular seu uso de forma permanente", aconselha o psicólogo. Os pais devem conversar com os filhos e falar sobre as conseqüências de um tiro na vida real. A experiência de Goldberg mostra que boa parte das crianças, quando esclarecidas sobre seus efeitos, deixa de se sentir tão atraída por esses brinquedos. Sobre isso, a Abrinq tem diretrizes para quem fabrica esse tipo de produto. A recomendação é apelar para a fantasia: a arma de verdade e a imitação devem ter tamanhos diferentes, além de uma cor que não deixe margem à confusão (branca, vermelha, laranja, amarela, roxa ou rosa).

 

A questão da violência permanecerá quando chegar a idade dos 9 aos 12 anos, agora com a febre dos jogos eletrônicos e do videogame. No caso, os pais devem observar os limites de idade, que aparecem nas embalagens sob forma de selo, seguindo normas do Conselho de Classificação dos Softwares de Entretenimento, dos Estados Unidos. Os especialistas fazem restrições também ao número de horas dedicadas ao divertimento tecnológico, que não deve passar de uma por dia. "É muito fácil confinar a criança no apartamento, em frente a uma telinha, mas as brincadeiras ao ar livre não podem ser abandonadas", prega a ludoeducadora Claudia Amalfi Marques. Para Odair Furtado, professor do departamento de psicologia social da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC), os pais devem ser alertados para que não produzam "robozinhos pouco criativos". Longe de recriminar os avanços da tecnologia, Furtado lamenta o estímulo à individualidade excessiva da criança e a falta de participação dos pais, preocupação endossada pela pedagoga Maria Angela Barbato Carneiro, da área de política de educação infantil da PUC. "As trocas afetivas são fundamentais", afirma Maria Angela. Tão bom quanto acertar no brinquedo para o filho é você reservar uma parte do tempo para estar junto dele na hora da diversão.

 

Revista Veja

 

 

EGO GANHA MASSAGEM COM "CARRÕES"

O que faz alguém comprar um carro muito acima de suas necessidades ou mesmo de suas possibilidades? A resposta, de um especialista em comportamento, é a de que o automóvel é um instrumento de poder que significa a transposição das restrições pessoais.

Jacob Pinheiro Goldberg, doutor em psicologia e professor da Universidade de Londres, afirma que o carro abrevia o tempo e melhora a relação da pessoa com o espaço. Isso exacerba o sentimento de onipotência e coloca o indivíduo adiante de frustrações. Segundo ele, ter o máximo de equipamentos faz muito bem para algumas personalidades, principalmente as infantilizadas. Com esses equipamentos, essa personalidade imatura se acha superior.

Partindo dessa idéia, é possível diagnosticar vários perfis de consumidores de carros: turbulento, compulsivo, compulsivo consciente, arrependido, domingueiro, etc.

A escolha de um modelo reflete o desejo por velocidade, força, estilo ou status. Todas essas características procuram afirmar a personalidade do cliente.

Tipos de Consumidor:

Domingueiro: também chamado de protagonista. Sem ter necessidade de um carro durante a semana, pois usa metrô ou táxi, compra um carrão para usar no sábado ou domingo. 

Compulsivo: é mais vítima ou escravo do que sujeito do desejo. Na linguagem psicanalítica, diz-se que ele não age, mas atua. É um sinal de carência neurótica, algo necessariamente negativo para a personalidade.

 Compulsivo consciente: também pode ser chamado de perdulário. Tem prazer na ostentação. Por isso, compra um carro caro, muitas vezes financiado, além de suas possibilidades. É uma forma de suprir fragilidades pessoais. É um compulsivo atenuado.

Turbulento: está sempre em conflito com o carro que comprou. Vive equipando ou reformando. Chega a ter sentimentos hostis, tratando o carro como um ente afetivo.

Hipersensível: assim que é informado sobre novos equipamentos de segurança, os instala. Não basta um carro com airbag frontal - é preciso ter lateral. Não compra se não tiver ABS, torque razoável e tração nas quatro rodas. Instala luminosos para ficar visível à noite.

Desencanado: não tem idéia ou simplesmente não é interessado em saber o que seu carro oferece. Também chamado de pré-industrial, pois mantém pouca intimidade com a máquina.

Madalena Arrependida: dotado de um superego agudo, que logo denuncia o suposto erro. É o consumidor inseguro que, poucos dias depois de uma compra, se arrepende e tenta negociar ou devolver o veículo caro que comprou.

Respeito

Uma pesquisa da Mercedes-Benz constatou que cerca de 95% dos compradores de jipões usam o veículo só na cidade e em estradas pavimentadas.

Segundo Luiz Americo, gerente da Izzo (revenda Chrysler), o carro impõe muito respeito passa a idéia de uma pessoa realizada. Como quem escala uma montanha, há o consumidor que prefere ir galgando os degraus que levam ao carro dos sonhos.

Folha de S. Paulo, Caderno Sua Vez, 31/05/1998, pág. 1

 

Marcelinho, anjo ou demônio?

JORGE HENRIQUE CORDEIRO

SÃO PAULO - Uh! Marcelinho! Uh! Marcelinho! O grito da torcida corintiana é sempre o mesmo quando seu principal jogador entra em campo. Qual será o canto no final do jogo, são outros quinhentos. Tudo vai depender do humor de Marcelinho em campo. Ele tanto pode chutar deslealmente um adversário, ser expulso e ser xingado até a alma, ou fazer um gol de placa e levar o Corinthians à vitória e ser louvado por milhares de vozes. Não são poucos os jogadores adversários que o consideram desleal e hipócrita: dá um pontapé de um lado e agradece a Deus por um gol do outro. Hoje, na final do Campeonato Paulista contra o Botafogo de Ribeirão Preto (15h, com transmissão da TV Globo), a torcida terá mais uma chance de decidir se Marcelinho é anjo ou demônio.

A relação de amor e ódio da torcida do Corinthians com Marcelinho é a mesma há sete anos, quando ele foi comprado por US$ 700 mil ao Flamengo, clube que o revelou. Nos dois últimos jogos, Marcelinho não fugiu à regra e provocou os dois sentimentos nas arquibancadas. Contra o Atlético Paranaense, pela Copa do Brasil, deu um chute no lateral Fabiano e foi expulso, aos 19 minutos do primeiro tempo. Não foram poucos os que pediram a cabeça do jogador. Mas no domingo, deu a volta por cima ao marcar dois bonitos gols na vitória por 3 a 0 sobre o Botafogo de Ribeirão Preto, praticamente assegurando o título ao Corinthians. O time do interior precisa vencer hoje por quatro gols de diferença para ser campeão.

''Sei que preciso me controlar mais. Tudo que faço tem muitas conseqüências para mim. E com a torcida do Corinthians não existe meio termo. Se você joga bem, eles te tratam bem; se joga mal, aí a coisa complica...'', afirma Marcelinho, que há duas semanas vem freqüentando sessões de análise com o psicanalista Jacob Pinheiro Goldberg, que já trabalhou com Ayrton Senna, o temperamental técnico de vôlei Ricardo Najavas e a tenista Vanessa Menga. ''O fato de ele me procurar é um sinal de sofisticação e civilidade, não de doença. Isso é um preconceito cultural dos brasileiros. O que faço é psicologia esportiva e não clínica. Busco melhorar sua performance dentro de campo.''

Falar menos - Aos 30 anos, Marcelinho já conquistou muitos títulos - nove paulistas e três brasileiros (dois destes com a camisa do Corinthians) -, mas sabe que controlar seu temperamento é fundamental para conseguir seu objetivo maior. ''Quero ir a uma Copa do Mundo e sei que 2002 é minha última chance'', diz o jogador que, em 13 anos de carreira, só foi convocado para a Seleção sete vezes, a última delas mês passado, no empate em 1 a 1 contra o Peru, pelas Eliminatórias da Copa de 2002. Foi substituído no intervalo, mas acredita que ainda está no páreo. ''O que eu fizer no Corinthians vai me ajudar a conquistar um lugar na Seleção. Tudo tem sua hora e a minha ainda vai chegar.''

Marcelinho adotou outra tática para cair de vez nas graças do técnico da Seleção e também dos torcedores - falar menos. Ele sempre foi de reclamar por não ser convocado, expõe problemas internos da equipe em público, além de saturar ouvidos alheios com mensagens evangélicas. Agora acredita piamente que o silêncio é a melhor estratégia. ''Aprendi que não preciso falar muito. Quem fala demais, dá bom dia a cavalo.''

No ano passado, Marcelinho talvez tenha vivido seu pior momento no Corinthians. Mesmo com o inédito título mundial conquistado em cima do Vasco, começou a ser fustigado pela torcida. ''Ele perdeu um pênalti na final do Mundial e outro na Libertadores, que nos eliminou justamente para nosso maior rival, o Palmeiras. Isso atiçou os torcedores'', lembra José Cláudio de Almeida Moraes, o Dentinho, da maior torcida organizada do Corinthians, a temida Gaviões da Fiel, que tem cerca de 60 mil filiados. ''O Marcelinho é o maior ídolo do clube hoje e por isso tem que ser cobrado. Ele é importantíssimo dentro do time, mas de vez em quando acontece um desequilíbrio que ninguém entende. Aí, o torcedor se irrita com ele.''

Veio o Campeonato Brasileiro e o Corinthians fez a pior campanha da sua história, ficando 10 partidas sem vencer. Marcelinho era um dos alvos preferidos da ira dos torcedores. O vice de futebol Antônio Roque Citadini chegou ao clube quando o time já estava na sexta derrota e acompanhou de perto as pressões da torcida contra o jogador. ''A bronca com ele vinha mais das torcidas organizadas. A massa gosta dele'', garante Citadini, lembrando que Marcelinho é hoje um raro caso de jogador que se identifica com o clube. ''Não conheço outro jogador do nível dele que esteja há tanto tempo no mesmo clube. Por isso defendi ele com unhas e dentes.''

Marcelinho não é bobo e sabe que no cabo-de-guerra dos que gostam e dos que não gostam dele, leva ligeira vantagem. ''Sinto isso quando ando na rua, vou ao shopping com minha família ou acabo de treinar. Nunca fui hostilizado na rua, sempre recebo mais elogios que críticas'', diz o jogador, que já marcou 204 gols pelo Corinthians. Ele quer jogar futebol por mais quatro, cinco anos no máximo. A aposentadoria já está garantida pelos inúmeros investimentos que fez - de grupo de pagode evangélico às franquias com seu nome para fraldas, roupas infantis e outros badulaques, além de investimentos mais sólidos, como apartamentos, carros e ações.

''Quero estar de bem comigo, com minha família e com os torcedores corintianos quando parar de jogar futebol.'' Para que esse desejo se realize, Marcelinho vai ter que pôr definitivamente a cabeça no lugar. Ele - e o Corinthians - só tem a lucrar.

 

Jornal do Brasil

 

 

PSICÓLOGO FAZ CABEÇA DE MARCELINHO

Jacob Goldberg prepara o craque do Santos para suportar pressão e ansiedade no domingo

CAROL KNOPLOCH

 

Marcelinho Carioca prepara-se psicologicamente para encarar o Corinthians na Vila. Ontem, fez quatro horas de terapia, em sua casa, em Santos, com o psicólogo e analista de comportamento Jacob Pinheiro Goldberg. "Comparo essa partida com uma luta medieval. Dois cavaleiros com suas lanças, enfrentando-se na frente do grande público", afirma Goldberg. "Quero o Marcelinho comportando-se como o verdadeiro cavaleiro: sem medo e sem mancha."

O psicólogo explica que tem como objetivo determinar algumas diferenças entre esse confronto e os outros, comuns, de fins-de-semana. "Essa é a batalha da vida dele." Marcelinho começou a semana brigando com o Corinthians na Justiça do Trabalho, por uma indenização por rompimento de contrato. A pergunta é: como terminará a semana?

Goldberg acredita que independentemente do resultado, desdobramentos são imprevisíveis. Se seu cliente perder, já sabe como agir. "Estarei lá, de pé, esperando até o último minuto, para saber qual será a conseqüência desse resultado na vida dele." Por isso, trabalha para que o meia não seja influenciado pela ansiedade. "Foi julgado, condenado e punido, sem ter tido direito a defesa. Será que é possível resistir a tudo isso? "

Treino - Viola deixou o treino de ontem com tontura. "Passei mal depois do jantar de terça-feira. Deitei suando muito, com ânsia e dor de cabeça. Ainda não estou bem", disse o atacante. O goleiro Fábio Costa está recuperado de contusão. (Colaborou José Rodrigues)

 

O Estado de S. Paulo – 26/10/01

 

SELEÇÃO ANDA DOENTE DO PÉ E RUIM DA CABEÇA

Psicólogos sugerem que jogadores brasileiros precisam recuperar a auto-estima, abalada pela sucessão de resultados ruins, em partidas amistosas e em competições oficiais

ROBERTO BASCCHERA

Enviado especial

 

BUENOS AIRES - A seleção não se acerta em campo, abusa dos chutões e não entusiasma nem o torcedor menos exigente. Mas não é apenas o estilo capenga que preocupa. O equilíbrio emocional é igualmente frágil. Amiga do técnico Scolari, a psicóloga Regina Brandão, que se especializou em trabalhar com atletas, dá o diagnóstico: os jogadores precisam recuperar a auto-estima para voltar a formar um time vencedor. A cena dos derrotados deixando cabisbaixos o gramado do Monumental de Nuñez, enquanto os argentinos comemoravam a vitória por 2 a 1, marcou o final do superclássico da noite de quarta-feira.

O futebol brasileiro, quatro vezes campeão mundial, entregou-se à superioridade argentina. Com poucas exceções, os jogadores foram embora dizendo que vencera "o melhor, o favorito". Regina não concorda com esse sentimento de inferioridade e está convencida de que trabalho psicológico poderá contribuir para mudar o quadro. "Temos de virar essa mesa", diz. "Não estou acompanhando o cotidiano dos jogadores, mas o certo é que não podemos aceitar que atletas de alto rendimento, como os brasileiros, deixem o gramado de cabeça baixa. Precisamos dar um jeito nisso e a preparação psicológica é um dos caminhos."

Regina destaca o espírito aguerrido dos argentinos, também enaltecido por Scolari na terça-feira, véspera do jogo. "Eles (os argentinos) têm uma característica que muitas vezes falta aos nossos atletas: não desistem nunca. É um pouco disso que precisamos." A psicóloga trabalhou com Scolari no Palmeiras e no Cruzeiro. Também prestou serviços a equipes dirigidas por Celso Roth e Paulo Autuori. Hoje, auxilia Carlos Alberto Parreira no Inter.

Quando Scolari assumiu a seleção, Regina estava cotada para integrar o grupo de trabalho, mas não recebeu convite.

Seu último contato com o treinador foi antes da partida contra o Paraguai, no dia 15 de agosto, em Porto Alegre. O time venceu por 2 a 0. "Liguei apenas para desejar boa sorte." Ela assegura não ter cobrado a contratação.

"Conversamos muito por alto a respeito, mas Luiz Felipe é adepto da preparação psicológica e tem uma sensibilidade muito grande. Ele vive o dia-a-dia dos jogadores e sabe a hora de iniciar um trabalho. Se ainda não fez isso, tem seus motivos, talvez a falta de estrutura ideal."

Regina, no entanto, não vacila, e se diz disposta a colaborar, mesmo que eventual convite venha em um momento tão delicado da equipe, que precisa de, no mínimo. "Estou esperando Luiz Felipe me ligar. Se chamar, eu vou."

Síndrome do pavão - O psicólogo Jacob Pinheiro Goldberg, terapeuta de Marcelinho Carioca, concorda com a colega Regina Brandão, mas acredita que os atletas ainda não têm consciência de que precisam reconquistar a auto-estima. "Os jogadores se acham os melhores. É a síndrome do pavão.

Demonstram segurança, até porque são supervalorizados em seus clubes, mas, intimamente, precisam trabalhar a confiança, a humildade e a auto-estima autêntica."

Goldberg explica que ser "narcisista" é totalmente diferente de ser "o astro". Geralmente, quem fala demais ou se comporta como uma pessoa importante, acima das outras, na maioria das vezes é essencialmente inseguro. "O Pelé era um astro em campo. Humilde, sim, mas não se deixava humilhar." Acrescenta que hoje, na seleção, o astro é o técnico Luiz Felipe Scolari. "Esse deslocamento de valor, do campo para o banco, é que não dá certo. Quem entra para jogar, quem faz o gol e quem empolga a torcida é que deveria ser o astro, o artista do evento."

Para Goldberg, outro fator prejudicial é a falta de espírito coletivo. Disse que, ao assistir ao último jogo da seleção, tinha a impressão de ver uma verdadeira "tribo fechada" a cada movimentação da Argentina. No lado do Brasil, isso não acontecia. "Os argentinos avançavam e recuavam juntos, coesos, um dando suporte ao outro. O Brasil não atua dessa forma. Nossos jogadores mostram um individualismo típico de quem é 'narcisista', se 'acha o bacana' e, no final, não resolve nada." (Colaborou Carol Knoploch)

 

O Estado de S. Paulo – 07/09/01

 

 

PSICÓLOGO TENTA FURAR O BLOQUEIO DO REPORT COM TERAPIA DE GRUPO

 

Segundo Jacob Goldberg, a intenção é melhorar a aplicação da capacidade técnica em nível de competição

 

Os jogadores e os integrantes da comissão técnica do Report/Nipomed passaram ontem por uma dinâmica de grupo com o psicólogo Jacob Pinheiro Goldberg, em São Paulo, no intervalo dos treinos da equipe. A intenção da terapia é tentar eliminar o bloqueio psicológico do time, que vem enfrentando muitas dificuldades na Superliga de Vôlei. Hoje, por exemplo, a equipe tem uma partida decisiva contra o Telepar/Maringá, a partir das 19 horas, no Ginásio Pedro Portela, em Suzano, com transmissão pela Globosat/SporTV. O Report precisa da vitória para passar para as semifinais da competição.

"Buscamos resolver bloqueios subjetivos e melhorar a aplicação da capacidade técnica em nível máximo de competição", comenta o psicólogo, que tem experiência na área esportiva desde a década de 80, quando teve o piloto Ayrton Senna como paciente. "Esse tipo de trabalho consegue dar resultados imediatos na grande maioria dos casos."

Na conversa, foram tratados temas como medo, expectativa e ansiedade. "O importante é o rompimento de tabus e a reconquista do prazer de jogar", diz o psicólogo, que fez uma espécie de contrato de risco com a equipe e só receberá pelo trabalho se o time for campeão da Superliga. "Na competição de alto nível, é normal o desgaste da excelência", prossegue. "Cria-se uma expectativa muito grande e a cobrança de eventuais erros pode tornar-se uma tragédia."

O atacante Max, titular da seleção brasileira, gostou da experiência. "Nosso time tem treinado muito bem e não tem correspondido em quadra", comenta o jogador. "Acho que a iniciativa foi válida e deve ajudar no desempenho do grupo."

O presidente da Associação Atlética Report, Ênio Ribeiro, também participou da terapia. "Ninguém pode pôr em dúvida a competência dos jogadores e dos integrantes da comissão técnica do time", diz. "Mas alguma coisa tem atrapalhado o desempenho do grupo e, por isso, aceitei a sugestão da Nipomed, nossa co-patrocinadora, para realizar a dinâmica."

A Olympikus, já nas semifinais da Superliga e líder invicta da competição, tem o apoio da psicóloga Paula Almeida desde o início do torneio. O Banespa também está pré-classificado para a próxima etapa.

O outro semifinalista sairá do confronto entre Ulbra/Pepsi, atual campeã brasileira, e SOS Computadores, em partida marcada para as 19 horas, em Canoas, no Rio Grande do Sul. O playoff está empatado por 1 a 1.

 

CBS – SportsLine – 27/03/99

 

 

PSICÓLOGOS VÊEM FALHAS NA  ‘CABEÇA’ DA SELEÇÃO

Para os estudiosos, falta à equipe brasileira a auto-estima para se irritar com as derrotas e não se conformar com resultados adversos, comportamento visto em alguns jogadores após a derrota para a Argentina quarta-feira

SÃO PAULO – Amiga do técnico Luiz Felipe Scolari, a psicóloga Regina Brandão, especializada no trabalho com atletas, dá seu diagnóstico: os jogadores da seleção brasileira precisam urgentemente recuperar a auto-estima para voltar a formar um time vencedor. A cena dos derrotados deixando cabisbaixos o gramado do Monumental de Nuñez, enquanto os argentinos comemoravam a vitória por 2x1 como se tivessem ganho uma Copa do Mundo, marcou o final do superclássico da noite de quarta-feira.

O futebol brasileiro, quatro vezes campeão mundial, entregou-se à superioridade argentina. Com poucas exceções, os jogadores foram embora dizendo que vencera o melhor, o favorito. Regina Brandão não concorda com esse sentimento de inferioridade e está convicta de que um trabalho psicológico poderá contribuir para mudar o quadro. “Temos de virar essa mesa”, diz. “Não estou vivenciando o cotidiano dos jogadores, mas o certo é que não podemos aceitar que atletas de alto rendimento, como os brasileiros, deixem o gramado de cabeça baixa. Precisamos dar um jeito nisso e a preparação psicológica é um dos caminhos.”

Regina Brandão destaca o espírito aguerrido dos argentinos, também enaltecido por Scolari na terça-feira, véspera do jogo. “Eles (os argentinos) têm uma característica que muitas vezes não se encontra em nossos atletas: não desistem nunca. É um pouco disso que precisamos.”

A psicóloga trabalhou com Scolari no Palmeiras e no Cruzeiro. Também prestou serviços a equipes dirigidas por Celso Roth e Paulo Autuori. Hoje, auxilia Carlos Alberto Parreira no Internacional. Quando Scolari assumiu a seleção brasileira, Regina Brandão estava cotada para integrar o grupo de trabalho do treinador, mas até agora não recebeu convite.

Seu último contato com o treinador foi antes da partida contra o Paraguai, dia 15 de agosto, em Porto Alegre. O time venceu por 2x0. “Liguei apenas para desejar boa sorte. Ela assegura não ter cobrado sua contratação. “Conversamos muito por alto a respeito, mas Luiz Felipe é adepto da preparação psicológica e tem uma sensibilidade muito grande. Ele vive o dia-a-dia dos jogadores e sabe a hora de iniciar um trabalho. Se não fez isso ainda, com certeza tem seus motivos, talvez ainda não tenha encontrado a estrutura ideal para isso”, afirma.

Perguntada se aceitaria convite num momento tão delicado da equipe, que precisa de no mínimo sete pontos em três jogos para garantir vaga na Copa do Mundo, ela não tem dúvidas: “Estou esperando ele me ligar. Se chamar, eu vou”.

SÍNDROME DO PAVÃO - O psicólogo Jacob Pinheiro Goldberg, que atualmente é o terapeuta de Marcelinho Carioca, concorda com a opinião de Regina Brandão, mas acredita que os atletas não têm a consciência de que precisam readquirir a auto-estima. “Os jogadores ‘se acham’ os melhores. “É a síndrome do pavão. Demonstram segurança, beleza, até porque são supervalorizados em seus clubes. Mas, intimamente precisam trabalhar a confiança, a humildade e a auto-estima real e autêntica.” Goldberg explica que ser narcisista é totalmente diferente de ser o astro. “Geralmente quem discursa ou comporta-se como uma pessoa importante, diferenciada, na maioria das vezes é essencialmente insegura. O Pelé era um astro em campo. Humilde sim, mas não se deixava ser humilhado.” Acrescenta que, hoje, na seleção o astro é o técnico Luiz Felipe Scolari. Esse deslocamento de valor, do campo para o banco, é que não dá certo. Quem entra para jogar, quem faz o gol e quem empolga a torcida, é quem deveria ser o astro, o artista do evento. Para o psicólogo, outro fator prejudicial é a falta de um espírito coletivo. Observou que ao assistir o último jogo da seleção, teve a impressão de ver uma verdadeira tribo fechada em toda e qualquer movimentação da Argentina. Não do Brasil. “Os argentinos avançavam ou recuavam juntos, coesos, um dando suporte para o outro. O Brasil não atua dessa forma. É um individualismo típico de quem é ‘narcisista’ se ‘acha o bacana’ e no final, não resolve nada.”

JCOnLine – Jornal do Commercio – Recife – 09/09/01

CONSULTAS MÉDICAS QUE DÃO IBOPE

 

Depois de seis anos de faculdade e mais tantos outros de residência, surge um novo campo de trabalho. Em vez daquela vida consultório-hospital, uma rotina agitada, com dezenas de entrevistas e até pedidos de autógrafos nas ruas. São poucos os médicos que admitem haver uma ponta de vaidade, estrelato ou vontade de aparecer na TV, mas o certo é que a freqüência com que esses profissionais aparecem na telinha está diretamente ligada ao prestígio deles em seu meio.

Uma das seduzidas pelo mundo eletrônico é a dermatologista Ligia Kogos, que, além de ser assídua em programas femininos da TV, aparece com freqüência em publicações especializadas na vida de celebridades. Vaidosa, Ligia assume seu lado estrela e diz que se preocupa até com o ângulo em que é filmada. “Sou meio Julio Iglesias, sei que meu lado esquerdo é melhor”, brinca. Por causa disso, já chegou a pedir para alguns apresentadores mudarem de lugar com ela na hora das gravações. Ligia recebe, em média, dois pedidos de entrevista por dia. Para organizar sua agenda, costuma marcar todas elas em apenas um dia da semana. Apesar de evitar programas sensacionalistas, diz que é difícil recusar um convite. “Sei que gosto de aparecer mais do que deveria, mas tenho uma certa fascinação pela mídia”, admite.

As aparições na TV fizeram com que o nome de Ligia se fortalecesse e que virasse uma espécie de grife. Carolina Ferraz, Eliana, Ivete Sangalo, Hebe e Tiazinha são algumas de suas pacientes, que contribuem para divulgar ainda mais o seu nome. Sua lista de pacientes conta com 31 mil nomes e marcar uma consulta com ela só com muita paciência. Atualmente, a dermatologista tem horário livre apenas para 2004.

Quem encontrá-la na rua, no entanto, pode aproveitar para tirar uma casquinha. Ligia garante que a-d-o-r-a ser reconhecida e que é comum dar receitas para seus fãs. “O pessoal das farmácias de manipulação diz que, quando chega alguém com uma receita escrita em guardanapo de papel, sabe que é minha”, diz. Ligia já chegou ao cúmulo de autografar um vidro de xampu que leva o seu nome, para uma admiradora mais afoita.

Os amigos do ginecologista Malcolm Montgomery também atribuem a ele o apelido de “médico popstar”, já que é comum o especialista distribuir autógrafos para admiradoras. Malcolm ficou conhecido na mídia por divulgar novos tratamentos ginecológicos e também por namorar artistas famosas. Pelo seu consultório circulam beldades como Ana Paula Arósio, Fernanda Lima e Ana Hickman. “Acho tudo muito natural, pois sempre tive contato com as pessoas deste meio”, explica.

Apesar de fazer pinta de galã e sedutor, Malcolm – que pretende estrear este ano uma palestra onde cantará músicas de Chico Buarque – diz que nunca sentiu que aparecer na TV “massageasse seu ego”. “Teve uma época que percorria o País dando palestras. Acho que isso acionava muito mais o meu ego.”

Para o psiquiatra-VJ Jairo Bouer, mais importante que a vaidade é a vontade de ser um prestador de serviço. “Consultório é como ourivesaria: exige paciência e tempo, já a mídia divulga suas idéias de uma maneira muito mais ampla e rápida. Isso me fascina”, diz.

Há quatro anos na MTV respondendo às mais diversas dúvidas sobre sexo, Jairo se tornou o queridinho dos adolescentes e decidiu apostar mais na sua carreira de comunicador do que de médico. “Antes passava quase o dia todo no consultório, hoje vou apenas duas tardes por semana e escrevo para revistas, jornais e internet.”

Sem glamour

O dentista Fábio Bibancos, um dos poucos da área a entrarem para o mundo dos famosos, também passou a enveredar por outros campos depois de se tornar o dentista de nove entre dez celebridades. Bibancos já escreveu livros, foi idealizador de projetos sociais, como o Adote um Sorriso e é autor da peça infantil A Guerra dos Mutans, que está em cartaz em São Paulo. “O fato de eu conhecer artistas me deu a chance de entender um pouco mais sobre arte e isso fez com que eu aplicasse na minha área o mesmo recurso”, explica.

Comparações com estrela e astro, no entanto, fazem Bibancos se envergonhar. “Seria fantasioso se pensasse que sou artista. Nunca aceitei convite de revistas para mostrar como é a minha sala de espera nem sou reconhecido nas ruas”, diz. Para ele, uma pessoa que sabe como fazer um bom uso da mídia é o médico Dráuzio Varella, que, atualmente, apresenta um quadro no Fantástico.

Dráuzio é mesmo um espelho para essa turma. Com seus quadros sobre os perigos do cigarro, primeiros socorros e sobre gravidez se transformou em um símbolo de médico ideal. “Ele fala de saúde coletiva brincando e é muito sério”, diz Bibancos. No entanto, as gravações e as freqüentes viagens feitas por Dráuzio acabaram custando ao doutor do Fantástico um expediente exaustivo. Na última semana, Dráuzio ficou apenas dois dias na cidade, tempo insuficiente para conceder uma entrevista ao Estado.

No grupo dos médicos que preferem ficar longe do rótulo de popstar está também o psicanalista Jacob Pinheiro Goldberg, que freqüenta estúdios de TV há mais de 20 anos. Apesar de ter cara conhecida pelo público, Goldberg garante que não costuma atrair a atenção de admiradores. “Não costumo agradar ao público. Tenho posições muito radicais e polêmicas”, diz o doutor em psicologia que já cuidou do temperamental jogador Marcelinho Carioca, entre outros famosos. Goldberg faz questão de diferenciar a informação, que, para ele, é uma obrigação profissional, de narcisismo ou de objetivos mercantilistas. “Não me sinto artista e me esforço para não parecer. Sinto que existem profissionais que acabam se encastelando, mas não é o meu caso.”

Para o especialista em reprodução humana Roger Abdelmassih a compensação em aparecer na tela não é no aumento do número de clientes na clínica, mas sim a informação que foi dada. Abdelmassih estreou na TV em 1972, mas foi depois de se tornar médico de Pelé e ser o responsável por seus filhos gêmeos, em 1996, que virou a sensação dos meios de comunicação. Apesar de, na época, ter sentido um grande aumento no número de clientes de sua clínica – que já tinha um movimento considerável –, Abdelmassih acredita que a clientela feita pela imprensa é fugaz. “Na minha área o que importa é o resultado de gravidez e isso é passado na credibilidade dada de paciente a paciente.”

As alegrias destes profissionais de serem lembrados e convidados para aparecerem na TV se contrasta, ultimamente, com o desgosto do psiquiatra José Ângelo Gaiarsa em não ser mais lembrado. “Para meu dodói eles não me convidam mais o quanto eu gostaria”, diz o médico que já chegou a apresentar um programa na Band durante dez anos e se vangloria de ter escrito cerca de 30 livros – nenhum encalhado – e ministrado milhares de palestras. “Eu dou ibope. Acho que não me convidam porque deve ter uma fila enorme de gente querendo aparecer na TV.”

 

O Estado de S. Paulo – 26/01/03

BIG BROTHER BRASIL

Carol Knoploch

"Big brothers da vida real", copyright O Estado de S. Paulo, 3/02/02

"Bisbilhotam pelo olho mágico da porta ao ouvir burburinhos no corredor. Vigiam o vizinho pela janela, com ou sem binóculo. Não desviam a atenção de cenas picantes, ousadas, inesperadas, envolvendo pessoas na rua, estacionamento, trabalho... em qualquer lugar. A mania de observar tem variáveis. Começa num simples detalhe a ser notado e pode chegar à patologia. ‘Todo mundo, sem exceção, é um pouco voyeur’, garante o psicólogo Jacob Pinheiro Goldberg.

Não é preciso ter parafernália de voyeur para comportar-se como tal. Basta ser curioso. E esse fato tem sido o principal aliado dos reality shows, sucesso na televisão do mundo inteiro que, há alguns meses, chegou ao Brasil. Primeiro com a Casa dos Artistas, que tinha um buraco da fechadura como símbolo - recorde de audiência na história do SBT. E agora, com o Big Brother, da Rede Globo.

O programa teve início avassalador. De acordo com o Ibope, na estréia, alcançou 49 pontos de média de audiência (cada ponto representa 44 mil domicílios na Grande São Paulo). No dia seguinte, registrou 53 pontos de média e, na quinta-feira, 51 pontos na primeira parte (das 21h34 às 21h40) e 32 pontos de média após o jogo de futebol do Brasil contra a Bolívia (das 23h54 até 0h06). A atração traz slogans como ‘para quem gosta de olhar’, ‘entre e olhe à vontade’ e ‘nada vai escapar dos seus olhos’.

O voyeurismo é tema clássico do cinema - o próprio espectador é um pouco voyeur. Inspirou filmes como Janela Indiscreta, de Alfred Hitchcock, e Invasão de Privacidade, de Phillip Noyce. O psicólogo Goldberg acha convidativas a sala escura, sem ruídos, e a tela grande. Ajudam o público a se desligar dos problemas diários enquanto observa a vida alheia, mesmo de um personagem. ‘Isso é tão voyeur quanto acompanhar as fofocas de um ídolo na revista Caras ou ter um binóculo para ver a vizinha trocar de roupa.’

Jefferson Santos, de 30 anos, comprou a primeira luneta aos 12, com a mesada e a venda de um relógio de joguinho. ‘Passei para uma luneta de seis fases, com tripé, e hoje uso uma filmadora que aproxima 700 vezes a imagem. Mas não filmo! Só olho’, garante o administrador.

Comenta que ‘desde que se conhece por gente’ espiava, pelo buraco da fechadura, as empregadas tomando banho. ‘Nem entendia por que gostava. Só a partir dos 12 anos passei a ter malícia.’ Até os 23 anos, ficava mais de três horas por dia com o olho grudado na luneta à procura de momentos interessantes. Acha que mais de 90% dos voyeurs querem ver cenas de sexo.

Do oitavo andar de um prédio no Jardim Marajoara, onde morou por 12 anos, conheceu uma voyeur - um dia as lentes se cruzaram - e acompanhou a vida de um vizinho. ‘Ele tinha várias namoradas, mas depois que se casou e teve um filho, deixou de procurar a mulher.’ Para saber as histórias de um prédio que era impossível observar (o dele mesmo) contava com a ajuda da amiga ‘curiosa’.

Ingenuidade - O voyeur não se interessa apenas por cenas de sexo. Uma menina de 14 anos que, envergonhada, pediu para não ser identificada, passa as tardes de olho nos vizinhos. Sabe que o ‘cara do sétimo andar’ deixa o cachorro preso na varanda quando sai. E que a vizinha da frente, uma menininha, sempre coloca uma cadeira de plástico em frente da TV, quando começa O Clone. ‘Ela dança igual as meninas da novela. Outro dia, fui conferir, liguei a televisão e ela estava imitando, com as mãos, as meninas muçulmanas.’ A mãe fica preocupada. ‘Ela não gosta de sair de casa, mas pediu um binóculo.’

Surpresas - Flávio Franco, de 30 anos, é voyeur assumido. Gosta de ver, de longe, a reação das namoradas, ao serem surpreendidas com presentes. Já ‘invadiu’ um apartamento em frente ao de uma delas, com uma luneta, para conferir como receberia uma serenata encomendada. ‘Ela chorou de emoção.’

Dono de uma drogaria na zona leste, gosta de bisbilhotar a vida dos clientes. ‘Sei quem trai, quem tem amantes, quem não ‘funciona’ mais...’ O ponto, o mesmo há 12 anos, e a profissão ajudam a descobrir a intimidade dos freqüentadores. Acha engraçado quando as pessoas tentam enganá-lo. ‘Quem compra Viagra diz que é para um amigo.’

Para Goldberg, algumas profissões são movidas pela ‘curiosidade de voyeur’, mas não a do dono de farmácia - cita o investigador de polícia, detetive, jornalista, fotógrafo, profissionais de hotelaria (que sabem, por exemplo, que o hóspede do 513 pediu frango com batata) e o próprio psicólogo. ‘Mas esse Flávio é mesmo um voyeur. Gosta de ver e saber da vida dos outros.’

Goldberg explica que o costume de olhar o outro torna-se patologia quando o indivíduo perde a identidade e passa a viver a história de quem observa.

‘Doente é aquela pessoa que deixa de almoçar para ver o outro almoçando, ou põe em risco o trabalho para não perder um lance da vida do vizinho.’

Exibida - Se há os que gostam de olhar é porque também não faltam os que apreciam se mostrar. A modelo Patrícia Limonge, de 26 anos, ficou conhecida em abril do ano passado, no jogo do Palmeiras contra o argentino Sport Boys, pela Libertadores da América. Rebolou, só de calcinha, na janela do apartamento, para delírio dos ocupantes das arquibancadas do Parque Antártica. As amigas ajudaram no show, apagando e acendendo as luzes. ‘Comemorei o gol’, comenta. Hoje faz o quadro Teste de Fidelidade no Você na Tevê, da RedeTV!.

Patrícia, que antes disso estava desempregada, diz gostar de aparecer ‘por causa da profissão’. ‘Faz bem para o ego, mas é importante estar em evidência para ter trabalho.’

O modelo e ator Taiguara Nazareth, de 25 anos, saiu da Casa dos Artistas com a esperança de obter notoriedade e emprego. Mas até agora só conseguiu ‘bicos’, como a presença em bailes. Para voltar à telinha traçou nova estratégia. Vai desfilar em todas as 14 escolas de samba de São Paulo - ‘quem sabe assim, né?’ - e pretende gravar um CD de black music. ‘Vou bancar do bolso e quem sabe fecho com uma gravadora.’

De fato, o exibicionismo tem público cativo, como o do salão de beleza, onde Caras, Quem e Chiques & Famosos são leitura obrigatória. ‘Caras é uma revista muito procurada. Está sempre nas mãos das clientes - até a capa cai, de tanto que é folheada’, comenta Maria Livramento de Oliveira, de 62 anos, da equipe do Vita Cabeleireiros. ‘A cliente quer saber sobre a vida dos artistas’, acrescenta a manicure Marlene Silva Fonseca, de 26 anos. ‘É fofoca! E a gente também lê para ter assunto com as clientes’, ressalta a também manicure Cristina Carneiro dos Reis, de 33 anos. ‘As campeãs em aparição são Xuxa e Sasha’, conclui Cleusa de Souza Cardoso, de 40 anos."

 

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Universo que soma agências infantis, concursos de TV e mães dispostas a pagar qualquer preço para verem seus filhos famosos implica requintes cruéis e sérios riscos para o crescimento das crianças

KEILA JIMENEZ E RENATA GALLO

Simony tinha dentes de leite quando estourou na TV e nas rádios no comando do grupo Balão Mágico; Narjara Tureta ainda era uma menina quando emocionou o público como filha de Regina Duarte no seriado Malu Mulher.

Ambas fizeram grande sucesso. De uma hora para outra, desapareceram.

As duas são exemplos de que o sucesso infantil não é certeza de fama no futuro. No mundo efêmero da TV, não são poucos os casos de crianças que surgem e somem da telinha como num passe de mágica, crianças que enfrentam "nãos" na carreira que assustam até gente grande, que no auge dos seus 12 anos de idade já estão "velhas" demais para a TV, "perderam a graça", como dizem muitos produtores.

Mesmo assim, a busca das mães por cinco minutos de fama para seus pequenos não pára. São maratonas de testes, filas, disputas acirradas em concursos, gastos com fotos, vídeos, cursos... Vale tudo para lançar os pimpolhos aos "leões" do estrelato. Há toda uma indústria que sobrevive e cresce dessa ânsia.

A agência Talentos Brilhantes é um exemplo. Com apenas quatro anos no mercado e com uma propaganda maciça na TV, a empresa já tem 20 unidades espalhadas pelo Brasil e cerca de 20 mil rostinhos em seu banco de dados.

O diferencial da agência, segundo Benito Alvarez Rizzi, um dos sócios, é que a Talentos Brilhantes cria demanda, ou seja, produz programas para serem veiculados na TV como se fosse uma vitrine para seus produtos: as crianças.

Nesses programetes, que podem ter até formato de novela ou minissérie, os pequenos aparecem exibindo seus dotes: cantam, dançam, desfilam ou atuam. E olha que a logística da empresa é sofisticada. "Temos algumas janelas nos programas para mostrar a criança local em sua região", explica Rizzi. Assim, segundo ele, fica mais fácil para os produtores dos diferentes Estados do País escolherem a carinha que se encaixa melhor ao seu produto.

E não é só. A mãe que leva seu filho para se cadastrar na Talentos Brilhantes tem outras "vantagens": descontos em lojas e lanchonetes e até uma loja de roupas - cujo chão simula uma passarela, com direito a câmera de vídeo para a criança ver se a roupa lhe caiu bem - são algumas delas. Mas todo esse "conforto" não cai do céu. Apesar de Rizzi afirmar que, de acordo com os "Mandamentos da Talentos Brilhantes" - sim, existe um -, para se inscrever na agência não é preciso gastar dinheiro com books e apenas pagar uma taxa de R$ 60 (que pode ser parcelada em duas vezes), é difícil encontrar um "filiado" que não tenha gasto menos de R$ 300 em todo o "tour".